Sam Altman teve a casa atacada com coquetel molotov, respondeu a uma investigação que o chama de "sociopata" e publicou foto da família no mesmo post
Jovem de 20 anos jogou molotov na casa de Altman às 3h45. Uma hora depois, ameaçou incendiar a sede da OpenAI. Altman respondeu com post pessoal.
Às 3h45 da manhã de sexta-feira (10), alguém jogou uma garrafa com um pano em chamas no portão da casa de Sam Altman em São Francisco. Seguranças apagaram o fogo. Ninguém se machucou. Uma hora depois, um homem com a mesma descrição apareceu na sede da OpenAI e ameaçou “incendiar o prédio”. Policiais que já tinham circulado as imagens das câmeras de segurança reconheceram o suspeito e prenderam ele no local.
O suspeito se chama Daniel Alejandro Moreno-Gama, 20 anos, do Texas. As acusações incluem tentativa de homicídio, explosão de dispositivo destrutivo com intenção de ferir, incêndio criminoso e ameaças. Está preso sem fiança. O motivo não foi confirmado.
Na sexta à noite, Altman publicou um post no blog pessoal respondendo ao ataque e a uma investigação da New Yorker que saiu dias antes. É um texto que mistura desabafo, reconhecimento de falhas, defesa pessoal e uma foto da família. Tudo junto. Tudo ao mesmo tempo.
A investigação da New Yorker
O artigo se chama “Sam Altman May Control Our Future - Can He Be Trusted?” e foi escrito por Ronan Farrow e Andrew Marantz. Os dois passaram um ano e meio apurando, entrevistaram mais de 100 pessoas e analisaram centenas de páginas de documentos internos da OpenAI.
Os principais pontos:
O ex-cientista-chefe da OpenAI, Ilya Sutskever, compilou cerca de 70 páginas de documentos enviados ao conselho. O primeiro item era um título que dizia: “Sam exibe um padrão consistente de mentira”. O documento acusava Altman de distorcer fatos pra executivos e pro conselho, incluindo sobre protocolos de segurança internos.
Paul Graham, cofundador da Y Combinator, teria dito a colegas que “Sam mentia pra gente o tempo todo” antes da saída de Altman em 2019, contradizendo a versão pública de que ele nunca foi demitido.
Altman teria negado ao conselho que a Microsoft incluiu uma cláusula anti-fusão no contrato de investimento de 2019. A cláusula existia. Dario Amodei, que depois fundou a Anthropic, registrou em anotações da época: “80% da carta de princípios foi traída”.
A equipe de Superalignment recebeu promessa de 20% dos recursos computacionais da OpenAI. Recebeu entre 1% e 2%. O líder da equipe, Jan Leike, chamou a promessa de “uma ferramenta de retenção eficaz” que nunca foi cumprida antes de sair da empresa.
Altman teria dito ao conselho que funcionalidades do GPT-4 tinham recebido aprovação do painel de segurança quando não tinham. A conselheira Helen Toner pediu documentação. Não existia.
O artigo também traz alegações de abuso sexual feitas pela irmã de Altman, Annie Altman, que acusa o irmão de abusos entre 1997 e 2006. Altman nega e está processando a irmã por difamação.
Vários ex-colegas, de forma independente, usaram a palavra “sociopata” pra descrevê-lo. Outros o chamaram de “mentiroso patológico”. Farrow resumiu: “capitalismo prevaleceu, lucro superou ética”.
A resposta de Altman
O post de Altman no blog pessoal aborda os dois eventos simultaneamente. Sobre o ataque: “A primeira pessoa fez isso ontem à noite, às 3h45 da manhã. Felizmente, ricocheteou na casa e ninguém se machucou.”
Sobre a relação entre a reportagem e a violência: “Houve um artigo incendiário sobre mim há alguns dias. Alguém me disse ontem que achava que o texto chegou num momento de grande ansiedade sobre IA e que tornava as coisas mais perigosas pra mim. Eu descartei. Agora estou acordado no meio da noite, com raiva, e pensando que subestimei o poder das palavras e das narrativas.”
Ele publicou uma foto da família. Escreveu: “Normalmente tentamos ser bem reservados, mas nesse caso estou compartilhando uma foto na esperança de que possa dissuadir a próxima pessoa de jogar um coquetel molotov na nossa casa, não importa o que pensem de mim.”
Sobre suas falhas, reconheceu de forma genérica: “Não tenho orgulho de ser avesso a conflitos, o que causou grande dor pra mim e pra OpenAI. Não tenho orgulho de ter me comportado mal num conflito com nosso conselho anterior, que levou a uma confusão enorme pra empresa.” Mas não contestou nenhuma alegação específica da New Yorker.
O contexto: abril de 2026
Esse é o mês mais turbulento da história da OpenAI. Na mesma semana em que Altman foi atacado e a New Yorker publicou a investigação:
O procurador-geral da Flórida abriu investigação contra a OpenAI por suposto envolvimento do ChatGPT num tiroteio que matou duas pessoas na Florida State University. Os logs do chat mostram que o atirador fez mais de 200 perguntas ao ChatGPT antes de abrir fogo.
Uma mulher processou a OpenAI alegando que o ChatGPT alimentou os delírios do perseguidor dela e que a empresa ignorou três avisos, incluindo uma sinalização interna de que a conta envolvia ameaças de armas de destruição em massa.
Elon Musk está processando Altman pra removê-lo da CEO como parte de uma ação de 134 bilhões de dólares. O julgamento estava marcado pra abril.
A OpenAI acabou de fechar um contrato de 50 bilhões de dólares com o Pentágono, o que intensificou críticas de defensores de segurança de IA.
A empresa está se preparando pra um IPO.
O que está acontecendo
Uma pesquisa recente da NBC mostrou que a tecnologia de IA é vista com menos simpatia do que o ICE (serviço de imigração americano). Especialistas em segurança alertam que executivos de tecnologia estão mais vulneráveis do que nunca. Kent Moyer, CEO de um grupo de proteção executiva, disse: “as ameaças estão aumentando em todo o país”.
O grupo Stop AI se distanciou do ataque: “buscamos proteger a vida humana. Não toleramos violência alguma.”
O post de Altman termina com um apelo: “Enquanto temos esse debate, devemos reduzir a retórica e as táticas e tentar ter menos explosões em menos casas, figurativa e literalmente.”
É uma frase razoável. O problema é que ela vem de alguém que, segundo mais de 100 pessoas entrevistadas pela New Yorker, construiu a empresa mais poderosa do setor de IA com base num “padrão consistente de mentira”. A violência contra ele é inaceitável. As perguntas sobre ele continuam legítimas. As duas coisas podem coexistir, e a tentativa de usar o ataque pra desviar do conteúdo da investigação é tão previsível quanto transparente.
Lucas Ferreira
Gamer desde o PS1, cético desde sempre
Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.
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