O Xbox teve o pior dia em anos. E o CEO da Microsoft acha que a culpa é de quem compra pouco

Em poucas horas o Xbox perdeu o chefe dos estúdios, quase fechou três deles e ouviu do CEO que o problema é monetização de menos.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
15 de junho de 2026 6 min
Craig Duncan, chefe do Xbox Game Studios, posando diante do logotipo da Rare; ele pediu demissão no mesmo dia em que vazou o plano de fechamento de estúdios
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Num intervalo de poucas horas no dia 15 de junho, o Xbox perdeu Craig Duncan, chefe do Xbox Game Studios, que pediu demissão depois de menos de dois anos no cargo, vindo de quase 14 anos à frente da Rare. Quase no mesmo momento vazou que a Microsoft planeja fechar a Compulsion Games. E mais dois estúdios entraram na lista de risco. A crise do Xbox virou rotina nos últimos dois anos, mas concentrar tanta coisa ruim num único dia foi novidade até pra quem acompanha isso de perto.

Vamos por partes, porque é muita coisa.

A Compulsion levou um Peabody e ganhou a porta

A Compulsion Games é o estúdio de South of Midnight e de We Happy Few. South of Midnight ganhou um Peabody, prêmio que normalmente vai pra jornalismo e documentário e quase nunca encosta em videogame. Há dois meses os próprios executivos da Microsoft subiram no palco pra comemorar isso. Agora o plano é fechar o lugar.

São mais de cem pessoas. A liderança do estúdio está negociando com a Microsoft pra ver se sobra alguma saída: venda pra outra publisher, um management buyout (quando os próprios chefes compram o estúdio da dona) ou o fim mesmo. Em qualquer cenário, muita gente perde o emprego.

Double Fine e Ninja Theory entraram na fila

Não para na Compulsion. A Double Fine, de Tim Schafer, responsável por Psychonauts, e a Ninja Theory, de Hellblade, também estão na lista de estúdios em risco. A Ninja Theory acabou de revelar um jogo novo pra sair no ano que vem. Mesma situação: os líderes correndo atrás de um plano B enquanto os funcionários já podem procurar vaga em outro lugar.

E aqui é bom lembrar que isso não é o primeiro round. Em 2024 a Microsoft fechou a Tango Gameworks, de Hi-Fi Rush, um jogo que tinha acabado de ser elogiado por todo mundo, e a Arkane Austin, de Redfall. Depois cancelou Perfect Dark e Everwild. A demissão em massa de verdade deve vir depois de 30 de junho, quando fecha o ano fiscal da empresa.

A justificativa oficial é um pedido de desculpas disfarçado de estratégia. O Xbox admitiu que se “esticou demais” nas aquisições, que tentou tocar plataformas demais ao mesmo tempo e que não financiou os estúdios de forma competitiva. Tudo isso depois de gastar US$ 20 bilhões comprando estúdios em cinco anos, fora os US$ 68,7 bilhões da Activision Blizzard. No mesmo período, a receita da divisão caiu quase meio bilhão de dólares. A conta não fechou, e quem paga é quem faz os jogos.

O CEO da Microsoft acha que você paga pouco

No podcast Hard Fork, do New York Times, Satya Nadella, CEO da Microsoft, falou que precisa transformar o Xbox num “negócio sustentável”. Disse que a empresa vinha “subsidiando” o Xbox em vez de lucrar com ele, e soltou a frase que viralizou: “há mais monetização dos jogos do Xbox acontecendo no YouTube do que na própria Microsoft”.

Traduzindo o que ele quis dizer: o problema não é ter torrado quase US$ 69 bilhões numa aquisição, nem o rombo de gastos com inteligência artificial. O problema é que você, que compra o console e os jogos, não está deixando dinheiro suficiente na mesa. A culpa é sua e do YouTuber.

É um raciocínio conveniente. Quando a estratégia de gastar bilhões comprando todo mundo deu errado, ninguém na cúpula sugeriu rever a estratégia. Sugeriram olhar pro consumidor e extrair mais.

A próxima fatura pode vir parcelada em 24 vezes

E dá pra ver como eles pretendem extrair. Um vazamento no código da loja do Xbox revelou a chegada do velho conhecido buy now, pay later, o “compre agora, pague depois”. A mensagem encontrada era essa: “compre o que você ama e pague depois”. O esquema usaria PayPal e Klarna, empresas de crédito parcelado, com opções de dividir em quatro vezes sem juros ou esticar por até 24 meses.

Faz sentido oferecer parcelamento num console que já passou dos US$ 600 lá fora e num próximo aparelho, o tal Project Helix, que promete ser ainda mais caro. O problema é o recado por trás. Parcelar hardware caro até dá pra entender. Parcelar um jogo cheio em 24 vezes não tem nada de flexibilidade. É um jeito elegante de empurrar produto caro pra quem não tem como pagar à vista. A própria comunidade reagiu chamando de predatório, e é difícil discordar.

No Brasil, o Game Pass já mostrou como esse filme termina

Se você quer saber onde essa lógica de “monetizar mais” desemboca, é só olhar pro que aconteceu aqui. Em 30 de setembro de 2025, o Game Pass Ultimate saltou de R$ 59,99 para R$ 119,90 por mês. Dobrou. Num país onde assinatura de games compete direto com a conta de luz, a reação foi tão ruim que o Brasil virou estudo de caso de revolta junto com Grécia e o resto da América do Sul.

Resultado: em abril de 2026 a Microsoft fez um corte raríssimo e baixou o Ultimate pra R$ 76,90, com o PC Game Pass caindo de R$ 69,90 pra R$ 59,99. Parece vitória do consumidor, mas faça a conta. Mesmo “barato”, o plano segue 28% mais caro do que era antes do aumento. E os novos Call of Duty deixaram de entrar no serviço no dia do lançamento. Você paga mais ou igual, e recebe menos.

Esse roteiro não é exclusivo do Xbox. A Sony seguiu a mesma cartilha ao tentar tirar mais dinheiro de quem já tem um PS5, e fechou a Bluepoint Games, estúdio premiado, com a mesma frieza de planilha. A diferença é que a Microsoft está fazendo as duas coisas na mesma semana, e ainda mandou o CEO avisar que a culpa é sua.

No fim, o “reset” do Xbox tem dois lados bem definidos. De um, estúdios talentosos sendo fechados pra cumprir meta de margem de lucro. Do outro, um plano pra te fazer gastar mais, parcelado, pra cobrir a conta que a própria empresa fez. Dois meses atrás eles estavam aplaudindo o Peabody da Compulsion. Hoje estão fechando a Compulsion e explicando que o erro foi seu.

Lucas Ferreira
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Lucas Ferreira

Gamer desde o PS1, cético desde sempre

Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.

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