Elon Musk reclamou do elenco negro de A Odisseia de Nolan e prometeu fazer a própria versão com IA
Elon Musk perdeu a campanha contra A Odisseia de Nolan e prometeu refazer o filme com IA até dezembro. O problema começa na palavra "historicamente".
Elon Musk passou meses dizendo que A Odisseia de Christopher Nolan ia fracassar. Chamou o diretor de racista, previu um desastre de bilheteria e assistiu ao filme abrir com US$ 264 milhões no mundo, a maior estreia global da carreira de Nolan. Perdida a aposta, o homem mais rico do planeta decidiu que vai refazer o filme sozinho, com inteligência artificial, “historicamente preciso e fiel à obra de Homero”, até o fim do ano. O problema mora inteiro na palavra “historicamente”.
Convém lembrar o que Homero de fato escreveu. Na Odisseia, a deusa Atena guia Ulisses de volta pra casa enquanto Poseidon afunda seus barcos por vingança. Tem o ciclope Polifemo, o gigante de um olho só que come a tripulação viva. Tem Circe, a feiticeira que transforma homens em porcos. Tem as sereias, tem a ninfa Calipso segurando o herói numa ilha por sete anos. Troia existiu, os arqueólogos desenterraram as ruínas. Ulisses e a viagem de dez anos são mito, do primeiro verso ao último. Exigir precisão histórica de um poema em que metade do elenco é divindade grega tem o mesmo tamanho de pedir um documentário factual sobre Poseidon.
Os usuários do próprio X perceberam e reagiram como a internet reage: chamaram Musk de “terraplanista do ciclope”. A cena se repete. A campanha contra o filme já tinha fracassado antes mesmo da estreia, e a fúria com o elenco começou meses atrás, quando Nolan escalou Lupita Nyong’o para Helena de Troia e Elliot Page para o papel de Sinon. Em maio, Musk chamou o diretor de “racista anti-branco”. Em julho subiu o tom e disse que “Nolan profanou Homero e se humilhou de joelhos só para cumprir as regras politicamente corretas”. A objeção sempre teve o mesmo endereço, e nunca foi Homero.
Enquanto isso, olhe para o que Musk quer substituir. A Odisseia foi o primeiro longa da história rodado inteiramente em câmeras IMAX 70mm, aquelas câmeras gigantescas que gravam em película física, num negativo com resolução que sensor digital nenhum alcança. É o formato que faz a tela de cinema parecer uma janela aberta em vez de um monitor grande. A Universal gastou US$ 250 milhões para produzir e outros US$ 125 milhões para divulgar. Nolan carregou câmeras de dezenas de quilos por locações reais na Grécia, na Sicília e no Marrocos. Você pode achar o resultado pomposo, pode achar Nolan frio, mas existe um ofício ali, um corpo humano tomando decisões sobre luz, lente e montagem.
A amostra que Musk exibe foi feita por outra pessoa. Um usuário do X gerou aquele clipe de três minutos de Ulisses e Calipso com o Grok Imagine, o modelo de vídeo da empresa dele, e Musk apenas compartilhou aquilo como prévia do que promete. Um modelo de vídeo generativo é um programa que produz imagem em movimento a partir de um texto, sem câmera, sem set e sem ator, prevendo pixel por pixel o que “deveria” aparecer na tela. É a mesma família de tecnologia que gera os deepfakes que já precisam de um físico para desmascarar: aquele tipo de vídeo em que o rosto derrete se você olha tempo demais, as mãos ganham um dedo a mais e a continuidade entre dois planos simplesmente não existe, porque não há ninguém dirigindo, só uma estatística chutando o próximo quadro.
E tem a ironia embutida na própria máquina. Um modelo de IA aprende copiando milhões de imagens que já circulam na internet, quase todas modernas. Peça a ele uma trirreme grega e ele devolve uma colagem do que pintores do século XIX, ilustradores de videogame e capas de livro imaginaram que fosse uma trirreme grega. O grego homérico “preciso” sairia de um sistema que nunca ouviu grego homérico. É precisão histórica extraída de um espelho apontado para outros espelhos.
Horas antes do anúncio, Musk também topou bancar outra versão. Um usuário sugeriu dar US$ 100 milhões para Mel Gibson filmar uma Odisseia com navios, armaduras e armas “historicamente precisos” e diálogo em grego homérico. A resposta foi curta: “Eu topo”. Some as duas ideias e o plano fica transparente. A precisão histórica é a fantasia que veste a queixa real. Ninguém que se importasse com fidelidade a Homero proporia grego antigo e um filme inteiro de IA na mesma tarde. O que incomoda é uma atriz negra no papel de Helena, e “historicamente” é a palavra bonita que tenta disfarçar isso.
Adaptação nunca foi cópia. A Odisseia já virou o Ulysses de James Joyce transplantado para uma Dublin de 1904, virou o faroeste caipira dos irmãos Coen em E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?, virou a viagem melancólica de A Eternidade e um Dia, do grego Theo Angelopoulos. Cada geração reconta o mito com as ferramentas e as obsessões da sua época. O que nenhuma dessas versões fez foi fingir que estava corrigindo Homero; todas conversavam com ele. Uma adaptação “definitiva” que encerra a discussão vai contra tudo que mantém um mito vivo por três mil anos.
Sobra o detalhe do dinheiro e do megafone. O sujeito que promete um longa até dezembro é dono da plataforma onde a promessa vira notícia, dono do modelo de IA que faria o filme e dono do alto-falante que transformou a implicância num assunto global. Nolan precisou de centenas de pessoas, três países e um ano de rodagem. Musk precisa de um post. Um dos dois métodos produziu uma das maiores estreias da década; o outro rendeu um repost de três minutos de Calipso com o rosto tremendo.
No Brasil, o efeito colateral foi quase poético. A Odisseia estreou nos cinemas daqui no mesmo período e os downloads do audiolivro de Homero dispararam 500%. Nolan fez mais pela leitura da Odisseia num único fim de semana do que a cruzada de Musk fez contra ele em meses inteiros de posts. Gente que nunca tinha aberto o poema correu atrás do texto por causa de um filme, o oposto exato do que a campanha pretendia.
Cinema é uma pessoa apontando uma câmera para outra e escolhendo o que fica no quadro. Homero levou multidões a enxergar deuses e monstros com nada além de métrica e voz. Os dois exigem o que o Grok não tem: alguém lá dentro, decidindo. O resto é chute estatístico com orçamento de campanha.
Felipe Ouder
Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.
LEIA TAMBEM
A Odisseia de Nolan sem ter lido Homero: o guia da história, dos deuses e dos monstros
Disseram que Nolan ia estragar A Odisseia. Ela estreou com 98% e expôs quem nunca leu Homero