O Bosque Selvagem: a maior animação da Laika em 7 anos pode ser a que finalmente vence o Oscar

A Laika revelou em Cannes o trailer de O Bosque Selvagem, primeiro filme do estúdio em 7 anos: 136 sets, 230 bonecos e 9 mil penas esculpidas à mão.

Felipe Ouder
Felipe Ouder Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
14 de maio de 2026 6 min
Personagem Prue montando a águia The General no filme de stop-motion O Bosque Selvagem, da Laika Studios
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Ontem à noite, no Hotel Martinez em Cannes, a Laika Studios revelou o trailer de O Bosque Selvagem para a imprensa internacional. Dois minutos de stop-motion com “My Tears Are Becoming a Sea” do M83 como trilha, criaturas fabricadas quadro a quadro se movendo pela tela com aquela leveza estranha que só o material físico consegue ter, e a frase final: “das mãos que fizeram Coraline”.

Sete anos separam O Bosque Selvagem de Link Perdido, o último longa da Laika, lançado em 2019.

Na indústria de animação, sete anos é tempo geológico. A Disney lança dois filmes por ano. A Pixar, pelo menos um. Nesse mesmo intervalo, a Laika construiu 136 sets, criou mais de 230 bonecos e esculpiu 9 mil penas individuais para as asas de um único personagem: The General, a águia dourada que a protagonista Prue monta ao longo da história. Esse número, 9 mil penas para uma única criatura, é tanto uma declaração de método quanto a resposta mais direta possível para quem perguntou por que o filme levou tanto tempo.

Sete anos, 136 sets e o que o stop-motion exige

O stop-motion é uma das formas mais antigas de animação e continua sendo a mais trabalhosa. Cada segundo de filme corresponde a 24 fotografias tiradas separadamente, cada uma com ajuste manual de posição de cada boneco, de cada elemento do cenário, de cada detalhe da cena. Uma sequência de dez segundos pode representar semanas de trabalho. Travis Knight, diretor de O Bosque Selvagem e CEO da Laika, descreveu a escala da produção com uma comparação que não deixa espaço para interpretação: “tão grande quanto O Senhor dos Anéis”. Pode soar como exagero de bastidor. Os 136 sets, muitos grandes o suficiente para que animadores pudessem caminhar dentro deles, sugerem que não é.

A Laika trabalha com o projeto desde 2011, mesmo ano de lançamento do livro em que o filme é baseado. A produção efetiva começou em 2021. Uma década de desenvolvimento antes de começar a fotografar quadro a quadro é uma linha do tempo que não existe em mais nenhum estúdio de animação ocidental hoje, e que explica por que o estúdio lança, em média, um filme a cada três ou quatro anos. Não é lentidão. É custo de método.

O livro, a floresta e o elenco de O Bosque Selvagem

O Bosque Selvagem é baseado no romance de Colin Meloy, vocalista do grupo de folk americano The Decemberists, publicado em 2011 com ilustrações de Carson Ellis. A história segue Prue McKeel (Peyton Elizabeth Lee), uma adolescente de Portland, Oregon, que entra numa floresta encantada chamada Bosque Intransponível para resgatar seu irmão bebê Mac, levado por um bando de corvos, acompanhada de seu colega de classe Curtis Mehlberg (Jacob Tremblay). O romance faz parte de uma trilogia ambientada no mesmo universo de Portland encantada.

O roteiro é de Chris Butler, que já dirigiu ParaNorman (2012) e Link Perdido (2019) pela Laika. A familiaridade de Butler com o estúdio aparece na escolha do material: um mundo com regras próprias, protagonista jovem em contexto mais sombrio do que parece à primeira vista, o tipo de história que lembra Neil Gaiman sem dever nada diretamente a ele.

O elenco de vozes inclui Carey Mulligan, Richard E. Grant, Awkwafina, Amandla Stenberg, Tom Waits, Charlie Day, Angela Bassett e Mahershala Ali. Uma lista que qualquer produção em live action assinaria em cheque em branco. Aqui, essas vozes animam bonecos feitos à mão cujos rostos foram desenvolvidos combinando escultura artesanal com impressão 3D, técnica que a Laika aperfeiçoou ao longo de seus filmes anteriores para conseguir uma variedade de expressões que o stop-motion tradicional não permitia.

Travis Knight e o peso de invocar Coraline

Travis Knight não é apenas o diretor de O Bosque Selvagem. É o CEO da Laika e o mesmo homem que dirigiu Kubo e a Magia das Cordas em 2016, provavelmente o ponto mais alto tecnicamente da filmografia do estúdio. Kubo usou a maior impressora 3D já operada em produção cinematográfica até então para fabricar os rostos dos bonecos, e ainda assim manteve o gesto humano presente em cada movimento de cada personagem. O resultado é um filme que parece artesanal e épico ao mesmo tempo, que seria impossível replicar em animação digital sem perder exatamente o que o faz funcionar.

Citar Coraline no material de divulgação de O Bosque Selvagem é uma aposta alta. Coraline, de 2009, dirigido por Henry Selick (da mesma linhagem de O Estranho Mundo de Jack) com produção da Laika, continua sendo o ponto de referência do que stop-motion pode fazer quando não faz concessão nenhuma. Dezessete anos depois, o estúdio está dizendo que O Bosque Selvagem é a resposta para quem passou esse tempo esperando algo no mesmo nível. Ou melhor.

A Laika e cinco indicações ao Oscar sem uma vitória

Desde Coraline, a Laika recebeu cinco indicações consecutivas ao Oscar de Melhor Animação: Coraline (2009), ParaNorman (2012), Os Boxtrolls (2014), Kubo e a Magia das Cordas (2016) e Link Perdido (2019). Nenhuma vitória. É um recorde que poucos estúdios têm, e nenhum sem vitória.

Link Perdido ganhou o Globo de Ouro de Melhor Animação naquele ano, tornando-se o primeiro filme não-CGI a vencer a categoria, mas perdeu o Oscar para Toy Story 4 numa das maiores discussões daquela temporada de premiação. O histórico do estúdio com a Academia é o de um eterno segundo lugar para produções com mais poder de distribuição e maiores verbas de campanha, quase sempre de grandes estúdios com franquias já estabelecidas.

O Bosque Selvagem estreia nos Estados Unidos em 23 de outubro de 2026 pela Fathom Entertainment, distribuidora especializada em lançamentos exclusivos. No Brasil, a estreia está prevista para 22 de outubro, um dia antes da estreia norte-americana. Pela escala da produção e pelo histórico do estúdio, é praticamente garantido que o filme vai entrar na corrida de premiações de 2027.

Depois de sete anos de silêncio, 136 sets construídos à mão e 9 mil penas esculpidas para uma única criatura, a Laika revelou em Cannes por que demorou tanto. Outubro vai dizer se valeu.

Felipe Ouder
AUTOR

Felipe Ouder

Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.

Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.

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