O estúdio que ressuscitou Demon's Souls acabou de morrer. A culpa é de um jogo que nunca existiu.

Sony fecha Bluepoint Games, o estúdio por trás dos remakes de Demon's Souls e Shadow of the Colossus. 70 funcionários perdem o emprego em março.

Marina Costa
Marina Costa Entusiasta de tech e indie games
19 de fevereiro de 2026 7 min
Cavaleiro solitário enfrentando demônio colossal em Demon's Souls remake para PS5, desenvolvido pela Bluepoint Games
!!

Bluepoint Games não existe mais.

O estúdio que pegou Shadow of the Colossus - um jogo que muita gente considera perfeito - e reconstruiu cada pedra, cada raio de luz, cada som do vento nos campos do Proibido, vai fechar em março de 2026. A Sony confirmou nesta quinta-feira que cerca de 70 funcionários perdem o emprego. A explicação oficial cita “custos crescentes de desenvolvimento” e “desafios do setor”. A verdade é mais complicada e mais triste do que qualquer comunicado corporativo consegue esconder.

Vinte anos fazendo o impossível parecer óbvio

A Bluepoint Games foi fundada em 2006 em Austin, Texas. Começou fazendo ports e remasters que ninguém esperava que fossem bons. A God of War Collection pro PS3 já mostrava o DNA do estúdio: respeito absoluto pelo material original. Depois vieram o Metal Gear Solid HD Collection, a Ico & Shadow of the Colossus Collection, a Uncharted: The Nathan Drake Collection, Gravity Rush Remastered. Cada projeto era tratado com mais cuidado do que a maioria dos estúdios dedica aos próprios jogos originais.

Os dois trabalhos que transformaram a Bluepoint em referência foram Shadow of the Colossus (2018) e Demon’s Souls (2020).

O remake de Shadow of the Colossus pro PS4 era reverencial. Cada colosso foi reconstruído preservando a sensação do original - aquela solidão enorme, aquele peso moral de derrubar criaturas que não te fizeram nada. O time da Bluepoint entendeu que a beleza do jogo não estava nos gráficos. Estava no silêncio entre as batalhas, na maneira como a câmera se afasta depois de cada vitória e te faz sentir que você acabou de destruir algo que deveria estar vivo.

Demon’s Souls veio como título de lançamento do PS5 e vendeu mais de 1,4 milhão de cópias quando o console mal tinha base instalada. Por meses, era O motivo pra comprar um PS5. Enquanto os outros jogos de lançamento eram títulos cross-gen requentados, a Bluepoint entregou algo que só existia naquele hardware. O jogo original, de 2009, era tão punitivo que a Sony hesitou em publicá-lo no ocidente - quem acabou lançando na América do Norte foi a Atlus. A Bluepoint pegou essa brutalidade e a transformou num dos jogos mais bonitos da geração, sem amolecer um centímetro da dificuldade. Quem jogou Bloodborne sonhava com um remake da Bluepoint no mesmo nível.

O Nexus de Demon's Souls remake - a catedral impossível suspensa entre mundos que a Bluepoint reconstruiu do zero para o PS5

O que matou a Bluepoint não foi falta de talento

Em setembro de 2021, a Sony comprou o estúdio. Fazia todo sentido: a Bluepoint transformava clássicos em obras-primas, e o PlayStation tem uma das maiores bibliotecas de clássicos do mundo. O casamento parecia perfeito.

Mas em vez de deixar a Bluepoint fazer o que fazia melhor, a Sony colocou o estúdio num God of War live-service - daqueles jogos online que vivem de atualização constante e venda de conteúdo. O estúdio que reconstruiu Demon’s Souls com precisão cirúrgica foi designado pra fazer um Destiny de God of War. Numa franquia que nunca pediu isso.

O projeto foi cancelado em janeiro de 2025, parte da debandada geral da Sony dos jogos live-service que o ex-CEO Jim Ryan havia imposto como estratégia. E a Bluepoint ficou sem projeto, sem direção e - agora sabemos - sem futuro.

Hermen Hulst, chefe do PlayStation Studios, mandou um e-mail pros funcionários citando “custos crescentes de desenvolvimento, crescimento desacelerado do setor, mudanças no comportamento dos jogadores e ventos econômicos contrários”. Palavras de RH pra dizer que a conta não fechou.

