A Casa Branca clonou Tetris, Snake e Flappy Bird num arcade sobre deportação. A Tetris Company respondeu que leva infração de copyright muito a sério
O arcade da Casa Branca subiu com cinco clones de clássicos. A Tetris Company, dona do precedente mais citado sobre clones, disse que está avaliando.
A Casa Branca subiu um fliperama no ar na quinta-feira (3). O arcade da Casa Branca fica em whitehouse.gov/arcade, abre em qualquer navegador, roda de graça e sem login, e é uma fila de clones: Tetris, Snake, Flappy Bird e Tapper, cada um com a arte trocada por uma pauta do governo Trump. São cinco jogos no ar e um sexto slot marcado como “Coming soon” que continua vazio.
O que puxou a treta foi Build the Wall. É Tetris. A peça cai, você encaixa, só que as peças são pedaços de muro e a instrução na tela manda “proteger a fronteira da horda que se aproxima”. A horda são zumbis.
Os outros quatro seguem a mesma receita de reskin, que é pegar um jogo conhecido e trocar a arte por cima sem mexer na mecânica:
- Rio Run: o jogo da cobrinha, Snake. Você percorre a região do Rio Grande recolhendo pessoas que tentam atravessar e vestindo cada uma com macacão laranja de presidiário. O placar no alto da tela se chama DEPORTED.
- Supply Line: versão enxuta de Tapper, com comida passando na esteira e você rejeitando o que não bate com o padrão do programa Make America Healthy Again.
- Flappy Bill: Flappy Bird com uma águia careca carregando um projeto de lei pela Esplanada de Washington.
- Trump Savings Tycoon: você junta dinheiro caindo do céu para as Trump Accounts, o plano do governo que deposita US$ 1.000 para cada criança nascida no mandato atual.
Build the Wall tem um detalhe que qualquer pessoa que jogou Tetris na vida percebe em trinta segundos: completar uma linha não limpa nada. O muro só cresce, empilha até o topo e você perde do mesmo jeito. O Kotaku, que chamou o conjunto de porcaria pela metade, escreveu que os cinco parecem inteiramente vibe-coded, gíria pra prática de descrever o que você quer para um modelo de IA, pegar o código que sai e publicar sem revisar.
A Tetris Company respondeu no Instagram e parou por aí
A dona da marca postou na quinta. “Na Tetris, a gente acredita no poder da conexão e de aproximar as pessoas, não de dividi-las”, diz o post. Na descrição, dois adendos secos: “A Tetris Company não participou da criação de Build the Wall” e “Levamos infração de copyright muito a sério”.
Ao Engadget, a empresa repetiu o recado e foi um pouco mais longe. Disse que há mais de 40 anos o Tetris aproxima pessoas de gerações e culturas diferentes, que não autorizou nem licenciou a marca ou a propriedade intelectual do jogo para o material da Casa Branca, e completou: “Estamos avaliando o caso”.
Os direitos são divididos entre Alexey Pajitnov, que criou o jogo em 1984, e o empresário Henk Rogers, através da holding The Tetris Company. A caixa de comentários do post virou petição. O pedido que mais se repete é um só: processa.
Em 2012 a Tetris levou um clone à Justiça e ganhou
E ela sabe exatamente como esse tipo de processo termina, porque já moveu um.
Em 2009 a Xio Interactive lançou Mino, um Tetris de celular. A Tetris Holding mandou notificação de remoção pela DMCA, a lei americana que obriga plataformas a tirar do ar conteúdo apontado como cópia, e a Apple derrubou o jogo da App Store. O processo entrou em dezembro daquele ano.
Em maio de 2012 a juíza federal Freda Wolfson decidiu a favor da Tetris. A Xio tinha admitido que copiou. A defesa dela era que regra de jogo não se protege por copyright, o que é verdade: ninguém é dono da ideia de empilhar peça. A juíza aplicou o teste de abstração, filtragem e comparação, separou a ideia da forma, e concluiu que o desenho das peças, o esquema de cores e o conjunto visual estavam copiados. A decisão firmou que o look and feel de um jogo, a aparência e a sensação de jogar, tem proteção legal nos Estados Unidos.
A Tetris Company carrega no próprio nome o precedente americano mais citado quando o assunto é clone de videogame. A resposta que ela deu na quinta foi “estamos avaliando o caso”.
A régua muda quando o réu é o governo
Semana passada a Activision entregou notificação judicial na porta de um vendedor de cheat e filmou tudo para postar depois. A indústria tem reflexo rápido, orçamento jurídico e apetite para brigar quando o alvo é um cara com um site. Um governo colando o teu jogo inteiro numa página oficial vira “estamos avaliando”. Todo mundo entende por que, e é exatamente esse o problema.
A Casa Branca já tinha testado o terreno em março, quando postou o “wasted” de GTA San Andreas em cima de imagens de bombardeios reais no Irã e Ben Stiller precisou exigir publicamente a remoção de um trecho de Tropic Thunder. De lá pra cá o padrão se repetiu com outras empresas, e até agora nenhuma processou.
Do lado de quem aparece nos joguinhos, a leitura é outra. Amerika Garcia Grewal, codiretora da Frontera Federation em Eagle Pass, no Texas, disse que os jogos a deixaram enjoada e que quem desenhou aquilo “perdeu contato com o que significa ser humano e cuidar dos outros”. Adriana Jasso, coordenadora de programa na AMIGOS San Diego Community, falou em falta de seriedade num momento em que pessoas morrem em centros de detenção: “Isso apresenta a questão como se fosse um jogo, quando na verdade não é”.
A Casa Branca, procurada pela imprensa americana, respondeu que está “totalmente focada em formas de inovar e contar a história das muitas realizações do presidente de um jeito que ressoe com todo americano”, e descreveu o arcade como um contraste entre “uma cultura de diversão e vitória” e a visão que atribui aos democratas. Kaelan Dorr, assistente adjunto do presidente e chefe da estratégia digital, resumiu a coisa numa frase melhor que qualquer crítica: “política com a qual você pode interagir”.
Dá pra abrir tudo daqui do Brasil, de graça, em qualquer celular, e a coisa se desfaz sozinha em dois minutos de jogo. Em Build the Wall o muro que você levanta é o que te derruba, e Flappy Bill é o Flappy Bird sem o timing que fez o Flappy Bird funcionar. O que sobra é a única parte que ninguém clonou de lugar nenhum: a ideia de transformar deportação em fase.
O sexto card do arcade está lá desde quinta com um ponto de interrogação no lugar da tela e duas linhas de texto: “uma nova aventura aguarda”, “fique ligado”.
Carla Mendes
Cobrindo esports desde 2018
Cobrindo cenário competitivo de esports desde 2018. Acompanha torneios e equipes profissionais.
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