Um dos cinco irmãos que fundaram a Ubisoft morreu num acidente de avião, e era ele quem comandava a Thrustmaster

Claude Guillemot, 69 anos, morreu quando seu bimotor caiu perto de La Baule. Ele era um dos cinco irmãos que criaram a Ubisoft em 1986.

Carla Mendes
Carla Mendes Cobrindo esports desde 2018
20 de junho de 2026 5 min
Claude Guillemot, cofundador da Ubisoft, em foto corporativa
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O bimotor Cessna 421 caiu num campo perto do aeródromo de La Baule, no oeste da França, na tarde de sexta-feira (19 de junho). Quando os bombeiros chegaram, o avião já estava em chamas. Dentro estavam duas pessoas: um instrutor de voo vindo de Rennes e Claude Guillemot, 69 anos, um dos cinco irmãos que fundaram a Ubisoft em 1986. Nenhum dos dois sobreviveu.

Guillemot pilotava a própria aeronave e seguia para um encontro de aviação na região. Testemunhas citadas pela imprensa francesa disseram que o avião fez uma manobra estranha pouco antes de perder altitude e atingir o solo. O fogo que tomou conta dos destroços atrasou o resgate e a identificação das vítimas, e a causa do acidente segue sob investigação.

A Ubisoft confirmou a morte em comunicado curto: a empresa se disse “profundamente entristecida ao saber da morte de Claude Guillemot”. Yves Guillemot, irmão de Claude e diretor-executivo da companhia, segue no comando.

O irmão que cuidava da operação e dos volantes Thrustmaster

Se você joga há tempo suficiente, provavelmente já usou um produto da família Guillemot sem saber. Claude era presidente e diretor-executivo da Guillemot Corporation, a holding da família que roda em paralelo à Ubisoft desde 1997. É de lá que saem os volantes e manches da Thrustmaster, aqueles que todo mundo que curte jogo de corrida ou simulador de voo sonha em ter na bancada, além dos equipamentos de áudio e DJ da marca Hercules. A Guillemot Corporation faturou cerca de 197 milhões de euros no último balanço anual.

Dentro da Ubisoft, Claude era vice-presidente executivo responsável pela operação e tinha cadeira no conselho. O rosto público sempre foi o Yves, o CEO, mas era o conjunto dos cinco irmãos que tinha começado tudo lá em 1986, numa cidadezinha chamada Carentoir, na Bretanha. Os outros três são Michel, Christian e Gérard. Cinco irmãos que saíram da distribuição de software e construíram uma das maiores fabricantes e distribuidoras de games do planeta, dona de Assassin’s Creed, Far Cry e da linha Tom Clancy.

A morte chega no pior momento da história recente da Ubisoft

É impossível ler essa notícia separada do momento que a Ubisoft atravessa. A empresa vem de um prejuízo operacional recorde, perto de 1,3 bilhão de euros, e de uma reestruturação que doeu. A faca já tinha começado a cair no comecinho do ano, com cortes em estúdios de elite, e não parou: só em 2026 a empresa fechou estúdios em Halifax e Estocolmo e, em junho, encerrou o de Winnipeg, demitindo 65 pessoas, incluindo o time principal de Rainbow Six Mobile. Há relatos de até 380 empregos em risco só nessa rodada, e, no último ano, a Ubisoft cortou cerca de 1.200 vagas, encolhendo o quadro para 16.600 funcionários. A reorganização anunciada em janeiro, que veio junto com o cancelamento de seis jogos, chegou a derrubar as ações em 34%.

Para tentar estancar a sangria, a empresa costurou um acordo em que a Tencent injetou 1,16 bilhão de euros e criou a Vantage Studios, a subsidiária que passou a abrigar Assassin’s Creed, Far Cry e Rainbow Six. A gigante chinesa ficou com 26,32% de participação econômica nesse braço, sem o controle operacional, que continua com a Ubisoft. O acordo avaliou a Vantage em 3,8 bilhões de euros antes do aporte e injetou o caixa que a empresa precisava com urgência.

Esse aperto não é exclusividade da Ubisoft. A indústria inteira está num ciclo de demissões e fechamentos que não dá trégua, e faz poucos dias a gente comentou o pior dia do Xbox em anos e a tentativa da Microsoft de empurrar a conta pro consumidor. A diferença é que, na Ubisoft, o tranco cai sobre uma estrutura familiar, cinco irmãos com controle compartilhado, que agora perde um dos seus.

Nem tudo virou cinzas no caminho, é verdade. Assassin’s Creed Shadows passou de cinco milhões de jogadores em quatro meses depois do lançamento, em março de 2025, e deu um respiro à empresa num ano que só vinha dando errado. Mas foi só um respiro, longe de uma virada de verdade.

A reação da comunidade misturou luto e o desconforto com o timing

Nas redes, a reação foi uma mistura de luto e mal-estar com o momento. Parte da comunidade lamentou a perda de um dos fundadores que lançaram jogos que marcaram gerações inteiras de quem cresceu com videogame. Outra parte não conseguiu separar a tragédia do estado atual da empresa, com demissões fresquinhas e moral lá embaixo. E teve quem notasse o detalhe cruel de o acidente ter acontecido justamente no hobby de Claude, a aviação.

Há também um lado puramente humano que a planilha de prejuízo não captura. Yves não perdeu só um vice-presidente de operações. Perdeu um irmão. E faz isso enquanto carrega nas costas a tarefa de salvar a empresa que os dois ergueram juntos, do zero, com mais três irmãos, quando a Ubisoft ainda era uma distribuidora de disquete numa cidade de menos de três mil habitantes.

Se a morte de Claude mexe no controle familiar ou no acordo bilionário com a Tencent, ninguém da Ubisoft respondeu ainda. A companhia tenta, ao mesmo tempo, enterrar um dos seus fundadores e se reinventar pra continuar de pé. Raramente os dois golpes vieram tão juntos.

Carla Mendes
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Carla Mendes

Cobrindo esports desde 2018

Cobrindo cenário competitivo de esports desde 2018. Acompanha torneios e equipes profissionais.

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