A Bethesda promete que o Elder Scrolls 6 não vai atrasar. Quem ficou no estúdio não parece tão confiante

Depois de 3.200 cortes no Xbox e 440 vagas sindicalizadas fora, a Bethesda jura que o roadmap do Elder Scrolls 6 segue intacto. O sindicato rebate.

Carla Mendes
Carla Mendes Cobrindo esports desde 2018
26 de julho de 2026 5 min
Três personagens de armadura pesada observam uma cidade élfica em meio à floresta, cena de The Elder Scrolls Online, MMO da ZeniMax Online
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Pergunta seca, resposta seca. Quando o YouTuber MrMattyPlays cutucou a Bethesda sobre um possível atraso de The Elder Scrolls 6 por causa da leva de demissões que sacudiu o Xbox em julho, o estúdio respondeu numa linha: “O roadmap [de The Elder Scrolls 6] está intocado”. Fim de papo, teoricamente.

O problema é o tamanho desse “intocado”. Ele chega na mesma semana em que a Microsoft confirmou o maior corte da história do Xbox: até 3.200 vagas eliminadas, algo como 20% da divisão, sendo cerca de 1.600 de imediato em 6 de julho e outras 1.600 espalhadas até meados de 2027. A nova CEO do Xbox, Asha Sharma, chamou tudo de “reestruturação mais significativa” da história da divisão numa carta que a gente já dissecou por aqui. Resumindo o resumo: demitiram gente pra caramba e mesmo assim fecharam o ano no lucro.

E é dentro desse pacote que mora a treta. O OneBGS, sindicato ligado à CWA que representa os trabalhadores da Bethesda Game Studios, diz que mais de 440 vagas sindicalizadas foram cortadas de uma vez, espalhadas por Bethesda Game Studios, ZeniMax Online (o estúdio do Elder Scrolls Online), id Software (a casa de Doom), o time de controle de qualidade da ZeniMax e o corporativo. Perderam, nas palavras do próprio sindicato, dezenas de programadores, artistas, designers e testers. E nenhuma das “14 camadas de gerência” da Microsoft, como eles fizeram questão de apontar.

A leitura do sindicato é ácida. “A empresa quer que a gente aceite isso como fato consumado e desapareça quietinho. Não vamos deixar”, disse o comitê organizador do OneBGS. No dia 15 de julho, os trabalhadores organizaram a marcha “Save Our Devs” em quatro lugares ao mesmo tempo: Rockville (Maryland), Austin e Dallas (Texas) e Montreal, no Canadá. A pergunta que ecoou nos protestos foi direta: quando esse ciclo de cortes em nome de lucro cada vez maior vai acabar?

E o estrago passou longe de ser só na Bethesda. O corte redesenhou boa parte do time de estúdios do Xbox: a Obsidian, de Avowed e Pentiment, levou sua parte, e a ZeniMax Online e a id Software também. Alguns estúdios foram literalmente soltos. A Compulsion Games e a Double Fine voltaram a ser independentes com seus jogos debaixo do braço, enquanto Ninja Theory (de Senua) e Undead Labs (de State of Decay 3) entraram em acordo para mudar de dono. Quando o tabuleiro inteiro treme desse jeito, garantir que uma peça específica ficou “intocada” soa mais como torcida do que como certeza.

Agora encosta as duas frases uma na outra. Bethesda: roadmap intocado. Sindicato: perdemos dezenas de devs que sentam e fazem o jogo. As duas coisas sendo verdade ao mesmo tempo só fecham a conta de um jeito, e todo mundo que já trabalhou perto de deadline sabe qual: menos gente, mesmo prazo, mais crunch. Crunch, pra quem não vive de desenvolvimento, é aquele período de trabalho puxado, hora extra virando rotina, fim de semana sumindo, tudo pra entregar dentro da data. Os próprios funcionários citados nas reportagens já falaram em medo de atraso e de crunch. E menos gente é menos hora disponível, sim, mas é também perda de memória de projeto: quem sabia como aquele sistema foi montado, quem carregava o contexto que não está documentado em canto nenhum. Isso não se recontrata numa semana. A Bethesda garantiu que o cronograma não muda. Ela não disse uma palavra sobre o custo humano de manter esse cronograma de pé com menos mão na massa.

E tem o detalhe que quase ninguém comenta: qual cronograma, afinal? The Elder Scrolls 6 apareceu num teaser de 15 segundos lá em 2018. Oito anos depois, segue sem data oficial, com a imprensa especializada chutando 2028 ou 2029. A Bethesda reafirmou que o jogo é o “foco principal de desenvolvimento” do estúdio e ainda avisou que não esqueceu do Oblivion Remastered. Prometer que um roadmap sem data pública está “intocado” é o tipo de promessa fácil de fazer: não existe marco visível pra você furar. É garantir que o trem tá no horário sem nunca ter dito a que horas ele chega.

A comunidade não engoliu inteiro. No Reddit e no Twitter, a resposta se dividiu entre alívio e deboche. Muita gente lembrou que “foco principal de desenvolvimento” foi mais ou menos o que a Bethesda falava de Starfield antes de ele sair, em 2023, e dividir a base de fãs no meio. Promessa de estúdio grande sobre prazo tem histórico de envelhecer mal, e depois de um Starfield morno o crédito anda curto. Teve quem transformasse o “intocado” em piada no melhor estilo “confia”. A própria reportagem do PC Gamer cutucou o timing, com aquele deboche de quem já viu esse filme: o estúdio jura que não está falando isso porque alguém mandou.

Pro brasileiro, a parte prática é o Game Pass. Quando The Elder Scrolls 6 sair, ele deve cair no serviço no dia do lançamento, igualzinho aconteceu com Starfield. E o timing é engraçado: em abril de 2026, a Microsoft cortou o preço do Game Pass Ultimate no Brasil de R$ 119,90 para R$ 76,90, depois de ter praticamente dobrado o valor em setembro de 2025. A mesma empresa que demite 3.200 pessoas alegando reestruturação é a que baixa o preço da assinatura para segurar assinante. Cada um tira a própria conclusão sobre a saúde real do negócio. E pra quem no Brasil olha o preço de um AAA de lançamento e engole seco, cair no Game Pass no dia um é a diferença entre jogar agora ou esperar meses por uma promoção decente.

Enquanto isso, o roadmap segue “intocado” no papel. A Bethesda apostou que dá pra perder dezenas de devs e não mexer numa data que ela mesma nunca divulgou. Se essa conta fecha ou explode na forma de mais um adiamento, a gente só vai descobrir do jeito de sempre: esperando. Provavelmente até 2028, se tanto.

Carla Mendes
AUTOR

Carla Mendes

Cobrindo esports desde 2018

Cobrindo cenário competitivo de esports desde 2018. Acompanha torneios e equipes profissionais.

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