Lupita Nyong'o é Helena de Troia em A Odisseia de Nolan. A internet está furiosa. Ninguém leu Homero.
Homero não descreveu o rosto de Helena. Os velhos de Troia olhavam para ela e concluíam que a guerra valeu a pena. Quem reclama do casting não leu isso.
Homero nunca descreveu o rosto de Helena.
Euripides a colocou em três versões diferentes da mesma história. Racine a transformou em tragédia francesa do século XVII. Marlowe cunhou “o rosto que lançou mil navios” para um texto que nem Homero escreveu. Goethe a convocou para o segundo Fausto. Heródoto, em seu exercício obstinado de duvidar de tudo, sugeriu que a história toda era um equívoco e que Helena passou a Guerra de Troia no Egito.
A Odisseia existe há pelo menos 2800 anos sendo reescrita, reinterpretada e transplantada para contextos que Homero jamais imaginou. Mas a escalação de Lupita Nyong’o em A Odisseia de Nolan como Helena de Troia é, ao que parece, longe demais.
Quando a Universal confirmou a escolha, parte da internet respondeu com a sofisticação que costuma oferecer em situações assim. Elon Musk publicou “Verdade” em resposta a Matt Walsh, que chamou Nolan de “covarde” por não ter escalado uma atriz branca. A lógica era a mesma que apareceu com a Ariel da Disney, com a Cleópatra da Netflix, com cada projeto em que um papel histórico ou mitológico é dado a um ator negro: a autenticidade histórica exige correspondência racial.
A filha do cisne e o problema da autenticidade

O problema com esse argumento é que ele pressupõe uma Helena que nunca existiu fora da imaginação de quem o faz.
No Livro 3 da Ilíada, Helena sobe às muralhas de Troia. Os velhos da cidade - que suportaram dez anos de guerra por causa dela - olham para ela e concluem que valeu a pena. Homero não descreve o que eles veem. Não há cor de cabelo, formato de olhos, altura. Só o efeito: homens exaustos e cínicos decidindo, diante dela, que a guerra foi justa. A beleza de Helena em Homero é uma tela em branco que cada leitor preenche com sua própria definição de beleza absoluta.
Helena, na mitologia grega, é filha de Zeus - que se transformou em cisne para seduzir Leda, sua mãe. O nome “Helena” é pré-helênico, possivelmente de origem mediterrânea mais antiga. Não há consenso sobre o que a palavra significa. Heródoto, o pai da historiografia ocidental, argumentou no século V a.C. que o rosto que lançou mil navios estava, na verdade, no Egito o tempo todo - que Páris havia desembarcado com a esposa roubada às margens do Nilo e que os gregos sitiaram Troia por uma década procurando uma mulher que não estava lá.
A obsessão com a autenticidade racial de um personagem que é filha de um deus que se transformou em pássaro e que Heródoto achou mais plausível colocar na África do que em Esparta diz mais sobre quem exige autenticidade do que sobre Homero.
Quando Richard Burton interpretou Marco Antônio em 1963 ninguém questionou se um galês poderia ser romano. Quando Elizabeth Taylor interpretou Cleópatra no mesmo ano - a cena mais cara já filmada até aquele momento - o argumento da autenticidade não existia porque ninguém estava pensando em autenticidade: estava pensando em estrelas. A questão de quem pode interpretar quem só aparece quando a escolha perturba uma hierarquia específica.
O raciocínio de Nolan e os 250 milhões de dólares

