Pesquisadores testaram o que acontece quando você confia no ChatGPT sem pensar. O resultado tem nome: rendição cognitiva

Estudo da Wharton School mostra que 79,8% das pessoas seguem respostas erradas do ChatGPT. Pesquisadores chamaram o fenômeno de rendição cognitiva.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
5 de abril de 2026 5 min
Pessoa usando ChatGPT no computador com expressão passiva
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Dois pesquisadores da Wharton School, a escola de negócios da Universidade da Pensilvânia, fizeram três experimentos com 1.372 pessoas e chegaram a um número que deveria incomodar qualquer um que usa ChatGPT no dia a dia: 79,8% dos participantes seguiram a resposta da IA mesmo quando ela estava errada. Não parcialmente errada. Errada de propósito, porque os pesquisadores manipularam o modelo pra dar respostas incorretas e mediram o que acontecia.

O estudo, publicado como preprint no SSRN em janeiro de 2026 por Steven D. Shaw e Gideon Nave, dá nome ao fenômeno: rendição cognitiva. É quando o usuário para de pensar por conta própria e terceiriza o raciocínio pra máquina, mesmo sem evidência de que a máquina está certa.

Os números

Os três experimentos somaram 9.593 tentativas individuais. Os participantes precisavam resolver problemas de lógica e raciocínio com ou sem ajuda do ChatGPT (rodando GPT-4o). Quando a IA acertava, 92,7% das pessoas seguiam a resposta, o que faz sentido. Quando a IA errava de propósito, 79,8% seguiam junto. A precisão do grupo com IA defeituosa caiu pra 31,5%, abaixo dos 42% que as pessoas atingiam sozinhas, sem ajuda nenhuma.

Ou seja: usar uma IA que erra te deixa pior do que não usar IA nenhuma.

No segundo experimento, os pesquisadores adicionaram pressão de tempo, um limite de 30 segundos por questão. A precisão com IA defeituosa desabou pra 12,1%. Sob pressão, quase ninguém parou pra checar se a resposta fazia sentido. O cérebro simplesmente aceitou o que apareceu na tela.

Outro dado que chamou atenção: a confiança dos participantes subiu cerca de 12 pontos percentuais quando usavam a IA, inclusive nos casos em que a IA estava errada. As pessoas não só seguiam a resposta errada, elas se sentiam mais seguras ao fazer isso.

O que é rendição cognitiva

Shaw e Nave propõem o que chamam de “Teoria dos Três Sistemas”, uma expansão do modelo clássico de Daniel Kahneman. Kahneman, que ganhou o Nobel de Economia, dividiu o pensamento humano em dois sistemas: o Sistema 1, rápido e intuitivo (o que faz você desviar de um buraco na calçada sem pensar), e o Sistema 2, lento e deliberado (o que você usa pra calcular 17 x 24 de cabeça). A proposta dos pesquisadores da Wharton é que a IA funciona como um Sistema 3, externo, que as pessoas tratam como se fosse o próprio Sistema 2, só que sem o esforço.

A rendição cognitiva acontece quando o usuário desativa o Sistema 2 porque o Sistema 3 já deu uma resposta. Não importa se a resposta está certa. O que importa é que ela chegou rápido, veio formatada de forma convincente e eliminava a necessidade de pensar. O cérebro, que é biologicamente programado pra economizar energia, aceita o atalho.

No podcast da Wharton, Nave explicou: “As pessoas não apenas delegam tarefas à IA. Elas delegam o próprio pensamento. E quando você delega o pensamento, perde a capacidade de avaliar se o resultado faz sentido.”

O efeito GPS

Os pesquisadores comparam o fenômeno com o que aconteceu com a navegação por GPS. Antes do Waze e do Google Maps, as pessoas memorizavam rotas, construíam mapas mentais da cidade. Depois de anos usando GPS, estudos mostraram que a capacidade de navegação espacial diminuiu. O cérebro parou de fazer o trabalho porque a máquina fazia.

Com a IA generativa, o risco é o mesmo, mas aplicado ao raciocínio. Se você usa o ChatGPT pra redigir emails, resumir textos, resolver problemas e tomar decisões todo dia, a tendência é que a habilidade de fazer essas coisas sozinho enferruje. Não porque você ficou burro. Porque o cérebro realoca recursos pra onde eles são exigidos, e se ninguém exige raciocínio crítico, ele vai pra outro lugar.

Um estudo separado do MIT Media Lab, com 54 participantes monitorados por eletroencefalograma, mostrou redução mensurável na atividade cerebral durante o uso do ChatGPT. Menos atividade nas áreas associadas a atenção e resolução de problemas. O cérebro literalmente desligou partes de si mesmo quando a IA estava presente.

O que funciona contra isso

O terceiro experimento do estudo da Wharton testou se incentivos financeiros ajudam. Pagaram os participantes proporcionalmente à precisão das respostas. Funcionou: a rendição cognitiva diminuiu quando havia dinheiro em jogo. Não desapareceu, mas diminuiu. Isso sugere que o problema não é puramente cognitivo. É motivacional. Quando não há consequência pra aceitar uma resposta errada, o caminho de menor esforço vence.

Na prática, isso significa que o cenário mais perigoso pra rendição cognitiva é justamente o mais comum: uso casual, sem pressão por resultado, sem checagem. Pedir pro ChatGPT explicar um conceito, resumir uma notícia, sugerir uma decisão. Situações onde ninguém vai conferir se a resposta estava certa.

O que isso muda

O estudo ainda não passou por revisão por pares, o que é um ponto importante. É um preprint, não um estudo publicado em periódico. Mas os números são robustos (1.372 participantes, três experimentos pré-registrados, quase 10 mil tentativas) e os pesquisadores são de uma das instituições mais respeitadas do mundo.

Se os dados se confirmarem, a implicação é desconfortável. Não é que a IA seja perigosa porque erra. Toda ferramenta erra. É que a IA é perigosa porque, quando erra, faz o usuário errar junto com uma confiança que não existia antes. A pessoa sozinha errava 58% das vezes, mas sabia que podia estar errada. Com a IA defeituosa, errava 68,5% e achava que estava certa.

Esse é o custo real da rendição cognitiva. Não é ficar burro. É perder a capacidade de perceber quando você está errado.

Lucas Ferreira
AUTOR

Lucas Ferreira

Gamer desde o PS1, cético desde sempre

Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.

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