As big techs cortaram 80 mil empregos em três meses: a desculpa favorita agora tem duas letras
Quase 80 mil demitidos, metade culpa da IA. Mas quando empresas batem recorde de receita e cortam gente, a história é outra.
Quase 80 mil pessoas perderam o emprego no setor de tecnologia só nos três primeiros meses de 2026. O número já supera o primeiro trimestre inteiro do ano passado. E quase metade das demissões tech 2026 carrega a mesma justificativa oficial: inteligência artificial. Foram 78.557 cortes segundo os rastreadores de layoffs, com 47,9% atribuídos a “redução de necessidade humana por automação e IA”.
Pra ter uma dimensão: o primeiro trimestre de 2025 registrou cerca de 37 mil cortes. O de 2024, por volta de 57 mil. O de 2026 já passou os dois com folga. E estamos em abril.
A Oracle liderou com folga. Cortou cerca de 30 mil funcionários de uma vez, no dia 31 de março, por e-mail às seis da manhã. Plano de reestruturação de 2,1 bilhões de dólares registrado no último balanço trimestral. A Amazon mandou embora 16 mil. A Dell eliminou mais 11 mil vagas pelo terceiro ano seguido. E a Block, de Jack Dorsey, simplesmente cortou 40% da empresa inteira, passando de 10 mil para menos de 6 mil funcionários.
Recorde de receita, recorde de demissão
O detalhe que ninguém destaca é o contexto financeiro. A Dell bateu recorde de faturamento no último ano fiscal: 113,5 bilhões de dólares, crescimento de 19%. A empresa ganha mais dinheiro do que nunca. Mesmo assim, foi de 133 mil funcionários em 2023 para menos de 100 mil agora. A Oracle precisa financiar a expansão dos data centers de IA. A conta fecha com gente saindo pela porta. Lucro recorde e demissão em massa no mesmo relatório trimestral.
Jack Dorsey foi o mais descarado da turma. Na carta aos acionistas da Block, escreveu que “uma equipe significativamente menor, usando as ferramentas que estamos construindo, consegue fazer mais e melhor”. A nova estrutura tem só três tipos de cargo: quem constrói, quem responde por entregas em ciclos de 90 dias e quem orienta enquanto continua codando. Gerência intermediária? Acabou. O cara matou a profissão de gerente de projeto numa frase.
A afirmação mais reveladora foi outra: “dentro de um ano, a maioria das empresas vai chegar à mesma conclusão”. Dorsey não está prevendo o futuro. Está descrevendo o que já acontece e empacotando como visão estratégica. A eBay confirmou que o dinheiro economizado com cortes será reinvestido em IA. A Salesforce admitiu que a tecnologia já cuida de 30% a 50% do trabalho em certas áreas da empresa.
Quando a justificativa é boa demais
A Bloomberg publicou uma análise sobre o que chamou de “AI-washing” nas demissões. O conceito é direto: empresas que cortam gente por pressão financeira ou para bancar investimentos bilionários em infraestrutura dizem ao mercado que estão “se reestruturando para a era da IA”. As ações sobem, os investidores aplaudem, todo mundo sai feliz. Menos quem recebeu o e-mail às seis da manhã.
O contexto que falta nessa conversa: Amazon, Meta, Google e Microsoft planejam investir coletivamente mais de 650 bilhões de dólares em IA num único ano. Esse dinheiro precisa vir de algum lugar. Cortar folha de pagamento e dizer que é porque a IA substitui gente é a jogada perfeita. Reduz custo operacional e sinaliza modernização ao mesmo tempo.
Até Sam Altman admitiu que existe “AI-washing, quando empresas culpam a IA por demissões que fariam de qualquer jeito”. Quando o CEO da OpenAI diz isso, talvez valha prestar atenção.
Os cargos que mais sumiram não são só atendimento ao cliente e trabalho repetitivo. Desenvolvimento de software em nível júnior está sendo automatizado agressivamente. Algumas empresas reportam que 25% a 75% do código já é gerado por IA. Funções administrativas e de triagem foram dizimadas. E a gerência intermediária virou o alvo preferido de reestruturações que precisam mostrar resultado rápido.
E no Brasil?
No Brasil, a onda já chegou. A Stone cortou cerca de 400 funcionários. Mercado Livre fez cortes sem divulgar números. Ebanx, Olist e QuintoAndar eliminaram mais de 300 vagas cada em ondas recentes. O site layoffsbrasil.com acompanha esses movimentos em tempo real.
O Gizmodo Brasil acertou numa observação: a demanda está migrando de generalistas para especialistas capazes de desenvolver, treinar e supervisionar sistemas de IA. Essa transição deve se espalhar das big techs para empresas de todos os tamanhos dentro de um a dois anos. O mercado brasileiro, que inflou com dinheiro barato entre 2020 e 2022, agora enfrenta o segundo round de ajuste. Só que dessa vez a justificativa é mais sofisticada.
Pra quem está procurando emprego na área, o recado é direto: se o seu cargo pode ser descrito em três linhas pra um prompt de IA, ele está na mira.
A conta chega no hardware também
E a IA ainda está encarecendo tudo no caminho. Toda a RAM que data centers compram é RAM que não vai pro seu notebook ou celular. A previsão é que 70% da produção de DRAM premium vá para infraestrutura de IA em 2026. Preços de memória estão subindo 50% por trimestre. Nos EUA, kit de 32 GB DDR5 abaixo de 360 dólares já sumiu das prateleiras. No Brasil, multiplica por câmbio e imposto e o cenário fica pior.
Samsung já repassou aumentos de até 300 dólares em notebooks, tablets e celulares. Motorola subiu até 50% em algumas linhas. Quem garantiu estoque de chips por 12 a 24 meses foi Apple e Samsung. O resto que se vire.
O nome é outro
O primeiro trimestre de 2026 marca o momento em que “IA” deixou de ser promessa de futuro e virou pretexto corporativo do presente. As demissões são reais. O impacto nos preços é real. A transição do mercado de trabalho é real. A narrativa de que tudo acontece porque a inteligência artificial tornou humanos obsoletos? Essa parte precisa de mais ceticismo.
Quando uma empresa bate recorde de receita e demite 10% do time pelo terceiro ano seguido, o nome disso não é progresso tecnológico. É corte de custos com marketing melhor.
Lucas Ferreira
Gamer desde o PS1, cético desde sempre
Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.
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