A Odisseia custou aproximadamente 250 milhões de dólares, foi filmada ao longo de 91 dias em múltiplos países e é o primeiro projeto de Nolan rodado inteiramente em IMAX 70mm - o mesmo formato que ele usou em partes de Dunkirk e Oppenheimer, mas aqui como padrão absoluto. O elenco inclui Matt Damon como Odisseu, Tom Holland, Zendaya, Charlize Theron, Robert Pattinson e Travis Scott como o aedo, o cantor de histórias épicas que narrava os poemas de Homero em praças públicas. Sobre Travis Scott no papel, Nolan disse querer “evocar a ideia de que essa história foi transmitida como poesia oral, análoga ao rap”.
Sobre Lupita Nyong’o, a escolha foi ainda mais direta: “A força e a serenidade eram tão importantes para a personagem de Helena. E Lupita faz isso parecer natural.”
É a mesma lógica que guiou Kurosawa ao escalar Toshiro Mifune, Haneke ao escalar Isabelle Huppert, Paul Thomas Anderson ao escalar Daniel Day-Lewis. Um diretor identificou qualidades específicas em uma atriz e construiu o papel a partir disso. Que esse diretor seja Nolan - cujos filmes tendem a transformar a técnica em protagonista, onde o peso físico da câmera IMAX é quase um argumento filosófico - torna a escolha ainda mais coerente: Lupita tem presença, tem gravidade, tem o que Nolan chama de força e serenidade.
Emily Wilson, a classicista que fez a tradução que Nolan usou como base para o roteiro, tem uma frase que serve para o debate todo: “A tradução sempre envolve, necessariamente, interpretação”. Ela estava falando de Homero e do inglês. Mas poderia estar falando de qualquer coisa aqui.
Musk e a cosmologia do ofendido
Musk acrescentou, além do “Verdade”, que Nolan estava fazendo escolhas para “ganhar prêmios”. A teoria é que diretores brancos escalem atores negros como manobra estratégica de premiação - como se isso fosse, de alguma forma, ainda pior do que simplesmente ter escalado Lupita porque Lupita é uma das melhores atrizes em atividade.
A lógica interna dessa crítica exige que se acredite simultaneamente que a indústria é controlada por uma agenda racial e que os prêmios que essa agenda distribui ainda importam o suficiente para guiar as decisões criativas de um dos cineastas mais poderosos de Hollywood. As duas coisas não podem ser verdade ao mesmo tempo, mas a coerência nunca foi o forte da cosmologia do ofendido.
O que Heródoto já sabia sobre essa discussão

Em 2023, a Netflix lançou uma série documental com Adele James como Cleópatra. A reação foi a mesma: petições, boicotes, o governo egípcio declarando ofensa nacional. O argumento da autenticidade histórica como argumento contra o casting negro é cíclico, previsível e curiosamente seletivo: surge quando a escolha perturba, desaparece quando não perturba. Ninguém protesta quando Cleópatra é interpretada por uma atriz europeia, como foi a norma por décadas.
Matt Damon interpreta Odisseu no filme de Nolan. Branco como é, ninguém questionou a autenticidade histórica de escalar um ator do Massachusetts como o herói grego. Robert Pattinson, Tom Holland, Charlize Theron - todos no mesmo elenco, todos completamente não-mediterrâneos, todos passando sem protesto. A polícia da autenticidade histórica apareceu exatamente uma vez nessa produção.
O que também desaparece nessa discussão: os micênicos, os gregos que, se a Guerra de Troia aconteceu, foram os que lutaram nela, tinham comércio ativo com o Egito desde o século XIV a.C. Vasos gregos chegavam até a Núbia. Africanos aparecem integrados na arte grega desde pelo menos o século VI a.C. O Mediterrâneo de Homero era demograficamente muito mais diverso do que a internet reclamando de casting imagina.
O que está em jogo não é Homero. A Odisseia não existe como texto fixo - existe como tradição oral codificada no século VIII a.C., reinterpretada por culturas que não tinham nenhuma continuidade com a Grécia antiga. O que está em jogo é quem tem o direito de ser belo. Quem tem o direito de ser o personagem pelo qual mil navios foram lançados ao mar.
Lupita Nyong’o respondeu com a precisão de quem já passou por esse ciclo antes: “Isso é uma história mitológica. Não vou gastar meu tempo pensando em como me defender.”
E depois: “Não vou gastar meu tempo pensando em todas as pessoas que ainda não me amam.”
Ela tem razão. Homero também não perdeu tempo com isso.
Felipe Ouder
Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.
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