Vazaram 12 TB de arquivos antigos da Steam por um servidor aberto da Valve. O "Half-Life 3" que acharam lá dentro é o Episode Three
Doze terabytes de builds da Steam entre 2003 e 2013 vazaram de um servidor aberto da Valve. Tem F-Stop, protótipo de GTA III e nenhum Half-Life 3.
Passei o fim de semana vendo gente abrir pasta: uma fila de lives e threads de datamining com pessoas descompactando arquivo de 2009 igual a quem acha caixa de mudança esquecida no fundo do armário. Fiquei hipnotizada.
O vazamento da Steam que estourou entre sábado e domingo tem cerca de 12 TB e cobre uma década inteira, tudo que passou pelos servidores da Valve entre 2003 e 2013. A comunidade batizou de Steam2 Teraleak.
Steam2 era o sistema que a Valve usava pra empacotar e entregar jogo antes de 2013. Cada versão de cada jogo ficava guardada em pedaços chamados depots, uns pacotes fechados com os arquivos daquele build específico. Em fevereiro de 2013 a Valve migrou tudo pro SteamPipe, que roda até hoje, e os depots velhos ficaram parados num canto do servidor.
Foi esse canto que abriu. E abriu sozinho, que talvez seja a parte mais constrangedora da história toda.
Gabe Follower, datamineiro que passou anos catalogando sobra de projeto da Valve, checou a procedência dos arquivos e chegou na explicação menos cinematográfica possível. “Nada de hackear. Só verifiquei que tudo no Steam2 Teraleak foi obtido através de um endpoint publicamente acessível. A culpa é da Valve”, escreveu. Endpoint é o endereço que um servidor deixa respondendo pra quem bater na porta. Esse respondia sem senha, sem login, sem nada. Alguém achou e ele continuou respondendo.
F-Stop, o Portal que nunca existiu
A parte que me pegou foi F-Stop. Antes de Portal 2 virar Portal 2, a Valve trabalhou num projeto no mesmo universo em que você não teria portal nenhum. Teria uma câmera da Aperture Science que fotografava um objeto, guardava na memória e cuspia de volta no cenário, em tamanhos diferentes. O projeto foi engavetado. Nos arquivos apareceram os modelos 3D da câmera e os ícones de interface, coisa que até agora só existia em descrição de entrevista.
Junto vieram salas de teste de Portal 2 datadas de 2009 usando os braços do Team Fortress 2 como quebra-galho, uma abertura pré-renderizada que nunca foi usada, modelos de zumbi herdados de Half-Life 2 e um protótipo de portal gun com a estética da Combine. É o tipo de coisa que só faz sentido pra quem já perdeu tempo demais lendo sobre desenvolvimento de jogo. Eu perdi.
Tem também um modelo de arma chamado Weaponizer, feito pra Half-Life 2: Episode Three e reaproveitado como placeholder dentro de Portal 2. Placeholder é aquele objeto qualquer que o time joga na cena só pra não ficar buraco enquanto a arte de verdade não fica pronta. Alguém pegou uma arma do jogo que nunca saiu e usou como enchimento.
O Half-Life 3 que não estava lá
Manchete brasileira já saiu dizendo que o vazamento revelou Half-Life 3. O que apareceu foi material de Half-Life 2: Episode Three, o capítulo que a Valve começou, abandonou e transformou no maior vácuo da história dos games. Chamar aquilo de Half-Life 3 é mentira.
Escrevi em julho sobre duas imagens de Half-Life 3 que vazaram e sumiram em segundos, e a lição continua igual: a comunidade quer tanto esse jogo que qualquer arquivo com a palavra Half-Life no nome vira anúncio.
GTA III, Duke Nukem Forever e mais de dez mil depots
O vazamento vai muito além da Valve, e por isso ele é grande de verdade. Entre 2003 e 2013 tudo que era publicado na Steam passava pelo mesmo sistema, então os depots de terceiros estão ali do lado.
O Hidden Palace, site dedicado a preservar protótipo de jogo, montou uma lista dos builds recuperáveis: Grand Theft Auto III, Crusader Kings II, Sonic the Hedgehog 4, Duke Nukem Forever, Plants vs. Zombies, Mafia 2, Civilization V e uma build de Spec Ops: The Line datada de janeiro de 2011, um ano e meio antes do lançamento comercial.
O índice de depots tem cerca de 10.876 linhas. Como um jogo ocupa vários depots, o número real de títulos é menor que isso, só ninguém sabe ainda quanto menor.
87% dos jogos clássicos já sumiram do catálogo legal
O que me interessa de verdade é o que esse fim de semana diz sobre preservação.
Em 2023 a Video Game History Foundation publicou um levantamento com amostra de 1.500 jogos lançados nos Estados Unidos antes de 2010 e concluiu que 87% deles estão fora de catálogo, sem nenhuma forma legal de comprar. Sobram 13% da história dos videogames disponíveis pra quem quiser pagar. No Game Boy o número cai pra 5,87%. No PlayStation 2, 12%.
Esses builds de 2003 a 2013 estavam tecnicamente vivos, guardados em servidor da Valve, e ao mesmo tempo tão inacessíveis quanto se tivessem sido apagados. Ninguém ia rodar aquilo. Ninguém ia estudar aquilo. Um servidor mal configurado fez pela memória do PC gaming mais do que dez anos de política oficial da indústria.
Isso é desconfortável de escrever. Vazamento é vazamento, e tem gente cujo trabalho abandonado virou espetáculo público sem ninguém perguntar. Mas quando o criador de Skate Story disse pra piratearem o jogo dele se estivesse caro, ele apontava pro mesmo buraco: o acesso legal cobre uma fatia pequena demais do que existiu.
A Valve segue calada, dois dias depois. Dá pra entender. Com a origem sendo um servidor aberto da própria casa, qualquer comunicado piora a situação.
Pro seu dia a dia isso muda quase nada. Você não vai instalar F-Stop no fim de semana. São builds incompletos, com arquivo faltando, feitos pra rodar num sistema que a Valve aposentou há treze anos, e boa parte do que o Hidden Palace listou já saiu da lista justamente por falta de asset.
O que sobra é uma década de PC gaming que estava trancada e agora está aberta. A década que o Brasil passou em lan house, aliás: as builds de teste de CS:GO com mapas em blockout, aqueles cenários feitos só de caixotes cinzas antes da arte entrar, estão nesse pacote.
Fico pensando no dev que modelou o Weaponizer em 2007, achou que ia sair num jogo, e descobriu neste domingo que a arma dele virou enchimento em Portal 2 e depois virou arquivo público. Espero que ele ache graça.
Marina Costa
Entusiasta de tech e indie games
Especialista em games indie e multiplayer. Jogadora e analista de mecânicas de jogo.
LEIA TAMBEM
A Activision entregou notificação judicial na porta do vendedor de cheat EloCarry e filmou tudo. Os hacks de Call of Duty sumiram do site; os de Rust e Apex continuam lá
Cyberleek sacou pelo menos US$ 250 mil da própria criptomoeda no dia do trailer de GTA 6, e o token caiu 86%