A Universal lançou o trailer de Shrek 5 e correu pra desligar os comentários
Depois de 16 anos, Shrek voltou com Zendaya no elenco e um visual mais polido. Os fãs odiaram tanto que a Universal desligou os comentários do YouTube.
Dezesseis anos. É quanto tempo a gente esperou pra ver o ogro verde mais famoso do cinema voltar pras telonas. Aí o trailer de Shrek 5 finalmente caiu nessa terça (16), e a reação foi tão ruim que a Universal correu pra desligar os comentários do YouTube. Quando o próprio estúdio fecha a seção de comentários do trailer que ele acabou de lançar, você já sabe o tamanho do estrago.
O YouTube esconde a contagem de dislikes desde 2021, então número oficial de rejeição ninguém vê. Mas pela estimativa da extensão Return YouTube Dislike, que recria o dado a partir dos próprios usuários, o vídeo juntou mais dislike que like nas primeiras horas. Comentário desligado e curtida em queda livre contam o resto.
Não foi um começo dos sonhos. Mas vamos por partes, porque tem muita coisa boa enterrada embaixo dessa pancadaria.
Shrek 5 estreia em 30 de junho de 2027. A Universal empurrou a data duas vezes pra não bater de frente com Vingadores: Doomsday, que ficou marcado pra dezembro de 2026. Mike Myers volta como Shrek, Eddie Murphy como o Burro e Cameron Diaz como a Fiona, o trio original completo. A novidade é a Zendaya, que dá voz à Felicia, a filha adolescente do casal de ogros. Pelo que vazou, é ela quem, mexendo com magia, manda Shrek e o Burro parar no nosso mundo, o tal “mundo real”. A família ainda aparece presa numa cela em algum momento, e o trailer dá uma alfinetada em Frozen.
O Shrek ficou liso demais
O problema número um é o visual. A DreamWorks renderizou o filme num motor gráfico novo, o MoonRay, que entrega iluminação mais sofisticada e texturas mais detalhadas. Em bom português: tudo ficou mais limpo, mais brilhante, mais “caro”. E é exatamente esse o problema.
O charme do Shrek de 2001 era ser meio feio de propósito. A textura tosca, a luz dura, aquela cara de jogo de videogame da época. O novo Shrek tem poros, rugas suaves, pele que reflete luz como gente de verdade. O Burro então virou uma bola de pelo hiper-realista que o pessoal do Kotaku comparou a uma “demo técnica da Unreal Engine 5”. O lamento que mais repetiu na internet foi simples: “Sinto falta do Shrek liso. Cadê o Shrek liso?”.
Tem um nome pra esse incômodo de ver uma coisa familiar ficar realista demais e dar uma sensação errada: vale da estranheza, quando algo quase humano provoca repulsa justamente por estar perto demais. É o mesmo desconforto de quando a IA do Google tentou recriar Zelda e travou ali nesse limbo. O Shrek caprichado caiu no mesmo buraco.
A reação foi imediata. “O que fizeram com ele?”, postou um fã com emojis chorando. Outro resumiu: “Parece um comercial do McDonald’s do Shrek, não um filme do Shrek”. E teve quem cravasse o golpe mais cruel pra DreamWorks: “Agora parece exatamente um filme da Disney”.
Gato de Botas mostrou outro caminho, e ninguém esqueceu
A crítica do SlashFilm foi mais fundo que o visual. O argumento deles é que a DreamWorks já provou que sabe fazer melhor. Em 2022, Gato de Botas 2: O Último Pedido reinventou o traço do estúdio com uma animação estilizada, quase desenhada à mão, e ainda entregou uma história sobre medo da morte que fez adulto chorar no cinema.
Shrek 5 parece fazer o contrário. O trailer aposta em piada de duplo sentido e referência a si mesmo em vez de mostrar algo novo. Tem aquele cheiro de humor desenhado pra render corte de quinze segundos no TikTok. Até a voz do Mike Myers soou meio desligada, sem a energia de antigamente.
A pergunta que fica é honesta: o que justifica esperar dezesseis anos por um filme que parece um Shrek qualquer com piada mais picante?
No Brasil, todo Shrek novo carrega o Bussunda
Essa parte dói diferente pra gente. O Shrek dos dois primeiros filmes, no Brasil, foi o Bussunda, o Cláudio Besserman Vianna do Casseta & Planeta. A voz dele virou parte do personagem pra uma geração inteira.
O Bussunda morreu em 29 de junho de 2006, na Alemanha, cobrindo a Copa do Mundo, no dia de um jogo do Brasil. Desde Shrek Terceiro quem dubla o ogro é o Mauro Ramos, que aliás tinha sido a primeira escolha lá no filme de 2001 antes do Bussunda entrar. Para Shrek 5 ainda não saiu confirmação de quem vai dublar, mas a aposta natural é o Mauro Ramos de novo.
Não dá pra ignorar a ironia: o trailer de um novo Shrek cai bem no meio da Copa de 2026, quase vinte anos depois de a gente perder a voz brasileira do personagem justamente numa Copa. Todo Shrek inédito, pra quem é do Brasil, vem com essa saudade embutida.
Se bateu a vontade de rever os clássicos antes de 2027, Shrek, Shrek 2 e Shrek Terceiro estão na Netflix e no Prime Video. Shrek Para Sempre, o de 2010 que era pra ser o último, está no Globoplay.
Por que a DreamWorks não pode errar essa
O tamanho do que está em jogo é gigante. A franquia Shrek faturou perto de US$ 3 bilhões no mundo. Só Shrek 2, em 2004, fez US$ 928 milhões e foi a animação mais lucrativa da história até então. O primeiro filme ganhou o primeiríssimo Oscar de Melhor Animação. Estamos falando de uma das maiores galinhas dos ovos de ouro da Hollywood moderna voltando, agora com o Chris Meledandri, o cara por trás dos Minions, no comando da produção.
Por isso a recepção morna do trailer dói tanto. Eu sou a primeira a defender filme pipoca, blockbuster grande, espetáculo de estúdio sem culpa nenhuma. O problema nunca foi o filme existir. Foi o estúdio parecer ter alisado a personalidade do Shrek pra deixar o ogro com a cara de qualquer animação genérica de 2026. Repaginada boa é a que mantém o que te fez amar aquilo. Essa apagou a sujeira que era o ponto.
Falta mais de um ano até a estreia. É tempo de sobra pra DreamWorks escutar a reação e ajustar a mão antes de junho de 2027. Ou pra fingir que não viu nada, igual fez com os comentários.
Beatriz Almeida
Cinema é entretenimento, e eu tô aqui pra diversão
Redatora de entretenimento e cultura pop. Cobre blockbusters e tendências do audiovisual.
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