A Coreia do Sul vai distribuir PCs de graça porque o preço da RAM ficou insustentável. A ironia? Quem fabrica a RAM é coreano.

PCs subiram 12,4% na Coreia e o governo vai doar máquinas recicladas. Samsung e SK Hynix, que fabricam a RAM, nunca lucraram tanto.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
9 de abril de 2026 5 min
Módulos de memória RAM DDR5 ilustrando a crise global de DRAM
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O governo da Coreia do Sul anunciou que vai distribuir computadores reciclados de graça para famílias de baixa renda, subsidiar a compra de PCs para estudantes e monitorar o mercado de memória RAM pra coibir preços abusivos. O motivo: a crise de RAM empurrou o preço dos computadores no país pra cima em 12,4% só em março. E a ironia é que quem fabrica a RAM que está cara demais são duas empresas coreanas.

Os números que forçaram a mão do governo

O índice de preços ao consumidor pra computadores na Coreia subiu 4,3% em outubro de 2025. Em fevereiro de 2026, já era 10,8%. Em março, 12,4%. O vice-primeiro-ministro Bae Kyung-hoon disse que “na era da IA e da digitalização, o direito de acessar dados está ligado aos direitos fundamentais necessários para que as pessoas conduzam suas vidas diárias”. Traduzindo: PC virou item essencial e o preço está tirando gente do mercado.

O pacote tem três frentes. Primeiro, o governo vai pegar os cerca de 22 mil computadores que descarta todo ano de órgãos públicos, consertar os que ainda funcionam e doar pra populações vulneráveis através das prefeituras. Mais da metade dessas máquinas era sucateada mesmo estando operacional. Segundo, o Ministério da Educação vai garantir pelo menos um dispositivo pra cada estudante de família de baixa renda do ensino fundamental e médio, com subsídio direto. Terceiro, o Ministério do Comércio e a Comissão de Comércio Justo vão fiscalizar o mercado de DRAM, PCs e notebooks pra identificar práticas abusivas de precificação.

De brinde, o governo sentou com os CEOs das três maiores operadoras de telefonia e arrancou compromissos: planos de 5G a 20 mil won (~R$ 75), serviços de voz e texto gratuitos pra idosos e Wi-Fi melhorado em transporte público.

A ironia de US$ 70 bilhões

Aqui é onde a história fica constrangedora. A Samsung e a SK Hynix, as duas maiores fabricantes de memória DRAM do planeta, são coreanas. A SK Hynix fechou 2025 com lucro operacional recorde de 47,2 trilhões de won, ultrapassando a Samsung pela primeira vez. A Samsung registrou 24,9 trilhões só no segmento de memória. Juntas, as projeções apontam pra mais de US$ 160 bilhões em receita em 2026.

O motivo do lucro recorde é o mesmo motivo do PC caro: as duas empresas redirecionaram até 40% da capacidade avançada de fabricação pra HBM (High Bandwidth Memory), a memória de alta largura de banda usada em chips de IA da Nvidia. HBM consome 23% da produção global de wafers de DRAM, acima dos 19% de 2025. Cada wafer que vai pra um data center de IA da Microsoft ou do Google é um wafer que não vira DDR5 pro seu notebook.

O presidente do grupo SK, Chey Tae-won, avisou em março que a demanda excede a oferta em mais de 20% e que a escassez pode durar até 2030. Expandir capacidade de fabricação leva de 4 a 5 anos. Não tem atalho.

Então o cenário é este: empresas coreanas faturam dezenas de bilhões vendendo memória premium pra data centers de IA, enquanto o governo coreano precisa doar computadores usados pra população que não consegue mais comprar PC novo. É como se a Petrobras batesse recorde de lucro enquanto o governo distribuísse bujões de gás.

E no Brasil?

O impacto já chegou. Módulos DDR4 de 16 GB que custavam entre R$ 220 e R$ 280 no início de 2024 estão passando de R$ 950 em janeiro de 2026. DDR5 que saía por R$ 600 a R$ 900 já ultrapassa R$ 2.100. O Canaltech resumiu: “acabou a era do PC barato”. Dell, Lenovo, HP e Asus já sinalizaram reajustes de 15% a 30% nos PCs vendidos no Brasil.

A IDC projeta que o mercado global de PCs vai encolher 11,3% em unidades vendidas em 2026, mas o valor total ainda sobe 1,6% pra US$ 274 bilhões. Ou seja: menos gente comprando, cada um pagando mais. Algumas fabricantes já estão vendendo PCs pré-montados sem RAM. O cliente compra a memória separado. É o novo normal.

O Brasil tem o programa Computadores para Inclusão, do Ministério das Comunicações, que já doou 70 mil máquinas recondicionadas de órgãos públicos, criou 5.700 laboratórios em 1.300 municípios e atende aldeias indígenas, quilombos, assentamentos rurais e comunidades ribeirinhas. O modelo é parecido com o que a Coreia anunciou agora. A diferença é que o programa brasileiro existe desde antes da crise de DRAM e não foi criado como resposta a ela. Se o governo quiser reagir ao aumento de preços especificamente, ainda não anunciou nada.

O que esperar

O Bank of America chamou 2026 de “superciclo de memória similar ao boom dos anos 1990”, com receita global de DRAM subindo 51% e NAND 45%. Pra investidor de Samsung e SK Hynix, é uma festa. Pra quem precisa comprar um notebook pra estudar, é uma crise.

A previsão mais otimista diz que os preços começam a ceder no segundo semestre de 2027. A mais realista aponta normalização só em 2028. A do presidente do grupo SK diz 2030. Enquanto isso, a Coreia do Sul está reciclando computadores do governo e subsidiando compra de PC pra estudante pobre. O país que fabrica a memória mais cara do mundo não consegue bancar seus próprios computadores.

Se isso não é o resumo perfeito da economia da IA, eu não sei o que é.

Lucas Ferreira
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Lucas Ferreira

Gamer desde o PS1, cético desde sempre

Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.

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