O Xbox demitiu 3.200 pessoas mesmo dando lucro. A Microsoft diz ter perdido 64 centavos por dólar investido
A Microsoft cortou 3.200 empregos no Xbox e soltou quatro estúdios mesmo fechando o ano no lucro. A carta da nova CEO tenta justificar a conta.
O e-mail caiu na segunda-feira e o tamanho do estrago ficou claro logo na primeira linha. Asha Sharma, a nova chefe do Xbox, confirmou 3.200 demissões no Xbox, cerca de 20% da divisão de games da Microsoft. Mil e seiscentas pessoas foram desligadas na mesma hora, o restante sai ao longo do ano fiscal de 2027. A própria empresa vendeu o movimento como um “reset” e como “a reestruturação mais significativa da história do Xbox”. Vinte e cinco anos de console resumidos num comunicado interno que vazou pra web em minutos.
Quem acompanha a cena já esperava a machadada. Desde junho a gente vinha falando que o Xbox tinha tido o pior dia em anos. O que ninguém tinha visto era a Microsoft botar os números na mesa desse jeito.
Sharma escreveu que o negócio de games “não está saudável” e que as mudanças seriam “dolorosas”. Depois soltou a frase que rodou o mundo: num ano típico, a empresa “perdeu 64 centavos pra cada dólar investido”. Ela ainda citou 20 bilhões de dólares gastos em cinco anos enquanto a receita caía quase meio bilhão, e afirmou que o Xbox opera com margem de lucro, o quanto sobra depois de pagar todos os custos, de 3 a 10 vezes menor que a de plataformas parecidas.
Quatro estúdios saíram, e a Arkane ficou no limbo
Junto das demissões vieram as despedidas. Dois estúdios voltaram a ser independentes, dois foram vendidos, e um quinto ficou pendurado num limbo desconfortável.
- Double Fine (de Psychonauts) e Compulsion (de South of Midnight) recuperaram a independência com os direitos das próprias franquias no bolso. IP, no jargão da indústria, é exatamente isso: quem é dono do nome, dos personagens, do universo do jogo. A Double Fine comemorou dizendo que o acordo “preserva nossa história e devolve a posse dos nossos jogos pra gente”.
- Ninja Theory (de Senua’s Saga: Hellblade) e Undead Labs (de State of Decay) foram pra novos donos, com dinheiro garantido pra terminar Hellblade e o State of Decay 3. Quem comprou, a Microsoft não disse.
- Arkane Lyon, o estúdio que toca o jogo do Blade, entrou numa consulta obrigatória com o conselho de trabalhadores por causa da lei trabalhista francesa, que trava demissão relâmpago. O destino do estúdio e do Blade continua no ar.
A resposta mais afiada veio de dentro da própria família Arkane. Raphaël Colantonio, fundador do estúdio que largou a Microsoft anos atrás, respondeu o anúncio da Sharma no Twitter com quatro palavras: “Sobre a Arkane… quanto?”. Sim, ele se ofereceu pra comprar de volta a casa que ajudou a construir.
A margem de lucro positiva que fez a comunidade explodir
E foi a matemática da Microsoft que jogou lenha na fogueira. No meio da carta sobre “negócio não saudável”, o Xbox fez questão de registrar que a divisão fecha o ano fiscal com margem positiva, algo perto de 3%. Positiva. A empresa deu lucro e cortou 3.200 pessoas mesmo assim.
Os desenvolvedores sacaram na hora. “O Xbox ainda lucrou quase um bilhão e não foi suficiente”, disparou a jornalista Jaina Rodríguez-Grey. O crítico Dan Whitehead chamou o episódio de vandalismo corporativo, empresa lucrando e demitindo gente assim mesmo. O título da Kotaku resumiu o clima: a internet reagiu com alívio e raiva, “mais uma leva de desculpas surdas”. Mitch Dyer cortou qualquer tentativa de achar lado bom: “3 mil pessoas sem emprego não merece nenhum consolo nem comemoração pela suposta honestidade dos executivos”. Teve até quem respirasse aliviado, como o jornalista Christopher Dring, que apontou o óbvio possível: “Cortes grandes, mas o Xbox conseguiu não fechar nenhum estúdio hoje”.
Boa parte da conta caiu no colo do Game Pass, a assinatura que libera um catálogo gigante de jogos por uma mensalidade só. O modelo sempre foi bancado pela montanha de dinheiro da Microsoft, e agora a fatura apareceu. Henry Gilbert foi categórico: “O Game Pass vai entrar pra história como um dos programas mais destrutivos dos games”. O próprio Colantonio já tinha chamado o serviço de “modelo insustentável, subsidiado pelo dinheiro infinito da Microsoft, corroendo a indústria há uma década”.
A quinta rodada de cortes desde a compra da Activision
O número que mais assusta é a repetição: essa é a quinta grande rodada de demissões no Xbox desde que a Microsoft torrou quase 70 bilhões de dólares comprando a Activision Blizzard em 2023. Cinco. Só em 2025 a empresa passou de 15 mil cortes somando todas as áreas, sempre com balanço no azul. Quem assina a machadada agora é Asha Sharma, que assumiu depois da saída de Phil Spencer, o executivo creditado por reerguer a marca. Sharma veio da área de inteligência artificial da Microsoft, detalhe que não passou batido em nenhum fórum de jogador. E o Xbox foi só a parte mais visível de uma semana de sangria: a Microsoft cortou milhares de vagas em outras divisões nos mesmos dias, sempre com o discurso de “foco” e “eficiência” que virou trilha sonora da empresa nos últimos dois anos.
Pro brasileiro, que paga caro em tudo e viu o Xbox minguar por aqui faz tempo, a pergunta prática é uma só: e os jogos? A boa notícia dentro do desastre é que a Microsoft garantiu que nenhum jogo já anunciado foi cancelado. OD, o projeto do Hideo Kojima, segue de pé. Hellblade e State of Decay 3 continuam com verba pra sair. O que muda de verdade é a estrutura por trás: menos estúdios, menos gente, e um Game Pass que vai ter que provar que se sustenta sem o “dinheiro infinito” cobrindo o rombo.
O que sobrou foi uma das empresas mais lucrativas do planeta tratando três mil empregos como linha de planilha. A Arkane ainda pode ser a próxima a cair, e a divulgação de resultados da Microsoft vem logo aí pra mostrar quanto de tudo isso vira “eficiência” no gráfico pro investidor. A régua mede lucro. As pessoas que faziam os jogos que a gente joga viraram o custo a ser cortado.
Carla Mendes
Cobrindo esports desde 2018
Cobrindo cenário competitivo de esports desde 2018. Acompanha torneios e equipes profissionais.
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