No sábado, Sora e Riku leram a carta da Kairi juntos no palco do D23 pela primeira vez em 25 anos. Um dia depois, Hayden Panettiere morreu aos 36
Osment e Gallagher recriaram o final de Kingdom Hearts II no D23 sem a voz original da Kairi. Um dia depois, Hayden Panettiere morreu aos 36 anos.
A ausência da Hayden Panettiere foi comentada no palco antes de qualquer pessoa na plateia saber o que estava por vir. No sábado, no D23, Haley Joel Osment e David Gallagher fizeram algo que nunca tinham feito nos 25 anos de Kingdom Hearts: dividiram o mesmo palco para atuar juntos. Os dois recriaram ao vivo o final de Kingdom Hearts II, Sora e Riku reunidos no reino das trevas, a carta da Kairi chegando dentro de uma garrafa. Só que a voz original da Kairi não estava ali, e o mediador Khleo Thomas preferiu dizer isso em voz alta antes de começar: “A gente escuta o texto da carta lido em voz alta. As vozes de Sora e Kairi se misturam. Hoje, vamos deixar por conta do Sora.”
No domingo, um dia depois do painel, Hayden Panettiere morreu aos 36 anos. A causa não foi divulgada e o caso segue em investigação. O pai dela, Skip Panettiere, pediu privacidade para a família e disse em comunicado que ela “era uma luz incrível e uma força da natureza que trouxe amor e alegria incalculáveis para todos que a conheceram, e para os milhões que a assistiram na tela”.
A cronologia dessas 24 horas é cruel de um jeito que ninguém planejou. O painel foi montado como celebração de aniversário, com Nomura batendo o pé no calendário de Kingdom Hearts IV para acabar com o rumor de atraso (“vi gente dizendo online que a data ainda pode ser empurrada. Quero deixar claro: isso não vai acontecer”) e Tai Yasue prometendo que o lançamento em 2027 é “coisa de 100 por cento, não de 80 ou 90 por cento”. A decisão de deixar a carta com o Sora era só uma solução de produção, do tipo que qualquer painel toma quando falta alguém do elenco. Vinte e quatro horas depois, virou a última vez que aquele texto foi lido com a Kairi ausente por um motivo administrativo.
Kairi durou dois jogos e ficou pra sempre
Preciso ser honesta sobre o tamanho do trabalho: Hayden Panettiere foi a voz em inglês da Kairi no Kingdom Hearts original, de 2002, e voltou em Birth by Sleep, de 2010. Nunca mais gravou a personagem. Alyson Stoner assumiu o papel e o mantém em todas as aparições principais desde então, o que significa que a maior parte da franquia, incluindo o KH3 e o que vem no KH4, tem outra atriz na Kairi.
Isso não diminui nada, e a reação dos fãs explica por quê. As duas cenas que sustentam emocionalmente o primeiro jogo são as mãos que se soltam e as mãos que se procuram, e as duas dependem da voz dela. Um fã resumiu bem: “vou segurar meu replay de KH1. Aquele final em que Sora e Kairi esticam a mão um pro outro, ela diz ‘eu sei que você vai’, e Simple and Clean entra depois, ia me deixar chorando como um bebê. Obrigado por ter sido parte da minha infância”. Outro escreveu só “essa dói, tão nova, descanse em paz, nossa Kairi original”. Teve gente republicando a abertura do monólogo da carta, “pensando em você, onde quer que você esteja, rezamos para que nossas tristezas acabem e esperamos que nossos corações se misturem”.
Kingdom Hearts nunca teve dublagem em português, então quem jogou o primeiro jogo aqui ouviu a voz dela, com a música da Utada Hikaru entrando por cima. É por isso que a lembrança é tão específica pra uma geração inteira de brasileiros que zerou aquilo no PS2 com dicionário do lado.
Sam, em Until Dawn, foi ela por inteiro
O papel mais completo dela em jogos veio treze anos depois do primeiro Kingdom Hearts. Em Until Dawn, de 2015, da Supermassive Games, ela interpretou Samantha “Sam” Giddings, uma das personagens jogáveis centrais. O trabalho foi muito além da voz. O estúdio usou captura de movimento e escaneamento facial, aquela técnica de filmar o corpo e o rosto do ator com dezenas de câmeras para transferir cada expressão pro modelo 3D, então a Sam do jogo tem literalmente o rosto, o olhar e o jeito de andar da Hayden Panettiere. Quem jogou lembra da sequência da banheira e da fuga de toalha porque a atuação era boa, e a atuação era dela.
E teve continuidade. No remake de 2024, que reconstruiu o jogo na Unreal Engine 5, a Supermassive reaproveitou a captura original da campanha, mas chamou a atriz de volta para gravar um epílogo novo, inédito no jogo de 2015. Esse epílogo é o trabalho mais recente dela em games, dois anos antes de morrer. Until Dawn também virou filme em 2025, um dos pouquíssimos projetos que efetivamente chegaram ao cinema entre as dezenas de adaptações de videogame que Hollywood mantém em desenvolvimento.
Tem um detalhe brasileiro que quase ninguém está mencionando hoje: Until Dawn chegou aqui com dublagem em português, gravada na Sergio Moreno Filmes, no Rio, e a Sam ficou com a Teline Carvalho. Uma parte considerável de quem jogou no Brasil, provavelmente a maioria, atravessou a noite inteira em Blackwood Pines ouvindo a voz da Teline. Mas o rosto na tela, o pânico nos olhos durante os QTEs, aqueles momentos em que o jogo pede um comando em dois segundos ou alguém morre, tudo isso continuou sendo performance da atriz original. É um caso interessante de como a captura de movimento mudou o que significa “estar” num jogo: a dublagem troca a voz, e o resto permanece.
O painel do D23 vai virar clipe de aniversário nos próximos anos, aquele momento em que Sora e Riku finalmente atuaram juntos no palco depois de 25 anos. A carta lida por uma voz só era uma escolha de produção no sábado. Desde domingo, é a única leitura possível.
Marina Costa
Entusiasta de tech e indie games
Especialista em games indie e multiplayer. Jogadora e analista de mecânicas de jogo.
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