O homem que salvou o Xbox pediu demissão. Sua sucessora saiu no mesmo dia. Quem assume é da área de IA.
Phil Spencer se aposentou do Xbox após 38 anos na Microsoft. Sarah Bond saiu junto. Quem assume é Asha Sharma, executiva de IA. O Xbox nunca mais será o mesmo.
Phil Spencer se aposentou do Xbox. Sarah Bond, a presidente que todo mundo achava que ia sucedê-lo, saiu junto. O último dia de Spencer na Microsoft foi 23 de fevereiro - depois de 38 anos na empresa, 25 deles na divisão de games. Quem assume é Asha Sharma, uma executiva que veio da Instacart, passou pela Meta e liderava a divisão de IA da Microsoft. Se isso parece a história de uma empresa de games sendo engolida por uma empresa de tecnologia, é porque é exatamente isso.
O que aconteceu
No dia 20 de fevereiro, a Microsoft mandou um e-mail interno anunciando as mudanças. Spencer seria CEO de Microsoft Gaming desde 2022 e comandava a divisão Xbox há 12 anos. Disse a Satya Nadella no outono de 2025 que queria “começar um novo capítulo”. Vai ficar como consultor até o verão.
O anúncio deveria ter sido feito na segunda-feira seguinte, mas a IGN descobriu antes e a Microsoft foi forçada a antecipar. Nunca é bom sinal quando a saída do CEO vaza antes do comunicado oficial.
Sarah Bond, presidente do Xbox e a primeira mulher negra no cargo, também está de saída. Era considerada a herdeira natural de Spencer. “I’m proud of what we’ve built”, disse ela. Fica como consultora durante a transição. Matt Booty, chefe dos Xbox Game Studios, foi promovido a diretor de conteúdo.
Quem é Asha Sharma
Asha Sharma vem da divisão CoreAI da Microsoft - a mesma divisão que toca Copilot, Azure AI e os modelos de linguagem da empresa. Antes da Microsoft, foi COO da Instacart e VP de produto na Meta. Não é uma pessoa de games. É uma pessoa de tecnologia que agora comanda games.
A primeira coisa que ela disse publicamente foi: “Games are and always will be art, crafted by humans.” Prometeu que não vai “inundar o ecossistema com AI slop sem alma.” É a frase certa pra acalmar a comunidade. A questão é se uma executiva de IA dizendo “não vou usar IA demais” é garantia ou ironia.
O que deu errado
Spencer salvou o Xbox uma vez. Quando assumiu em 2014, o Xbox One era um desastre: custava mais caro que o PS4, vinha com o Kinect obrigatório que ninguém queria e Don Mattrick tinha alienado a base inteira com políticas de DRM. Spencer reverteu quase tudo, investiu em retrocompatibilidade, criou o Game Pass e comprou estúdios como se não houvesse amanhã.
O problema é que houve amanhã.
A compra da Activision Blizzard por US$68,7 bilhões em 2023 foi a maior aquisição da história dos games. Deveria ter consolidado o Xbox como potência. Em vez disso, a Microsoft gastou dezenas de bilhões e não conseguiu traduzir isso em domínio de mercado. O Xbox Series X/S vendeu significativamente menos que o PS5 e o Switch. O Game Pass, que era pra ser o “Netflix dos jogos”, estagnou em assinantes e os preços subiram.

E depois vieram as demissões. Milhares de funcionários cortados nos estúdios que Spencer acabara de comprar. Tango Gameworks, o estúdio de Hi-Fi Rush - um dos jogos mais celebrados de 2023 - foi fechado. Arkane Austin, que fez Redfall (um fracasso), também. A mensagem que o mercado ouviu: a Microsoft compra estúdios, esprreme o valor e descarta quando os números não batem.
O Natal de 2025 foi descrito como desastroso. Nenhum lançamento exclusivo relevante pra justificar uma aquisição de quase US$70 bilhões. O início caótico do PC gaming em 2026 que a Marina descreveu aqui já apontava os sinais: jogos sumindo, estúdios fechando, a indústria se reorganizando em torno de quem sobrevive em vez de quem inova.
Relatórios indicam que a Microsoft pressionava a divisão de games por margens de lucro “anormalmente altas” - o tipo de meta que faz sentido pra software corporativo mas não pra uma indústria que vive de lançar jogos que custam centenas de milhões pra desenvolver.
O que muda pra você
Se você tem Xbox ou assina Game Pass, o curto prazo não muda muita coisa. Os jogos já em desenvolvimento vão sair. O Game Pass vai continuar funcionando. Os preços não vão cair.
O médio prazo é a incógnita. Asha Sharma vem do mundo de IA. A Microsoft vem investindo pesado em Copilot, Azure e modelos de linguagem. Colocar uma executiva de IA pra comandar games pode significar duas coisas: ou a empresa quer usar IA pra tornar o desenvolvimento de jogos mais eficiente (possível), ou quer transformar a divisão de games num braço da estratégia de IA (preocupante). A promessa de “sem AI slop” é bonita, mas Spencer também prometia coisas bonitas.
No Brasil, o Xbox já era a terceira opção atrás de PlayStation e Nintendo. O Game Pass é o produto mais competitivo que a marca tem - R$30 por mês pra acessar centenas de jogos ainda é a melhor oferta do mercado brasileiro de games. Se Sharma mantiver isso funcionando, o Xbox sobrevive aqui. Se os preços subirem de novo ou o catálogo enfraqueceer, o mercado brasileiro não vai ter paciência.
O legado
Phil Spencer fez coisas importantes. Retrocompatibilidade. Game Pass. A compra da Bethesda e da Activision. O Xbox como marca sobreviveu porque ele existiu. Mas também existiram as demissões em massa, os estúdios fechados meses depois de comprados, e uma geração de console que nunca encontrou o público. Quando o Aftermath publicou uma matéria com o título “So Long, Phil Spencer. You Will Not Be Missed”, não falava por todos - mas falava por muitos.
38 anos numa empresa. 25 no Xbox. E no final, quem assume é alguém de IA, num momento em que a indústria de games está demitindo milhares e o mercado de software está em queda livre. Spencer saiu. Bond saiu. O Xbox fica. A pergunta é: pra fazer o quê?
Lucas Ferreira
Gamer desde o PS1, cético desde sempre
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