A Warner tem três filmes de O Senhor dos Anéis planejados e nenhum conta a história que realmente merecia ser filmada

A Warner aposta em A Caçada a Gollum e Sombras do Passado, mas ignora a Guerra de Angmar, a história mais cinematográfica que Tolkien escreveu e nunca virou filme.

Felipe Ouder
Felipe Ouder Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
30 de março de 2026 6 min
Cena do Rei-Bruxo de Angmar em O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei
!!

A Warner tem um problema bom e um problema ruim com O Senhor dos Anéis. O bom é que possui os direitos de uma das mitologias mais ricas já criadas, com material suficiente para décadas de filmes. O ruim é que, na hora de escolher o que filmar, está repetidamente escolhendo errado.

Três projetos estão em andamento. A Caçada a Gollum, previsto para dezembro de 2027, dirigido e estrelado por Andy Serkis, com Peter Jackson na produção. Sombras do Passado, co-roteirizado por Stephen Colbert (sim, o apresentador de talk show) junto com Philippa Boyens, ambientado 14 anos após O Retorno do Rei. E Os Anéis de Poder, da Amazon, que já está em sua terceira temporada tentando contar a história da Segunda Era sem conseguir acertar o tom.

Os três projetos giram ao redor de personagens que já conhecemos e eventos que a trilogia de Jackson já cobriu, direta ou indiretamente. Gollum. Frodo. Sam. Os hobbits. A Sociedade do Anel. É compreensível do ponto de vista comercial. Reconhecimento de marca. Rostos familiares. O público sabe o que está comprando.

Mas existe uma história na Terra-Média que tem tudo que Hollywood diz querer, e ninguém encosta nela.

A Guerra de Angmar, descrita nos apêndices de O Senhor dos Anéis e em Contos Inacabados, durou 675 anos. Seiscentos e setenta e cinco. É uma guerra que atravessa gerações inteiras de personagens, com alianças que se formam e se dissolvem, reinos que nascem e morrem, e no centro de tudo, um vilão que o público já conhece mas nunca viu no auge do poder: o Rei-Bruxo de Angmar.

O mesmo Rei-Bruxo que Éowyn mata no Retorno do Rei. O mesmo cuja profecia Glorfindel pronuncia séculos antes: “Não o persiga. Ele não retornará a esta terra. Distante ainda está seu destino, e não pela mão de homem cairá.” Essa frase é a semente de um filme inteiro. De uma trilogia inteira, se você souber o que fazer com ela.

A história funciona assim: cerca de 1.600 anos antes de Frodo carregar o Anel, o Rei-Bruxo funda o reino de Angmar no norte da Terra-Média. Seu objetivo é destruir Arnor, o reino dos Dúnedain do Norte, o mesmo povo de Aragorn. Arnor já está dividido em três reinos menores, Arthedain, Cardolan e Rhudaur, que não se entendem entre si. O Rei-Bruxo usa essa divisão com paciência estratégica, jogando um contra o outro, absorvendo Rhudaur por dentro, destruindo Cardolan, e encurralando Arthedain num cerco que dura décadas.

É uma história sobre queda. Sobre como civilizações se destroem de dentro pra fora antes que o inimigo precise dar o golpe final. Sobre como a fragmentação política abre espaço pra tirania. Se isso parece relevante em 2026, é porque é.

O que torna a Guerra de Angmar cinematograficamente superior aos projetos que a Warner está desenvolvendo é que ela não depende de nostalgia. Não precisa de Gollum fazendo performance capture pela terceira vez. Não precisa recriar atores que o público associa com outros rostos. É uma história NOVA dentro de um universo CONHECIDO, que é exatamente o que todo executivo de estúdio diz querer quando fala sobre expandir franquias.

A Caçada a Gollum é um projeto que depende inteiramente de Andy Serkis reinterpretando um personagem que ele já interpretou em seis filmes. A proposta é explorar o período entre O Hobbit e A Sociedade do Anel, quando Gandalf procura Gollum para confirmar que o anel de Bilbo é o Um Anel. É material para um curta-metragem esticado até virar longa. O arco dramático já foi contado. Sabemos onde começa, onde termina, e o que acontece no meio. A tensão narrativa é zero porque o desfecho é conhecido.

Sombras do Passado tem uma premissa mais ousada, com Sam, Merry e Pippin refazendo os primeiros passos da jornada 14 anos depois, enquanto Elanor, filha de Sam, descobre um segredo sobre os primeiros dias da Guerra do Anel. Stephen Colbert é um tolkienista genuíno, o tipo de pessoa que corrige entrevistados sobre detalhes da Segunda Era ao vivo na TV. Mas a premissa ainda orbita os mesmos personagens, os mesmos locais, os mesmos sentimentos. É fanservice sofisticado, mas fanservice.

A Guerra de Angmar não precisa de nada disso. Tem seus próprios heróis. Tem seu próprio vilão, um dos mais aterrorizantes que Tolkien criou, que aqui apareceria não como o espectro derrotado do Retorno do Rei mas como um estrategista militar no auge, destruindo reinos com a mesma frieza com que joga xadrez. Tem batalhas envolvendo elfos de Valfenda, hobbits do Condado (sim, hobbits lutaram nessa guerra), e exércitos humanos tentando segurar um reino que já está condenado.

E tem a profecia. “Não pela mão de homem cairá.” Uma frase dita no final desta história que só se realiza mil e seiscentos anos depois, quando Éowyn enfia a espada no Rei-Bruxo nos Campos de Pelennor. Imagina o peso narrativo de terminar um filme com essa frase, sabendo que o público já viu o momento em que ela se cumpre. É o tipo de ironia dramática que cineastas como Denis Villeneuve ou Christopher Nolan matariam para ter à disposição.

A destruição de Arnor também explica uma das perguntas que a trilogia de Jackson nunca responde diretamente: por que Aragorn é um Guardião errante em vez de um rei? Porque o reino dele foi destruído nessa guerra. Porque o Rei-Bruxo venceu. Filmar essa derrota daria ao retorno de Aragorn em O Retorno do Rei uma camada de significado que a trilogia original só sugere.

Ao invés disso, vamos ter mais Gollum. Mais hobbits nostálgicos. Mais revisitas a lugares que já visitamos com a mesma equipe criativa que os visitou da primeira vez. É seguro. Vai dar dinheiro. Vai encher sala de cinema no Natal. Mas não vai fazer o que a trilogia de Jackson fez, que é contar uma história que o público não sabia que precisava ouvir.

A Guerra de Angmar é essa história. E a Warner, com três filmes em desenvolvimento e zero deles sobre ela, aparentemente discorda.

A trilogia estendida voltou aos cinemas brasileiros em janeiro para celebrar 25 anos. Lotou. O público está lá. O material está lá. A vontade de ver algo novo na Terra-Média está lá. O que falta é coragem de largar o que já funcionou e apostar no que PODERIA funcionar melhor.

Felipe Ouder
AUTOR

Felipe Ouder

Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.

Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.

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