Um tenente foi correr no convés e o Strava entregou a posição do porta-aviões nuclear da França

Um oficial publicou um treino de 7km no Strava com perfil público. O GPS do smartwatch entregou as coordenadas exatas do porta-aviões nuclear Charles de Gaulle.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
21 de março de 2026 3 min
Porta-aviões nuclear Charles de Gaulle da Marinha francesa em operação no mar
!!

Um oficial da Marinha francesa foi correr 7 quilômetros no convés do porta-aviões Charles de Gaulle, publicou o treino no Strava com perfil público, e entregou a posição exata de um navio de guerra nuclear a qualquer pessoa com acesso à internet.

O tenente - referido pelo Le Monde, que primeiro relatou o caso, como “Arthur” - fez a corrida em 13 de março às 10h35. Em 35 minutos circulando o convés, o GPS do smartwatch registrou as coordenadas do navio com precisão suficiente para plotar a posição: noroeste de Chipre, a cerca de 100 quilômetros da costa turca, no Mediterrâneo oriental. O Le Monde cruzou os dados com imagens de satélite captadas pouco mais de uma hora depois e confirmou o contorno do Charles de Gaulle exatamente onde o Strava indicou.

O porta-aviões Charles de Gaulle ao lado do USS Enterprise - dois navios de guerra nucleares. O francês foi o que vazou a posição desta vez.
O porta-aviões Charles de Gaulle ao lado do USS Enterprise - dois navios de guerra nucleares. O francês foi o que vazou a posição desta vez.

Para contextualizar o tamanho do problema: o presidente Macron anunciou o envio do grupo de combate em 3 de março, dias depois de o confronto entre Israel, EUA e Irã escalar. O porta-aviões estava em rota pelo Mediterrâneo em direção ao Oriente Médio, tendo acabado de encerrar exercícios da OTAN no Mar Báltico. Forças iranianas tinham atacado bases francesas no Iraque antes do anúncio - um militar morreu, seis ficaram feridos. A posição do Charles de Gaulle era, naquele momento, informação operacional sensível.

A Marinha francesa confirmou que a publicação “não está em conformidade com as regulamentações vigentes” e anunciou medidas disciplinares. Também informou que os militares são “regularmente lembrados” das regras de higiene digital antes de cada missão.

Regularmente lembrados. Oito anos depois da mesma história acontecer pela primeira vez.

Em 2018, pesquisadores descobriram que o mapa de calor global do Strava - que exibe as rotas de corrida de todos os usuários agregadas - iluminava a localização de bases militares americanas e aliadas em regiões sem presença civil: Síria, Afeganistão, Djibuti. A lógica era simples: os únicos pontos brilhando no meio do deserto eram soldados correndo no perímetro das instalações. Em 2024, jornalistas do Le Monde localizaram os movimentos de Macron rastreando as contas Strava dos próprios seguranças presidenciais, que publicavam treinos com perfil público enquanto viajavam com o presidente. Em 2025, membros de tripulações de submarinos nucleares franceses repetiram o mesmo erro.

Cada vez que acontece, o protocolo de resposta é idêntico: “não está de acordo com as regulamentações”, “medidas disciplinares foram tomadas”, “os militares são regularmente lembrados”. Depois de quatro incidentes documentados em oito anos, “lembrar regularmente” claramente não é uma política de segurança. É um aviso de isenção de responsabilidade.

O problema não é o Strava especificamente. É que GPS mais perfil público mais área de operação sensível sempre vaza posição, independente do aplicativo. Qualquer rastreador de atividade com compartilhamento de localização ativo resolve o mesmo problema para quem quiser monitorar. O Strava só é o mais visível porque tem o mapa de calor e uma base enorme de usuários.

A solução técnica é trivial: perfil privado, ou simplesmente não usar o aplicativo em missão. Não exige treinamento especializado. Não exige equipamento novo. Exige lembrar que o GPS do smartwatch sabe exatamente onde você está - e que o Strava, por padrão, está feliz em compartilhar isso com o mundo.

Para o tenente Arthur: 7km em 35 minutos no convés é um ritmo decente. Pena que o percurso circular em cima do mesmo navio seja exatamente o tipo de padrão de movimento que identifica um porta-aviões nuclear no meio do Mediterrâneo.

A Marinha lembrou. Ele esqueceu. A próxima vez que isso acontecer, a nota vai dizer a mesma coisa.

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