Cientistas testaram 81 vezes o acessório que você encosta no corpo todo dia. Acharam veneno em todos.

Pesquisa europeia encontrou substâncias cancerígenas em 100% dos fones testados. Bose, Samsung e Sennheiser estão na lista.

Bruno Silva
Bruno Silva Entusiasta de hardware e overclocker nas horas vagas
18 de fevereiro de 2026 5 min
Fone de ouvido over-ear em destaque sobre fundo amarelo
!!

Fones de ouvido com químicos tóxicos em 100% das amostras testadas. Não é manchete sensacionalista. É o resultado de uma pesquisa publicada pelo projeto ToxFREE LIFE for All, uma parceria de organizações da sociedade civil da Europa Central que comprou 81 pares de fones - in-ear e over-ear - em lojas da República Tcheca, Eslováquia, Hungria, Eslovênia e Áustria, mais plataformas online como Shein e Temu. Testaram todos em laboratório. Acharam substâncias perigosas em cada um.

Bose. Panasonic. Samsung. Sennheiser. Nenhuma marca passou limpa.

O que acharam

Vou listar os compostos detectados porque os nomes importam:

  • Bisfenol A (BPA) - encontrado em 98% das amostras. É um composto químico usado pra dar rigidez ao plástico. O problema: ele imita o estrogênio no corpo humano. Estudos anteriores já associaram BPA a câncer, problemas de desenvolvimento neurológico, puberdade precoce em meninas e redução de fertilidade.

  • Bisfenol S (BPS) - presente em mais de 75% das amostras. É o substituto “seguro” do BPA que a indústria adotou quando o BPA começou a pegar mal. Só que pesquisas recentes mostram que o BPS também causa desregulação hormonal. Trocaram seis por meia dúzia.

  • Ftalatos - toxinas reprodutivas potentes que podem comprometer fertilidade.

  • Parafinas cloradas - associadas a danos no fígado e nos rins.

  • Retardantes de chama bromados e organofosforados - compostos com propriedades de desregulação hormonal similares aos bisfenóis.

As maiores concentrações de substâncias perigosas foram encontradas nas partes de plástico rígido dos fones. Muitos dos compostos apareceram em quantidades “traço” - pequenas o suficiente pra parecer inofensivas isoladamente. O problema é que ninguém usa só um produto com plástico no dia.

O efeito coquetel

Aqui é onde a coisa fica complicada de verdade. A pesquisadora Karolína Brabcová, especialista química da organização Arnika, explicou: “O uso diário - especialmente durante exercício físico, quando calor e suor estão presentes - acelera a migração desses compostos diretamente para a pele.”

Estudos anteriores já demonstraram que bisfenóis podem migrar de materiais sintéticos para o suor, e dali serem absorvidos pela pele. Pensa na rotina: você bota o fone pra ir na academia, corre meia hora, sua, e o calor do seu corpo está literalmente acelerando a transferência de BPA do plástico do fone pro seu organismo.

E o ponto mais importante da pesquisa não é a exposição individual de cada produto. É o que os pesquisadores chamam de “efeito coquetel” - a exposição simultânea a múltiplas fontes de químicos ao longo do dia. Seu fone tem BPA. Sua garrafa de água pode ter. O revestimento interno de latas de alimento tem. Cada dose é pequena. A soma não é.

Fones de ouvido in-ear sem fio em close - o tipo de acessório presente em 100% das amostras contaminadas

O que a pesquisa NÃO disse

Antes que alguém jogue o fone no lixo: a pesquisa não estabeleceu uma relação causal direta entre usar fones de ouvido e desenvolver câncer ou problemas hormonais. O que ela demonstrou é que os compostos estão lá, que eles migram pra pele em condições de calor e suor, e que a exposição cumulativa a múltiplas fontes é preocupante.

Também não houve ranking de “pior marca”. Todos os 81 modelos testados continham substâncias perigosas. A diferença entre um Sennheiser de R$1.500 e um fone de R$30 da Shein, nesse aspecto, foi irrelevante. A pesquisa chama isso de “falha estrutural do mercado” - não é um problema de fabricante X ou Y, é da cadeia inteira de produção de eletrônicos de consumo.

E os fones que vieram com seu celular?

Se você comprou um Samsung Galaxy ou iPhone recentemente, provavelmente comprou um par de earbuds pra acompanhar. A Samsung foi uma das marcas testadas. A Apple não aparece na lista porque o estudo focou no mercado europeu central e em plataformas como Shein e Temu, mas isso não significa que AirPods sejam automaticamente seguros - o BPA é usado na produção de policarbonato, que é o plástico mais comum em eletrônicos de consumo. Todos usam.

Se você está no mercado pra um celular novo e vai acabar comprando fones junto, a lista dos melhores celulares pra comprar em 2026 pode ajudar na escolha do aparelho - mas pra fones, por enquanto, nenhuma marca oferece garantia de ser livre desses compostos.

O que dá pra fazer na prática

A resposta honesta é: pouca coisa, pelo menos até a regulamentação alcançar a indústria. Mas algumas medidas reduzem exposição:

  • Limpe seus fones regularmente. Resíduos de suor acumulados mantêm o contato entre os químicos e sua pele por mais tempo.
  • Evite usar fones durante exercício intenso quando possível. Calor e suor aceleram a migração dos compostos. Se precisa de música na academia, um speaker bluetooth no bolso é uma alternativa.
  • Prefira fones com almofadas de tecido ou espuma removível em vez de contato direto com plástico rígido na pele. As maiores concentrações foram encontradas nas partes plásticas duras.
  • Não durma com fones in-ear. São horas de contato prolongado com o canal auditivo, que é pele fina e absorvente.

A regulamentação que não existe

A União Europeia já baniu BPA em mamadeiras e materiais que entram em contato com alimentos pra bebês. Mas fones de ouvido? Nenhuma regulamentação específica. O produto encosta na sua pele por horas, mas como não é “embalagem de alimento”, escapa das restrições.

O projeto ToxFREE LIFE for All existe justamente pra pressionar por mudança regulatória. Mas entre publicar uma pesquisa e ver legislação aprovada, pode levar anos. A indústria de eletrônicos move bilhões e não tem incentivo pra trocar materiais baratos por alternativas mais seguras sem ser obrigada.

Enquanto isso, os números ficam ali, quietos: 81 fones testados, 81 com substâncias perigosas, BPA em 98%, e uma pesquisadora dizendo que o suor da sua corrida está levando esses compostos direto pro seu corpo.

A pergunta mais desconfortável não é se seus fones têm BPA. Têm. A pergunta é quantas horas por dia você está com eles encostados na pele.

Bruno Silva
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Bruno Silva

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