Um aluno usou Resident Evil de argumento numa redação sobre vacinação. A professora ficou 'embasbacada'.
A professora Thais Oliveira viralizou ao mostrar um aluno que usou a Umbrella Corporation, de Resident Evil, pra argumentar numa redação sobre vacinação.
Tem coisa mais bonita do que descobrir que aquele jogo que te tirou o sono virou repertório de prova? Foi mais ou menos isso que rolou quando a professora de redação Thais Oliveira abriu o texto de um aluno e deu de cara com a Umbrella Corporation no meio de uma argumentação sobre vacina. Resident Evil na redação, gente. E o melhor: funcionou.
O tema era a obrigatoriedade da vacinação no Brasil, daqueles clássicos que caem em vestibular e no ENEM e que normalmente rendem parágrafos sobre sarampo, Zé Gotinha e movimento antivacina. O aluno foi por outro caminho. Pegou a franquia da Capcom e usou a Umbrella, a corporação fictícia que cria e esconde o vírus dos jogos, como exemplo de negligência: a empresa sabia da ameaça, não avisou ninguém e não entregou antídoto nenhum. O paralelo com responsabilidade sanitária no mundo real estava ali, redondo.
Thais não segurou a empolgação e foi pras redes. “Quando esse povo quer, eles são geniais”, escreveu, segundo o IGN Brasil. E emendou a frase que acabou virando manchete em meio mundo: “Estou embasbacada, incrédula, com a negligência estatal de Resident Evil”.
A Umbrella Corporation como prova de negligência
Pra quem nunca pegou um controle pra fugir de zumbi: Resident Evil é uma série de terror da Capcom que existe desde 1996 e já virou filme, série e até meme. O fio condutor é a Umbrella, uma gigante farmacêutica que, por trás da fachada de remédios, fabrica armas biológicas. O tal vírus vaza, transforma gente em zumbi, e a cidade fictícia de Raccoon City vira um inferno. Pra abafar o escândalo, o governo simplesmente apaga a cidade do mapa com um míssil. Negligência corporativa e estatal de mãos dadas. Dá pra ver na hora de onde o aluno tirou o argumento.
E tem uma ironia gostosa aqui: Resident Evil literalmente gira em torno de vacina e antídoto. Em Resident Evil 3, boa parte do desfecho é uma corrida pra sintetizar uma vacina e salvar a Jill Valentine, infectada pelo vírus antes de virar uma das criaturas. A franquia inteira é uma aula involuntária sobre o que acontece quando ciência, lucro e omissão se misturam. Se o tema pede vacinação, sinceramente, poucos exemplos da cultura pop encaixam tão bem.
Videogame ainda é o último da fila do repertório
E é aqui que eu fico do lado do moleque. Faz tempo que professor de cursinho ensina que repertório sociocultural, aquele conjunto de referências externas que a banca valoriza na redação, não precisa ser só um filósofo alemão ou um dado da OMS. Filme, série, música, jogo: tudo entra, desde que se conecte com o tema e sustente o argumento. O problema é que videogame ainda é o último da fila dessa lista, tratado como coisa de criança ou perda de tempo.
Ver uma professora chamar de “genial” o uso de Resident Evil parece pequeno, mas é simbólico. É o jogo saindo do quarto e entrando na folha de redação de cabeça erguida. Cresci ouvindo que game não ensinava nada, e olha só: uma geração inteira aprendeu sobre ética científica, ganância corporativa e colapso institucional fugindo de zumbi, e agora está usando isso numa prova que decide universidade.
E nem para no Resident Evil. Quem jogou The Last of Us viu um país inteiro ruir por causa de um fungo que ninguém conteve a tempo, com governo militarizando cidade e escondendo morte. Plague Inc., aquele joguinho de celular em que você controla um vírus tentando dizimar a humanidade, voltou a bombar na pandemia de tão parecido com o que estava rolando lá fora. Repertório sobre saúde pública não falta dentro de jogo, falta gente com coragem de botar no papel. O aluno da Thais só foi um dos primeiros a sacar isso na hora certa.
Vale lembrar que o tema não saiu do nada. O Brasil viveu anos de briga em torno da obrigatoriedade da vacina, com o movimento antivacina ganhando força bem no meio da pandemia e a desinformação correndo solta nos grupos de família. Trazer a omissão da Umbrella pra esse debate não é só piadinha de fã: é apontar, por um caminho torto, o estrago que a falta de informação causa quando uma doença está em jogo.
Resident Evil já mora no imaginário brasileiro
Não é a primeira vez que a franquia pula da telinha pra vida real por aqui. Em março, a internet brasileira receitou Green Herb pro pescoço do Trump, a ervinha verde que cura qualquer coisa nos jogos, num meme que tomou conta do Twitter. Resident Evil tem um lugar afetivo forte no Brasil, e talvez por isso a brincadeira do aluno tenha pegado tão rápido: todo mundo reconhece a Umbrella, mesmo quem nunca zerou um jogo.
O timing também ajuda. A Capcom está prestes a lançar Resident Evil Requiem, o novo capítulo da série, então a franquia já anda na boca do povo. Quando um universo está em alta, ele vaza pra todo lado, inclusive pra prova de português.
Antes que alguém saia copiando, um aviso: usar jogo em redação não é passe livre. O que fez o texto desse aluno funcionar não foi citar Resident Evil, foi amarrar a Umbrella à ideia de negligência sanitária e voltar pro tema. Repertório solto, jogado no parágrafo só pra parecer descolado, derruba nota em vez de subir. O segredo é o de sempre: o exemplo serve ao argumento, nunca o contrário.
No fim, o que me deixa boba não é a nota que ele tirou, que a gente nem sabe qual foi. É a cena de uma professora lendo uma redação e ficando genuinamente impressionada com a cabeça de um adolescente que olhou pra um jogo de zumbi e enxergou um debate sobre saúde pública. A Umbrella que se cuide. Esse povo, quando quer, é genial mesmo.
Marina Costa
Entusiasta de tech e indie games
Especialista em games indie e multiplayer. Jogadora e analista de mecânicas de jogo.
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