Dia D confirma: faz 49 anos que Hollywood tenta filmar alienígena como Spielberg, e ninguém consegue

Dia D estreia no Brasil um dia antes dos EUA com 81% no Rotten Tomatoes. De Contatos Imediatos a Guerra dos Mundos, ninguém filma o céu como Spielberg.

Felipe Ouder
Felipe Ouder Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
11 de junho de 2026 6 min
Emily Blunt e Josh O'Connor de mãos dadas cercados por homens de uniforme em cena de Dia D
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Dia D chegou aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (11), um dia antes da estreia americana, e o retorno de Steven Spielberg à ficção científica desembarca com selo Certified Fresh e 81% de aprovação no Rotten Tomatoes, somadas 194 críticas. Os números são bons, mas a conversa que o filme reabre é melhor: faz 49 anos que Hollywood inteira tenta filmar o primeiro contato de humanos com extraterrestres com a força de Contatos Imediatos de Terceiro Grau, e ninguém ocupou o posto. Quem mais chegou perto foi Denis Villeneuve com A Chegada, em 2016, e mesmo ali o DNA do filme de 1977 está em cada frame.

Contatos Imediatos, E.T. e Guerra dos Mundos: o mesmo céu, três Américas

O alienígena nunca foi o centro dos filmes de contato de Spielberg. Nos três que ele dirigiu antes deste, a criatura é quase um detalhe; o protagonista é o país que olha para cima. Contatos Imediatos de Terceiro Grau saiu em 1977, dois anos depois do fim da Guerra do Vietnã e três depois de Watergate, e mesmo assim tratou o contato como epifania: Richard Dreyfuss esculpindo a montanha no purê de batata, as cinco notas de John Williams como idioma universal, a nave-mãe surgindo sobre a Torre do Diabo feito uma catedral de luz.

E.T. - O Extraterrestre, de 1982, nasceu de outro lugar. O próprio diretor já contou várias vezes que a semente do filme foi o divórcio dos pais dele: o alienígena é o amigo que preenche a casa partida, e a câmera passa o filme inteiro na altura dos olhos de uma criança, enquadrando os adultos como pernas e cinturas sem rosto. Guerra dos Mundos, de 2005, inverteu o sinal por completo. Rodado com o 11 de Setembro ainda fresco na memória americana, trocou o assombro pelo pavor: cinza de gente vaporizada grudada na jaqueta de Tom Cruise, multidões em fuga por rodovias entupidas, o céu como ameaça.

Três filmes, três décadas, três retratos dos Estados Unidos. Dia D fecha o ciclo no momento em que o Congresso americano vem realizando audiências públicas sobre fenômenos aéreos não identificados e metade da internet tem certeza de que o governo esconde alguma coisa. Spielberg, aos 79 anos, escolheu filmar exatamente essa paranoia.

Uma apresentadora do tempo que lê mentes e o maior vazamento da história

A premissa parece saída de um fórum de conspiração, e é proposital. Emily Blunt vive Margaret Fairchild, apresentadora de previsão do tempo que, durante uma transmissão ao vivo, é atravessada por alguma coisa e sai do ar falando línguas que nunca estudou e lendo pensamentos alheios. Josh O’Connor é Daniel Kellner, especialista em segurança digital no centro de um vazamento que expõe décadas de acobertamento governamental sobre vida inteligente fora da Terra. Colin Firth faz o chefe da agência que caça os dois, com Colman Domingo, Wyatt Russell e Eve Hewson completando o elenco.

Atrás da câmera, a banda de sempre. O roteiro é de David Koepp, o mesmo de Jurassic Park e Guerra dos Mundos, sobre história do próprio Spielberg. A fotografia é de Janusz Kamiński, o polonês que ilumina os filmes do diretor desde A Lista de Schindler. E a trilha marca a trigésima colaboração com John Williams, que compôs aos 94 anos. A produção foi cercada de um sigilo que a gente já tinha contado por aqui: O’Connor recebeu o roteiro por motocicleta, e o documento foi recolhido no dia seguinte.

A Variety sentiu falta do assombro de 1977, e a queixa diz mais sobre 2026

O consenso da crítica, compilado pelo Rotten Tomatoes, descreve o filme como “uma variação humanista de um dos temas mais revisitados de Steven Spielberg”, impulsionada pelo “melhor trabalho da carreira de Emily Blunt”. Matt Neglia, do Next Best Picture, foi direto: “Dia D pertence inteiramente a Emily Blunt; possivelmente a melhor atuação da carreira dela”. Pete Hammond, do Deadline, completou que O’Connor não fica atrás dela em momento nenhum.

Nem todo mundo saiu convertido da sessão. Owen Gleiberman, da Variety, escreveu que “Dia D nunca entrega aquele barato de assombro que Contatos Imediatos entregava” e que, onde o filme de 1977 “tocava no mistério com uma inocência deslumbrada e espetacular”, o novo “parece um docudrama de suspense”. A Slant Magazine achou o desfecho “uma saída pela tangente”. E Edward Douglas, do Weekend Warrior, demoliu: “o filme sobre vida alienígena mais inacessível, tedioso e óbvio de toda a carreira dele”.

A farpa da Variety é a mais interessante do lote, porque cobra do filme uma coisa que ele recusa de propósito. O assombro de 1977 pressupunha um público capaz de olhar para o céu sem desconfiar de quem controla a transmissão. Em 2026, qualquer luz estranha vira thread, live e teoria da conspiração em vinte minutos. Filmar o contato como suspense de vazamento e acobertamento é o retrato honesto de onde aquela inocência foi parar. A Inverse entendeu o movimento e chamou Dia D de “o cinema mais elétrico que Spielberg faz em décadas, no mínimo o filme mais acelerado dele desde Guerra dos Mundos”.

A estreia no Brasil um dia antes dos EUA (e o óvni do Paraná)

A estreia brasileira antecipada tem razão de mercado: grandes lançamentos costumam abrir em mercados internacionais antes dos Estados Unidos para gerar burburinho global antes do fim de semana de abertura americano. Por aqui, o acaso deu uma mãozinha ao marketing. Segundo o Salada de Cinema, um suposto avistamento de óvni no Paraná circulou nas redes nos últimos dias, misturando divulgação de Hollywood, relatos não explicados e a confusão de sempre entre ficção e realidade. O filme estreia exatamente no meio dessa sopa, o que ou é sorte de distribuidor ou é a prova de que o tema escolheu a hora certa.

Quando as primeiras reações saíram, em maio, o coro já apontava o melhor Spielberg em vinte anos, e a estreia confirmou o tamanho da expectativa sem confirmar unanimidade, o que costuma ser sinal de filme vivo. Se der tempo, revisite Contatos Imediatos de Terceiro Grau antes da sessão e deixe a comparação de lado, exercício que a própria Variety mostrou ser armadilha. O que vale é a conversa que os dois filmes travam através de meio século: um pergunta o que existe lá em cima, o outro pergunta quem decide se a gente tem o direito de saber. Entre uma pergunta e outra, o posto de melhor diretor de alienígenas do cinema segue ocupado pelo mesmo senhor de boné.

Felipe Ouder
AUTOR

Felipe Ouder

Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.

Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.

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