Seus genes podem determinar se o Ozempic vai funcionar pra você, segundo estudo com 28 mil pessoas

A 23andMe encontrou uma variante genética que melhora a resposta ao Ozempic em menos de 1 kg. E já cobra US$ 499 pelo teste.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
9 de abril de 2026 5 min
Caneta de Ozempic sobre fundo clínico ilustrando perda de peso com semaglutida
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A 23andMe publicou um estudo na Nature com 27.885 pessoas pra responder uma pergunta que vale bilhões: por que o Ozempic genética funciona mais pra algumas pessoas do que pra outras? A resposta envolve uma variante no gene GLP1R, que é o receptor que a semaglutida ativa no corpo. Quem carrega essa variante perde em média 0,77 kg a mais. Menos de um quilo. E a 23andMe já transformou isso num teste de US$ 499.

Vamos aos números antes de qualquer coisa.

O que o estudo encontrou

A variante genética é a rs10305420, localizada no gene que codifica o receptor de GLP-1, o alvo direto do Ozempic (semaglutida) e do Wegovy. Quem tem uma cópia perde 0,77 kg a mais. Quem tem duas, cerca de 1,5 kg a mais. Está presente em 40% das pessoas de ascendência europeia.

A perda de peso média dos participantes foi de 11 kg. A variação ficou entre 6% e 20% do peso corporal. E um dado importante: um em cada quatro participantes não respondeu de forma significativa, perdendo menos de 5% do peso.

O estudo também encontrou uma segunda variante, no gene GIPR, que aumenta o risco de náusea e vômito. Detalhe: esse efeito só aparece em quem usa tirzepatida (Mounjaro, Zepbound), não em quem usa semaglutida (Ozempic, Wegovy). Faz sentido técnico: a tirzepatida age em dois receptores (GLP-1 e GIP), enquanto a semaglutida age só num. Quem carrega as variantes de risco nos dois genes tem 15 vezes mais chance de vomitar com tirzepatida. A probabilidade de náusea variou de 5% a 78% dependendo do perfil genético.

A Marie Spreckley, pesquisadora de Cambridge, resumiu bem: “a magnitude desses efeitos genéticos é pequena em termos clínicos, uma diferença de menos de 1 kg por alelo é modesta”.

O teste de US$ 499

No mesmo dia da publicação, a 23andMe lançou o Total Health, um serviço de US$ 499 (~R$ 2.700) que usa seu perfil genético pra estimar se o Ozempic ou o Mounjaro vai funcionar melhor ou pior pra você.

O problema é de proporção. O estudo foi feito com pessoas que já tinham pago pelo serviço da 23andMe. Não é uma amostra da população geral. É uma amostra de quem tem renda pra gastar num teste genético, que provavelmente já tem renda pra pagar pelo remédio. A pesquisadora Ruth Loos, que revisou o estudo, ponderou que até 5% de perda de peso já traz benefícios clínicos. Giles Yeo, geneticista de obesidade de Cambridge, disse que “seus genes importam, mas não são só eles”. Traduzindo: a genética explica uma fatia. Sexo, dose, duração do tratamento e se a pessoa tem diabetes ou não explicam outra fatia maior.

Pra um teste de US$ 499 baseado em achados que a própria comunidade científica chama de modestos, a relação custo-benefício é no mínimo questionável.

O preço no Brasil

Aqui a conta fica mais salgada. O Ozempic custa entre R$ 990 e R$ 1.180 por caneta nas farmácias brasileiras, com variação de até R$ 900 entre redes. O tratamento mínimo de seis meses sai acima de R$ 7.000. Nos EUA, sem seguro, a caneta custa em torno de R$ 1.950. Na Europa, entre R$ 670 e R$ 850.

A patente da semaglutida expirou no Brasil em março de 2026. O Tribunal Regional Federal negou a extensão pedida pela Novo Nordisk. A ANVISA tem 15 pedidos de registro de genéricos, com EMS e Ávita Care em fase avançada. A EMS investiu mais de R$ 1 bilhão numa fábrica de peptídeos em Hortolândia. A projeção é de redução de 35% no preço quando os genéricos chegarem. O CEO da Prati-Donaduzzi comparou com o Viagra: “o comprimido de referência custava R$ 50, hoje o genérico sai por R$ 0,90”.

Pra quem está esperando, a notícia boa é que o genérico vem. A notícia ruim é que ele não vai pro SUS. A CONITEC deu parecer negativo em agosto de 2025 pra incorporação da semaglutida no sistema público. Relação custo-efetividade desfavorável. Então mesmo com genérico mais barato, quem depende do SUS continua sem acesso.

O que isso significa na prática

A Novo Nordisk faturou 34,6 bilhões de dólares com semaglutida em 2025. O Ozempic sozinho rendeu 17 bilhões. É a droga mais lucrativa do planeta. E um terço das prescrições nem é pra diabetes tipo 2. É uso off-label pra emagrecimento, muitas vezes sem indicação clínica de obesidade. A demanda é impulsionada por TikTok, celebridades e antes-e-depois virais, não por endocrinologistas.

O estudo da 23andMe é ciência de verdade. Os achados fazem sentido farmacológico. O dado de que 25% dos pacientes não respondem é clinicamente útil. Mas entre “descobrir que uma variante genética melhora a resposta em 0,77 kg” e “vender um teste de US$ 499 baseado nisso”, tem um salto que parece mais marketing do que medicina.

Se você está pensando em usar Ozempic no Brasil, os fatores que mais importam pra sua resposta, segundo o próprio estudo, não são genéticos. São sexo, dosagem, duração do tratamento e se você tem diabetes ou não. E o fator que mais importa pro seu bolso é esperar o genérico chegar. R$ 7.000 em seis meses pra um remédio que tem 25% de chance de não funcionar direito é uma aposta cara, com ou sem teste genético.

Lucas Ferreira
AUTOR

Lucas Ferreira

Gamer desde o PS1, cético desde sempre

Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.

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