Zack Snyder vai refazer Fuga de Nova York. parece o casamento errado, até você lembrar do primeiro filme que ele dirigiu

Zack Snyder vai escrever e dirigir o remake de Fuga de Nova York, com John Carpenter como produtor executivo. A escolha é menos absurda do que parece.

Felipe Ouder
Felipe Ouder Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
2 de junho de 2026 6 min
Snake Plissken de tapa-olho diante da silhueta de uma Nova York em ruínas, na estética distópica de Fuga de Nova York
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Em 1981, John Carpenter precisava de uma Nova York em ruínas e tinha seis milhões de dólares no bolso. Não dava.

Refazer Manhattan como uma cidade-presídio destruída ia consumir o orçamento inteiro só em cenário. Então ele, a produtora Debra Hill e a equipe foram parar em East St. Louis, do outro lado do rio Mississippi, onde um incêndio em 1976 tinha deixado quarteirões inteiros de escombros de verdade. Carpenter filmou a distopia dele na falência de uma cidade real.

Fuga de Nova York é grande justamente porque foi pequeno. Guarde essa ideia, porque o remake de Fuga de Nova York que acaba de ser anunciado parte exatamente do princípio contrário.

A notícia saiu primeiro no Hollywood Reporter e foi confirmada por outros veículos no começo desse junho: Zack Snyder vai escrever e dirigir uma nova versão do clássico, com o próprio Carpenter creditado como produtor executivo. O pacote está sendo oferecido a estúdios e plataformas de streaming nas próximas semanas, mas a intenção declarada é de lançamento nos cinemas.

Snake Plissken, Watergate e um filme que era raivoso de propósito

O original é um dos pilares da ficção científica de ação dos anos 1980. Ambientado num 1997 distópico, ele transforma a ilha de Manhattan numa penitenciária de segurança máxima e joga lá dentro Snake Plissken (Kurt Russell): herói de guerra virado presidiário, tapa-olho, cobra tatuada no peito, recrutado para resgatar o presidente dos Estados Unidos depois que o avião dele cai na cidade.

Carpenter escreveu o roteiro nos anos 1970, com o cinismo de quem tinha acabado de assistir ao escândalo de Watergate. O Estado está podre, o herói não acredita em nada, e a única lei dentro da ilha é a do próprio Snake. Era um filme barato, mesquinho e ressentido. E funcionava por isso.

Não dá pra medir o tamanho dele só pela bilheteria, que passou dos 50 milhões de dólares. Snake Plissken virou molde. Em Metal Gear Solid 2, Hideo Kojima fez o próprio Solid Snake se disfarçar sob o codinome “Iroquois Pliskin”, referência escancarada ao personagem de Kurt Russell, daquelas postas no jogo só pra ninguém ter dúvida de onde veio a ideia. Meio século de distopias urbanas, dos games aos quadrinhos, bebeu daquele tapa-olho. Refazer isso é mexer num gene cultural, não num filme esquecido no fundo de uma locadora.

Por que Zack Snyder parece a pessoa errada para o serviço

Para quem não acompanha, Zack Snyder é o diretor de 300, Watchmen e da versão dele da Liga da Justiça: câmera lenta operística, imagem polida até o último pixel, heroísmo levado a sério com peso de tragédia grega. É quase o oposto exato do que Carpenter fez. O último projeto grande de Snyder foi Rebel Moon, a space opera da Netflix que naufragou com a crítica em 2023. Pegar o filme mais enxuto e cínico de Carpenter e entregar pro cineasta da pose heroica em slow motion soa como piada pronta.

Só que tem um detalhe que estraga a piada. O primeiro longa que Snyder dirigiu na vida foi Madrugada dos Mortos (2004), o remake do clássico de zumbis de George Romero. E não era pose nenhuma: era rápido, sujo, prático, mesquinho na medida certa. Foi um dos raríssimos remakes de terror que sobreviveram à comparação com o original. Antes de virar o sujeito da câmera lenta, Snyder era um diretor de gênero eficiente, sem gordura.

E é justamente esse Snyder que ele promete entregar aqui. Segundo o Hollywood Reporter, a ideia é fazer um filme “mais bruto e sujo”, apostando em efeitos práticos (aqueles construídos na frente da câmera, com cenário, maquiagem e explosão de verdade em vez de computação gráfica) e locações reais, o avesso do acabamento de plástico dos filmes de super-herói dele. Em outras palavras, Snyder está prometendo voltar a ser o Snyder de 2004.

Se cumprir, é a escolha menos absurda do que parece.

O projeto amaldiçoado que ninguém conseguia tirar da gaveta

Vale lembrar por que isso virou notícia.

Hollywood tenta refazer Fuga de Nova York há tempo demais. Passaram pelo projeto Len Wiseman, Brett Ratner, Breck Eisner, Robert Rodriguez, Leigh Whannell e o coletivo Radio Silence. Gerard Butler já chegou a ser cotado para vestir o tapa-olho de Snake. New Line e 20th Century Fox seguraram os direitos em momentos diferentes, e ninguém conseguiu sair do papel. É o tipo de propriedade amaldiçoada que apodrece anos numa gaveta, e que lembra o western que Park Chan-wook foi resgatar depois de vinte anos engavetado. A diferença é que ninguém duvida da competência técnica de Snyder para rodar ação. A dúvida é outra.

A bênção de Carpenter pesa, mas convém colocar em perspectiva. Carpenter nunca escondeu que gosta de dinheiro. Já viu Halloween virar uma franquia infinita, ser refeito e relançado mais de uma vez, e costuma reagir a tudo com um dar de ombros bem-humorado e o cheque depositado. Estar creditado como produtor executivo significa que ele divide os direitos com a StudioCanal e ganha com o projeto. Não é o mesmo que dizer que o filme precisa existir.

No Brasil, o original e a continuação, Fuga de Los Angeles (1996), também com Kurt Russell, são cult de locadora para quem cresceu garimpando VHS. A trilha de sintetizador, que Carpenter assinou com Alan Howarth, é metade da personalidade do filme. E é aqui que mora minha desconfiança, que não tem nada a ver com Snyder ser bom ou ruim de serviço.

Fuga de Nova York não era ótimo apesar de ser pobre. Era ótimo porque era pobre. A sujeira era real porque o dinheiro não dava pra fingir. O cinismo cabia porque era um filme pequeno feito por gente que não tinha nada a perder. Um remake com ambição de cinema, orçamento de estúdio e Snyder no comando parte do princípio oposto, o de que a coisa pode ser maior. O risco não é Snyder não saber filmar tiroteio. É a mesquinhez não sobreviver a um orçamento gordo.

Torço pra estar errado. O Snyder de Madrugada dos Mortos saberia exatamente o que fazer com Snake Plissken. O Snyder de Rebel Moon transformaria East St. Louis em ópera. Enquanto a gente descobre qual dos dois vai aparecer no set, faça o seguinte: assista ao original. Seis milhões de dólares, um tapa-olho e a cidade mais cara do mundo encenada nos escombros de outra. Ninguém precisava de mais que isso.

Felipe Ouder
AUTOR

Felipe Ouder

Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.

Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.

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