A BBC censurou 'free Palestine' no BAFTA mas transmitiu um insulto racial ao vivo. Ninguém foi demitido.

A BBC cortou o "free Palestine" do discurso de Akinola Davies Jr. no BAFTA, mas transmitiu um insulto racial sem editar. A desculpa oficial é o tempo.

Felipe Ouder
Felipe Ouder Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
24 de fevereiro de 2026 5 min
Akinola Davies Jr. no palco do BAFTA 2026 após receber o prêmio de melhor estreia britânica por A Sombra do Meu Pai
!!

O BAFTA 2026 deveria ser lembrado por Uma Batalha Após a Outra, o filme de Paul Thomas Anderson que levou seis prêmios incluindo melhor filme e direção. Ou por Pecadores, de Ryan Coogler, que fez história ao tornar seu diretor negro o primeiro a vencer roteiro original na cerimônia. Ou por Robert Aramayo, que tirou o prêmio de melhor ator de Timothée Chalamet e Leonardo DiCaprio. Deveria ser sobre cinema. Vai ser sobre a BBC.

O que aconteceu é simples o suficiente pra caber numa frase: a emissora cortou “free Palestine” do discurso de um vencedor, mas transmitiu um insulto racial sem editar. E a explicação oficial é que foi por questão de tempo.

O discurso

Akinola Davies Jr. e seu irmão Wale Davies subiram ao palco para receber o prêmio de melhor estreia britânica por A Sombra do Meu Pai (My Father’s Shadow) - um drama sobre uma reunião familiar durante a eleição nigeriana de 1993 que estreou no Un Certain Regard de Cannes 2025 e se tornou o primeiro filme nigeriano selecionado para a seção oficial do festival. Davies Jr. usava pins das bandeiras da Palestina e da República Democrática do Congo no terno.

No final do discurso, ele disse: “Para a Nigéria, para Londres, Congo, Sudão, free Palestine.” A plateia aplaudiu.

A cerimônia ao vivo durou três horas. A BBC transmitiu uma versão editada de duas horas no BBC One. Na versão que foi ao ar, a frase final do discurso de Davies Jr. simplesmente não existe.

O insulto

Na mesma transmissão editada - a que a BBC teve duas horas pra revisar antes de exibir - um insulto racial pesadíssimo foi ao ar sem corte. Aconteceu quando Michael B. Jordan e Delroy Lindo apresentavam o prêmio de melhores efeitos visuais. John Davidson, ativista pela síndrome de Tourette que estava na plateia, gritou o N-word - o insulto racial mais grave da língua inglesa, equivalente a chamar alguém de “preto” no sentido mais violento e desumanizante possível. O apresentador Alan Cumming já havia explicado no início da cerimônia que Davidson estava presente e que seus tiques vocais eram involuntários.

A BBC pediu desculpas pelo insulto racial. Disse que os produtores estavam “trabalhando num caminhão” e não ouviram. Depois editou o trecho para a versão do iPlayer.

Sobre o “free Palestine”, a desculpa foi diferente: “O evento ao vivo dura três horas e precisa ser reduzido para duas horas. O mesmo aconteceu com outros discursos da noite e todas as edições foram feitas para garantir que o programa fosse entregue no tempo.”

O que a BBC não disse

Internamente, a história é outra. Um funcionário da BBC revelou ao Deadline que a diretriz era clara: “They can’t have another Glastonbury” - “não podem ter outro Glastonbury”. A referência é ao verão passado, quando a banda punk Bob Vylan gritou “Death, death to the IDF” no festival e a BBC enfrentou semanas de pressão política.

Então a equação fica assim: uma declaração política deliberada de um cineasta premiado foi cortada por decisão editorial consciente. Um insulto racial numa cerimônia que a BBC teve horas para editar passou porque ninguém ouviu. A emissora teve tempo e recursos para encontrar e remover duas palavras - “free Palestine” - mas não conseguiu identificar uma das palavras mais ofensivas da língua inglesa sendo gritada no meio de uma apresentação.

Paul Thomas Anderson no palco do BAFTA 2026 após vencer o prêmio de melhor direção por Uma Batalha Após a Outra

O que ficou de fora da conversa

Ninguém está falando dos filmes. E isso é o mais triste. Uma Batalha Após a Outra é o tipo de obra que Paul Thomas Anderson entrega quando está no auge - e seis BAFTAs confirmam isso. Pecadores, de Ryan Coogler, fez algo que o cinema anglófono levou décadas pra permitir: um diretor negro vencendo roteiro original no BAFTA, com Wunmi Mosaku levando atriz coadjuvante e Ludwig Göransson a trilha original. Hamnet, de Chloé Zhao, ganhou melhor filme britânico e deu a Jessie Buckley o prêmio de melhor atriz. Já falamos aqui sobre como Hamnet prova que o cinema de substância ainda tem público.

E A Sombra do Meu Pai, o filme que deveria estar no centro da celebração, virou nota de rodapé no próprio prêmio que ganhou.

Davies Jr. disse à Variety que falar sobre Palestina era inevitável: “Era importante pra mim dizer aquilo numa sala cheia de artistas.” Ele não gritou. Não interrompeu ninguém. Ganhou um prêmio, agradeceu, e no final mencionou os lugares que considera importantes. A BBC decidiu que esse era o trecho dispensável.

A temporada de premiações e a política

Não é a primeira vez nesta temporada de premiações que a política invade o palco. O Oscar 2026 já sinalizou que blockbusters não são mais prioridade - Pecadores lidera com 16 indicações enquanto Wicked não recebeu nenhuma. A indústria está mudando, mas as emissoras que transmitem as cerimônias continuam tentando manter a ilusão de que premiações são eventos apolíticos. São cerimônias onde artistas reconhecem artistas. E artistas, historicamente, não ficam quietos.

A BBC vai sobreviver a isso. Sempre sobrevive. Mas o BAFTA 2026 - que deveria ser lembrado pelo domínio de Anderson, pela conquista histórica de Coogler, pela estreia brilhante de Davies Jr. - vai ser lembrado pelo que a BBC escolheu cortar e pelo que escolheu deixar passar. E essa é a única edição que ninguém vai conseguir desfazer.

Felipe Ouder
AUTOR

Felipe Ouder

Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.

100% FREE * SEM SPAM

FICA POR
DENTRO

Todo domingo, um drop com o que você precisa saber sobre cultura pop e tech. Rápido, curado, sem spam.