O filme esquecido da A24 com Keira Knightley que volta pra Netflix 12 anos depois

Em 2014, a A24 era uma distribuidora diferente. Encalhados (Laggies), dirigido por Lynn Shelton, é um produto curioso dessa época - uma comédia amadora com elenco de filme de época.

Felipe Ouder
Felipe Ouder Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
23 de janeiro de 2026 5 min
Imagem: O filme esquecido da A24 com Keira Knightley que volta pra Netflix 12 anos depois
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Em 2014, a A24 não era a A24 que a gente conhece hoje. Não existia o universo de terror psicológico, não tinha a onda de “elevated horror”, Moonlight ainda nem tinha sido filmado. Naquele ano, a distribuidora recém-nascida estava testando o que funcionava - e foi assim que Encalhados (Laggies), dirigido por Lynn Shelton (Humpday, A Irmã da Sua Irmã), caiu nas mosas de pouca gente e saiu rapidinho dos cinemas.

Keira Knightley and Chloë Grace Moretz in Encalhados (2014)

Agora, doze anos depois, a Netflix tá trazendo esse filme de volta para o catálogo em fevereiro de 2026. E olha, pra quem curte cinema independente americano e a evolução da A24, isso aqui é uma peça curiosa da história.

Lynn Shelton e a estética mumblecore

A primeira coisa que precisa ficar clara: Encalhados não é o típico filme A24 que a gente ta acostumado a ver hoje. Lynn Shelton veio do mundo mumblecore - aquele movimento de cinema independente dos anos 2000 com orçamentos minúsculos, diálogos improvisados e câmera na mão. Filmes como The Puffy Chair e Hannah Sobe as Escadas (Hannah Takes the Stairs) definiram essa geração.

Quando a A24 pegou Encalhados, eles não estavam construindo uma marca de “cinema arte”. Eles só queriam distribuir um filme independente com elenco decente. A direção de fotografia não tem aquele estilo expressionista que a gente vê em Hereditário (Hereditary) ou Midsommar - O Mal Não Espera a Noite. A montagem é convencional, sem cortes secos experimentais. É, honestamente, um filme muito mais tradicional do que o selo A24 passou a representar depois.

O elenco e a dissonância de expectativas

Encalhados (Laggies) movie poster 2014 A24

Tem aquele momento em que você lê o elenco e pensa: como assim Keira Knightley, Chloë Grace Moretz e Sam Rockwell num filme da A24 que ninguém viu? Knightley vinha de Piratas do Caribe - O Baú da Morte e Anna Karenina. Moretz tinha acabado de fazer o Kick-Ass - O Bastardo Vingador. Rockwell era… bom, sempre bom.

Mas o que a galera não entendeu na época é que Encalhados nunca tentou ser o “grande filme da A24”. É uma comédia de amadurecimento - coming-of-age, mas ao contrário, com uma adulta que precisa crescer. Knightley faz Megan, uma mulher de 28 anos que não tem ideia do que fazer da vida e acaba se amigando de uma adolescente (Moretz) para fugir das responsabilidades.

Sam Rockwell aparece como o pai da garota, e olha - o editing das cenas dele é precioso. Tem aquela comicidade natural que ele traz pra qualquer coisa, sem forçar. A química com Knightley funciona de um jeito quase imperceptível, sutil, que me lembra um pouco a dinâmica de O Verão da Minha Vida (The Way, Way Back, 2013), outro filme independente daquela época que muita gente deixou passar.

O que divide a crítica

O filme foi “divisivo” não porque ele seja ruim ou bom - é porque ele confunde. Quando você vê o logo da A24 hoje, espera plot twist, ou esperas que algo dê errado de jeito que você não consegue desviar os olhos. Encalhados é o oposto: é quieto, é sobre pessoas conversando, é sobre aquele mal-estar de ter 28 anos e não saber quem você é.

Alguns críticos acharam que o roteiro não tinha profundidade suficiente. Outros - incluindo eu - acreditam que a profundidade tá nas pequenas escolhas de direção. Lynn Shelton morreu em 2020, e olhar pra trás pro trabalho dela é ver uma cineasta que entendia como capturar momentos de vulnerabilidade sem parecer forçado. A cena da confraternização entre Megan e a família da adolescente, por exemplo - a câmera não faz movimentos bruscos, não te empurra. Ela só fica lá, observando.

Por que ver agora

Olha, se você curte cinema de entretenimento puro, Encalhados pode parecer “sem graça”. Mas se você é daquele time que gosta de ver atores fazendo trabalho que não seria blockbuster, tem valor aqui.

Knightley fazendo comedy-drama independente é um registro interessante da carreira dela. É muito diferente de Pride & Prejudice (2005) ou The Imitation Game (2014). Ela solta um pouco aquele jeito “british stiff” e deixa a personagem ser desorganizada, confusa - humanamente imperfeita.

💡 Contexto: Em 2014, o cinema independente americano ainda estava encontrando o espaço depois da onda do Sundance dos anos 2000. Filmes como Frances Ha (2012) e Mistress America (2015) estavam redefinindo o que era “comédia independente”. Encalhados existe nesse meio-termo.

Conectando com a história

[IMAGEM: Lynn Shelton director on set of Encalhados behind the scenes]

É fascinante como a A24 evoluiu desde então. Em 2014, eles distribuíam filmes que outros estúdios não queriam. Hoje, eles SÃO o estúdio que todo mundo quer copiar. Encalhados é quase como um fóssil de uma era anterior - antes de Quarto (Room, 2015), antes de Manchester à Beira-Mar (Manchester by the Sea, 2016), antes de Lady Bird (2017).

Se você curte esse tipo de cinema independente dos anos 2010, vale também checar Um Brinde à Amizade (Drinking Buddies, 2013), outro filme com Joe Swanberg (que faz participação em Encalhados). Ou The Puffy Chair (2005), dos primeiros tempos do mumblecore.

Encalhados não é obra-prima. Não é o filme que vai redefinir sua visão de cinema. Mas é uma peça interessante do quebra-cabeça de como a A24 se tornou o que é hoje - e performances que, honestamente, merecem ser vistas sem o peso de expectativas de “filme A24”.

[IMAGEM: Final scene from Encalhados with Keira Knightley character Megan]

Agora que ele tá voltando pro streaming, talvez a galera finalmente dê uma chance sem esperar o próximo Hereditary ou Midsommar. Às vezes, cinema é só sobre pessoas tentando entender a vida - e tá tudo bem.

Felipe Ouder
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