A Odisseia de Nolan sem ter lido Homero: o guia da história, dos deuses e dos monstros

A Odisseia de Nolan tem quase três horas, é contada fora de ordem e não explica nada. Aqui está o mapa da história, dos deuses e dos monstros.

Felipe Ouder
Felipe Ouder Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
18 de julho de 2026 5 min
Zendaya como a deusa Atena em A Odisseia, de Christopher Nolan
!!

Nolan não segura a sua mão. A Odisseia de Nolan dura quase três horas, é contada fora de ordem e chega intercalada pela voz de um bardo, vivido por Travis Scott, que canta os feitos do herói enquanto o próprio Odisseu, papel de Matt Damon, relembra a viagem de volta pra casa. Se você não abre o poema de Homero desde a escola, ou nunca abriu, dá pra se perder nos primeiros vinte minutos. A boa notícia é que a história da Odisseia cabe num guardanapo se alguém te explicar o mapa antes da sessão. É o que vou fazer aqui, sem estragar as surpresas que o filme guarda.

A guerra que já tinha acabado quando o filme começa

Odisseu, rei da pequena ilha de Ítaca, é um dos gregos que passou dez anos cercando a cidade de Troia. O cavalo de madeira que engana os troianos, aliás, foi ideia dele. A guerra termina, todo mundo embarca pra casa, e é justamente essa volta que dá nome ao poema: a palavra “odisseia” virou sinônimo de viagem longa e sofrida por causa dessa bagunça toda. Odisseu leva outros dez anos pra reencontrar a família, e o filme pega ele já quebrado, perto do fim dessa maratona no mar.

Ítaca tomada: Penélope, Telêmaco e os pretendentes

Enquanto Odisseu some no oceano, a casa dele vira um caos. Penélope (Anne Hathaway), a esposa, passa vinte anos sem saber se o marido está vivo. O palácio é ocupado por dezenas de pretendentes, homens que querem casar com ela pra ficar com o trono e que comem, bebem e destroem tudo enquanto pressionam por uma resposta. Penélope enrola a todos com um truque que virou lenda: promete escolher um novo marido quando terminar de tecer uma mortalha, e desfia à noite o que teceu de dia. O filho do casal, Telêmaco (Tom Holland), era bebê quando o pai partiu e agora é um rapaz tentando segurar as pontas contra os invasores, entre eles o arrogante Antínoo (Robert Pattinson).

Poseidon, Atena e Zeus: quem puxa as cordas

Nada disso acontece sem interferência divina, e três nomes seguram as rédeas. Poseidon, deus dos mares, é o grande inimigo de Odisseu por um motivo que já explico, e é ele quem transforma cada trecho de oceano num pesadelo. Atena (Zendaya), deusa da sabedoria e da estratégia, é a madrinha do herói: aparece disfarçada, guia Telêmaco e arma boa parte do resgate. E Zeus, o chefe do Olimpo, faz o papel de juiz, decidindo quando a maré vira a favor ou contra. Guardar esses três já resolve metade da confusão.

As paradas monstruosas, uma a uma

O coração da Odisseia são as escalas dessa volta pra casa, e é nelas que Nolan solta o poder das câmeras IMAX de 70mm. O roteiro embaralha a ordem de propósito, mas o conteúdo de cada parada é este:

  • Os Lotófagos: um povo que oferece uma flor de lótus deliciosa e traiçoeira. Quem come esquece a família, a casa e a própria vontade de voltar. A primeira armadilha é a mais mansa e a mais assustadora ao mesmo tempo.
  • Polifemo, o Ciclope: o gigante de um olho só que prende Odisseu e a tripulação numa caverna pra devorá-los um a um. O herói embebeda o monstro, diz se chamar “Ninguém” e crava uma estaca no olho dele. Quando Polifemo grita por socorro, berra que “Ninguém” o atacou, e os outros ciclopes ignoram. O detalhe fatal: Polifemo é filho de Poseidon. Essa cegueira é o que dispara a fúria do deus do mar.
  • Circe: a feiticeira (Samantha Morton) que recebe os marinheiros com um banquete e transforma metade deles em porcos. Odisseu resiste ao feitiço, vira amante dela por um ano e sai de lá com instruções pra sobreviver ao resto da viagem, incluindo uma descida ao mundo dos mortos.
  • As Sereias: criaturas cujo canto é tão irresistível que faz marinheiro se jogar no mar pra morrer. Odisseu tapa os ouvidos da tripulação com cera e manda que o amarrem ao mastro, pra ouvir a música sem conseguir se atirar. Ele queria as duas coisas, o prazer e a sobrevivência, e deu um jeito de ter.
  • Cila e Caríbdis: o pior dilema do poema. De um lado, o redemoinho Caríbdis, que engole o navio inteiro. Do outro, Cila, um monstro de seis cabeças que devora exatamente seis homens. Odisseu escolhe sacrificar os seis pra salvar o resto da tripulação. Saída limpa não existe.
  • Calipso: a ninfa (Charlize Theron) que resgata Odisseu de um naufrágio e o mantém preso na ilha dela por sete anos, oferecendo imortalidade em troca de ele ficar pra sempre. Ele recusa a vida eterna pra tentar voltar pra uma esposa que envelhece do outro lado do mar. É o momento mais humano da história inteira.

Por que os primeiros vinte minutos confundem

No poema, boa parte dessas aventuras é o próprio Odisseu contando pra uma corte o que viveu, ou seja, flashback dentro de flashback. Nolan abraça essa estrutura por inteiro: o bardo de Travis Scott funciona como um narrador antigo, e o filme salta entre o presente da chegada a Ítaca e as memórias das paradas no mar. É por isso que a abertura embaralha. Depois que você percebe que existem duas linhas do tempo correndo juntas, a de casa e a da viagem, o resto se encaixa sozinho.

Com esse mapa na cabeça, sobra energia pra reparar no que importa na tela: a escala das imagens, o Ciclope em tamanho de prédio, o mar filmado como pouca gente filmou. E se aparecer alguém dizendo que Nolan traiu Homero por causa de uma mudança ou outra, já expliquei por que essa bronca erra o alvo: esse poema foi remodelado por séculos de gente contando e recontando, que é exatamente o que um filme faz. Agora é só comprar a pipoca. A viagem tem quase três mil anos e continua valendo o ingresso.

Felipe Ouder
AUTOR

Felipe Ouder

Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.

Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.

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