Disseram que Nolan ia estragar A Odisseia. Ela estreou com 98% e expôs quem nunca leu Homero
O trailer foi tratado como profanação e o filme estreou com 98% no Rotten Tomatoes. A briga sobre fidelidade a Homero sempre foi a pergunta errada.
Quando o primeiro trailer de A Odisseia de Nolan vazou pra internet em maio, escrevi por aqui que o diretor tinha rodado o filme inteiro em câmeras IMAX de 70mm, um formato de película gigante que capta muito mais detalhe que qualquer câmera digital comum e que praticamente não existe em nenhum outro filme do planeta. O que não dava pra prever era a velocidade com que o pré-lançamento viraria um tribunal. Diálogo moderno demais pra Grécia antiga. Elenco sem atores gregos. Travis Scott escalado como um bardo. O trailer foi massacrado, virou piada recorrente, e metade da internet decretou, com meses de antecedência, que Christopher Nolan ia profanar Homero.
Aí o filme estreou. Dia 16 nos cinemas brasileiros, dia 17 nos Estados Unidos. Cravou 98% de aprovação no Rotten Tomatoes, o maior índice da carreira de Nolan, e US$ 17,6 milhões só nas pré-estreias de quinta, a melhor marca do ano. A projeção de fim de semana beira os US$ 120 milhões, o que faz de A Odisseia a maior estreia de um live-action em 2026 e a maior abertura de Matt Damon como protagonista, batendo O Ultimato Bourne de 2007. São números altos até para um orçamento de US$ 250 milhões, o mais caro que Christopher Nolan já bancou, e um voto de confiança da Universal que hoje parece barato. O tribunal se dissolveu numa tarde.
Vale a pena lembrar do que exatamente as pessoas estavam com raiva. O primeiro alvo era o elenco: Lupita Nyong’o como Helena de Troia e Clitemnestra, Robert Pattinson como Antínoo, Zendaya como Atena, Charlize Theron como Calipso, Tom Holland como Telêmaco, Anne Hathaway como Penélope. Quando o nome de Lupita saiu, escrevi que a internet estava furiosa e que ninguém ali tinha aberto o poema. Repito agora, com o filme na tela.
O segundo alvo era o diálogo, “moderno demais”. O terceiro, a decisão de escalar Travis Scott como um aedo, o poeta-cantor que recitava esses versos de cor séculos antes de alguém escrever a Odisseia. Nolan respondeu à altura: “Essas conversas que acontecem antes de as pessoas verem o filme são sempre irrelevantes, porque ninguém que as está tendo sabe o que o filme de fato é.” Comparou com o ceticismo que cercou seus Batmans. “Faz parte do processo”.
A reclamação do diálogo “moderno” é a mais engraçada das três. O grego de Homero era a língua corrente da sua época, popular e acessível, feita pra ser entendida por quem ouvia sentado no chão da praça. E cada geração reescreve esse grego do zero: só em português a Odisseia já foi vertida pelo hexâmetro empolado de Odorico Mendes no século 19 e pela clareza seca de tradutores contemporâneos, dois poemas quase distintos saídos do mesmo verso. Estranhar que Nolan atualize a fala é estranhar a coisa mais antiga que existe na história desse texto.
E ele mexeu no texto, sim. Nolan inverteu a dinâmica entre Penélope e Telêmaco: no filme é ela quem repreende o filho pela imaturidade, enquanto no poema é Telêmaco que trata a mãe com condescendência. E cortou a minha cena favorita do livro inteiro, o teste da cama. Em Homero, Penélope não corre pros braços do marido que sumiu por vinte anos. Ela arma uma cilada: manda tirar a cama do casal do quarto. Odisseu se enfurece, porque sabe que aquele leito foi esculpido por ele a partir de uma oliveira viva, enraizada no chão, impossível de arrastar. Só o verdadeiro Odisseu saberia disso. É a mulher mais astuta do poema provando, num golpe, que é mais esperta que o próprio herói. Nolan troca a armadilha por um abraço imediato, Telêmaco coroado rei e o casal velejando pro pôr do sol.
Vou ser honesto: esse corte dói. De todas as mudanças que Nolan fez no original, é a única que me parece tirar algo real, porque apaga a inteligência de Penélope justo no instante em que ela existe pra brilhar. Se você quer munição pra reclamar de fidelidade, é esse corte. O diálogo e o elenco nunca foram o alvo certo.
E “fidelidade” é onde a discussão inteira desaba. A Odisseia não tem um original pra ser traído. Antes de virar texto, ela foi cantada por séculos, de praça em praça, cada aedo acrescentando, cortando e remodelando conforme a plateia daquela noite. Homero, se é que existiu um Homero, foi o nome que a gente deu ao ponto em que essa maré de recitação enfim se fixou no papiro. O poema que tratamos como sagrado já era uma colcha de mil versões orais quando alguém decidiu passar pra escrita.
Por isso a jogada mais atacada de Nolan, o Travis Scott como aedo, é a coisa mais homérica do filme. Nolan escalou um rapper porque enxerga a poesia oral clássica como parente direta do rap, e ele tem razão: métrica, improviso, repetição, um cara sozinho segurando uma plateia só com ritmo e memória. Quem gritou “profanação” estava, sem perceber, defendendo uma Odisseia que nunca existiu, uma escritura congelada no lugar do organismo vivo e mutante que o poema sempre foi. O filme deixou à mostra quem nunca entendeu o que Homero era.
Existe uma corrente crítica, que a IndieWire resumiu bem, que dá de ombros pra briga toda e pergunta: e daí? Cobrar fidelidade de um texto que sempre foi maleável é uma régua boba pra julgar cinema. Concordo em parte. A pergunta que sobra, a única que interessa de verdade, é se A Odisseia funciona como filme, se aqueles 70mm de película entregam o mar, o Ciclope, o horror e a saudade de casa numa escala que justifique a bilheteria. Os 98% da crítica e a maior estreia live-action do ano sugerem que sim.
E fica a ironia deliciosa. O mesmo público que passou meses jurando que Nolan ia matar um clássico acabou fazendo exatamente o que os gregos faziam nas praças: discutir em voz alta, cada um com sua versão, uma história de quase três mil anos. A Odisseia já sobreviveu a Roma, ao cinema mudo, ao Kirk Douglas de sunga em Ulisses. Vai sobreviver ao Nolan também.
Felipe Ouder
Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.
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