O detalhe que faz o sangue ferver: a divisão de games da Sony registrou aumento de 19% nos lucros no último trimestre. O dinheiro existe. Só não é pra quem faz remakes.

Três estúdios mortos em menos de dois anos

A Bluepoint é o terceiro estúdio que a Sony comprou e depois matou desde 2024.

A Firewalk Studios foi adquirida em 2023 e criou Concord - um hero shooter que custou mais de US$200 milhões e vendeu 25 mil cópias. O jogo ficou no ar por duas semanas antes de ser desligado pra sempre. A Firewalk fechou em outubro de 2024, com 210 funcionários afetados.

A Neon Koi (antiga Savage Game Studios) foi comprada em 2022 pra desenvolver jogos mobile pro PlayStation. Nunca lançou um único jogo. Fechou junto com a Firewalk.

Entre 2019 e 2023, a Sony adquiriu 11 estúdios. Três já não existem. Outros, como Firesprite e Bungie, passaram por ondas de demissões. O padrão é sempre o mesmo: comprar estúdio com identidade forte, forçar projeto live-service que não combina com o DNA do time, e fechar quando a aposta fracassa. A estratégia de Jim Ryan de transformar o PlayStation numa máquina de jogos live-service deixou um rastro de estúdios mortos e centenas de empregos perdidos.

A ironia mais cruel: a Sony anunciou remakes da trilogia original de God of War - que já geram polêmica antes de existir. O estúdio mais qualificado do planeta pra esse tipo de trabalho acabou de ser fechado. Outra pessoa vai fazer o serviço que a Bluepoint nasceu pra fazer.

Não é só a Sony

A Ubisoft abriu 2026 demitindo gente de estúdios de elite. A Microsoft fechou a Tango Gameworks, criadora de Hi-Fi Rush, meses depois de o jogo ganhar prêmios. A Riot demitiu 80 pessoas do 2KXO três semanas após o lançamento. A própria Sony quer arrancar mais receita de quem já tem PS5 enquanto corta os estúdios que dão motivo pra ter um.

O que aconteceu com a Bluepoint não é caso isolado. É sintoma de uma indústria que trata estúdios como ativos descartáveis numa planilha. Compra quando os números fazem sentido, descarta quando param de fazer.

No Brasil, onde cada jogo de PS5 custa R$349,90 no lançamento, remakes como Demon’s Souls e Shadow of the Colossus eram dos poucos títulos que justificavam o preço. A Bluepoint entregava qualidade consistente num mercado onde a maioria dos estúdios mira no “bom o suficiente”. Perder esse nível de dedicação artesanal dói em qualquer lugar do mundo, mas dói especialmente quando você paga caro pra jogar.

O que a Bluepoint deixa

Wander montado em Agro nos campos do Proibido - Shadow of the Colossus remake pela Bluepoint Games para PS4

Quem jogou o remake de Demon’s Souls sabe o que estamos perdendo. Aquela cena em que você entra no Nexus pela primeira vez e a câmera se abre pra revelar uma catedral impossível, suspensa no vazio entre mundos - aquilo não é motor gráfico exibindo capacidade técnica. É gente que ama games fazendo você sentir algo que não deveria ser possível num jogo de 2009 reconstruído em 2020.

O Shadow of the Colossus remake tem um momento - quando Agro cai da ponte e Wander grita o nome do cavalo - que a Bluepoint reconstruiu com áudio novo, animação novo, iluminação nova. E a dor é idêntica à do original. Porque eles entendiam que aquele jogo é sobre perda, e fizeram o remake sentir como perda.

Uma porta-voz da Sony disse que vai “trabalhar para encontrar oportunidades para alguns funcionários impactados dentro da rede global”. Alguns. Não todos. São 70 pessoas que passaram anos aprendendo algo extraordinariamente difícil - dar vida nova a jogos que outras pessoas amam - e agora precisam procurar trabalho porque a Sony preferiu apostar num God of War live-service que morreu antes de nascer.

A Bluepoint Games nunca fez um jogo ruim. Nunca teve um fracasso comercial. Nunca decepcionou quem confiou nela. Morreu mesmo assim, porque uma planilha disse que não compensava mais.

Marina Costa
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Marina Costa

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