O primeiro brasileiro da história ganhou uma estrela na Calçada da Fama. Você provavelmente não conhece ele.
Paulinho da Costa, percussionista carioca de 77 anos, é o primeiro brasileiro nato a ganhar uma estrela na Calçada da Fama. Ele tocou em mais de 6.700 gravações. Quase ninguém sabe quem é.
Quando Michael Jackson disse que Paulinho da Costa era o maior percussionista do mundo, não foi elogio vão.
O homem que tocou em Thriller, em La Isla Bonita, em Dirty Dancing e em Jurassic Park acaba de ganhar sua estrela na Calçada da Fama de Hollywood - a 2.844ª na história do lugar. É o primeiro brasileiro nato a receber a honra. A maioria do Brasil ainda não sabe o nome dele.
A cerimônia foi no dia 13 de maio de 2026, em Los Angeles. Vine Street, número 1709, categoria Gravação. Quem discursou ao lado de Paulinho foram Larry Dunn, do Earth, Wind & Fire - com quem ele tocou em clássicos como “September” - e Ray Parker Jr.
O Brasil não fez transmissão especial. Passou em nota.
Quem é Paulinho da Costa
Nasceu no Rio de Janeiro. Tem 77 anos. Há décadas mora nos Estados Unidos, onde construiu a carreira que a maioria dos fãs de música já ouviu sem saber que era ele.
Os números são absurdos. Mais de 6.700 gravações. Mais de 970 artistas diferentes. Mais de 350 trilhas de filmes e séries. 161 indicações ao Grammy, com 59 vitórias. A academia norte-americana de gravação, a mesma que organiza o Grammy, o elegeu três vezes consecutivas como “Músico Mais Valioso” e depois criou um título especial só para ele: “Músico Emérito”.
Para ter dimensão: a maioria dos percussionistas de ponta nunca viu uma indicação ao Grammy. Paulinho acumulou 161.
O que você já ouviu com ele, provavelmente sem saber:
- Thriller e Off the Wall, de Michael Jackson
- La Isla Bonita, de Madonna
- September e Serpentine Fire, do Earth, Wind & Fire
- Álbuns de Bob Dylan, Elton John, Stevie Wonder, Prince e Whitney Houston
- As trilhas de Dirty Dancing, Jurassic Park, A Cor Púrpura e Os Caçadores da Arca Perdida
São mais de 12 produções indicadas ao Oscar com a percussão dele. Está na música, está no cinema, está nos filmes que você assistiu e provavelmente não apertou pause para pensar de onde vinha aquele som.
O detalhe que separa Paulinho de Carmen Miranda
Carmen Miranda tem uma estrela na Calçada da Fama desde março de 1941. Foi a primeira artista associada ao Brasil a receber a homenagem. Carmen era portuguesa: nasceu em Marco de Canaveses, em Portugal, se mudou bebê para o Rio de Janeiro e construiu uma identidade plenamente brasileira - o chapéu de frutas, o baião, a carreira em Hollywood nos anos 40.
A distinção pode parecer burocrática. Mas tem peso histórico. Paulinho da Costa é o primeiro brasileiro pelo critério do nascimento, pelo critério do passaporte, pelo critério que vai entrar nos livros como o definitivo.
Mas tem uma pergunta que essa conquista específica deixa no ar.
Percussionista de estúdio ser menos famoso do que atriz é óbvio. São trabalhos estruturalmente diferentes: um aparece no cartaz, o outro aparece nos créditos que ninguém lê. Não é comparação justa e não é sobre isso.
A questão é outra. O primeiro brasileiro nato da história a ganhar uma estrela na Calçada da Fama recebeu cobertura de nota de rodapé no país de origem. Nenhuma transmissão especial. Nenhum momento de celebração nacional. Um marco histórico tratado como curiosidade de fim de semana.
Vale perguntar se um brasileiro branco com o mesmo título teria o mesmo tratamento. Não dá para responder com certeza. Mas também não dá para não perguntar.
A carreira invisível que Hollywood reconhece com granito
Existem dois tipos de celebridade musical. O primeiro está na frente: canta, aparece na capa, dá entrevista. O segundo está atrás: toca o que transforma o que está na frente em algo inesquecível.
Paulinho da Costa dedicou cinco décadas ao segundo tipo. É o trabalho mais valorizado nos bastidores da indústria e o menos fotogênico para fora. Você não vê o nome dele na capa de Thriller. Você não conecta a voz dele quando September começa.
Existe um documentário sobre ele na Netflix, The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa, dirigido por Oscar Rodrigues Alves. É exatamente sobre isso: tirar da invisibilidade quem passou décadas fazendo Hollywood soar melhor sem aparecer no cartaz.
A estrela na Vine Street, 1709, é o reconhecimento mais visível que a indústria norte-americana tem a oferecer. Está gravada em granito com o nome dele.
Vai ser pisada por turistas que nunca ouviram falar nele.
Que ouviram a música que ele fez.
Beatriz Almeida
Cinema é entretenimento, e eu tô aqui pra diversão
Redatora de entretenimento e cultura pop. Cobre blockbusters e tendências do audiovisual.
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