Coppola domou Marlon Brando duas vezes. O pior ator da carreira dele, segundo ele mesmo, é outro
No documentário Megadoc, Coppola diz a Shia LaBeouf que ele foi o pior ator da sua vida. Vindo de quem dirigiu Marlon Brando duas vezes, é uma sentença pesada.
Pra entender o tamanho do que Francis Ford Coppola disse, você precisa lembrar de quem ele já dirigiu.
Esse é o homem que botou Marlon Brando na frente da câmera duas vezes, em O Poderoso Chefão e em Apocalypse Now, e saiu vivo das duas.
Brando é o caso clássico do ator genial e impossível: chegou ao set de Apocalypse Now pesando muito mais do que o papel pedia, sem ter lido o livro que inspirava o personagem, recusando-se a decorar falas. O diretor de fotografia Vittorio Storaro teve que filmá-lo quase todo na penumbra, escondendo o corpo na sombra, pra transformar o problema em estética. Coppola sobreviveu a isso. E ainda fez história.
É por isso que a briga entre Coppola e Shia LaBeouf que aparece no documentário Megadoc tem o peso que tem. Porque o veredito do velho mestre não é leve: de todos os atores que passaram pela frente dele em mais de cinquenta anos de carreira, o pior foi LaBeouf.
A frase que ficou registrada na câmera
Megadoc é o documentário que Mike Figgis, o diretor de Despedida em Las Vegas, montou acompanhando os bastidores de Megalópolis, aquele projeto faraônico que Coppola bancou do próprio bolso. E o filme não poupa ninguém. Numa das cenas, já perto do fim das filmagens, Coppola se vira pra LaBeouf e dispara: “Você foi o maior pé no saco de qualquer ator com quem eu já trabalhei na vida”.
LaBeouf, que nunca foi de abaixar a cabeça, devolve na hora puxando justamente o fantasma de Brando: “Eu apareci com trezentos quilos acima do peso no meio da selva? Eu abandonei a produção dez dias antes de terminar?”. A resposta é boa porque é precisa. LaBeouf sabe exatamente contra qual lenda ele está sendo medido, e recusa a comparação apontando que pelo menos ele entregou o trabalho até o fim.
O mais interessante é que Coppola não está dizendo que LaBeouf é ruim de atuar. Pelo contrário. Na mesma conversa ele admite: “Ele me deixou louco, mas a atuação dele é ótima”. O problema nunca foi o talento, mas o processo, o atrito diário, a sensação de que não dava pra raciocinar com o sujeito. Coppola, que trabalha de forma improvisada e gosta de mexer no roteiro durante a filmagem, esbarrou num ator que puxava pro outro lado o tempo todo. Depois da explosão, o diretor mandou um e-mail se desculpando, botando a culpa no estresse da produção.
O papel que ninguém entendeu, no filme que ninguém entendeu
Em Megalópolis, LaBeouf vive Clodio Pulcher, o primo invejoso de Cesar Catilina, o arquiteto visionário interpretado por Adam Driver. É uma atuação propositalmente exagerada, de fala arrastada e artificial, o tipo de escolha que divide qualquer plateia. Cabe num filme que já era, ele inteiro, uma divisão de plateia.

Vale lembrar o que foi Megalópolis pra quem não acompanhou a novela. Coppola passou décadas sonhando com esse projeto e acabou financiando os 120 milhões de dólares de produção sozinho, vendendo parte do seu império de vinhos pra bancar a fábula. Estreou em Cannes em 2024 no meio de uma recepção rachada, chegou aos cinemas e deixou o público perplexo, e ainda rendeu ao diretor um Framboesa de Ouro de pior direção, o anti-Oscar que premia os piores do ano.
E aqui vai minha aposta: o Megadoc pode ser uma obra mais redonda do que o próprio Megalópolis. Documentário de bastidor costuma ser isso quando o filme principal dá errado. O caos é mais honesto que o resultado. Ver Coppola brigando, duvidando, improvisando e bancando o próprio fracasso com a teimosia de um velho que não tem mais nada a provar é, talvez, mais comovente do que qualquer cena da ficção que ele estava tentando montar. Não por acaso, o documentário saiu de Veneza com críticas melhores que as do longa que ele documenta.
Diretor que humilha ator não é novidade, mas esse caso é diferente
A relação entre diretor e ator sempre teve sua dose de crueldade. Não faz muito tempo escrevi por aqui sobre como Tarantino desdenhou de Matthew Lillard num podcast com três palavras, e o ator comparou o baque a assistir ao próprio velório. A diferença entre os dois episódios é reveladora. Lillard levou o golpe calado, anos depois, sem direito a resposta. LaBeouf reagiu na cara do diretor, na hora, com a câmera ligada.
Isso muda a natureza da coisa. Não é um mestre esmagando um subalterno. São dois cabeças-duras se estranhando, e a tensão é tão produtiva quanto desconfortável. Megadoc não está vendendo a fofoca de quem é o vilão. Está mostrando o que acontece quando um diretor que não aceita “não” encontra um ator que também não aceita.
Pro espectador brasileiro, fica a parte chata: Megadoc tem como casa o Criterion Channel, serviço de streaming dedicado a cinema de repertório que não opera oficialmente no Brasil, e até agora não ganhou estreia local anunciada. Ver o documentário por aqui ainda vai dar trabalho, o que é uma ironia e tanto tratando-se justamente da obra que documenta a fé cega de Coppola na ideia de que cinema importa.
Resta uma pergunta que o documentário deixa no ar sem responder. Se LaBeouf foi de fato pior que Brando, e se mesmo assim Coppola disse que a atuação dele é ótima, então o que define um ator difícil não é o resultado na tela. É o que sobra na memória do diretor quando as luzes se apagam. E Coppola, aos oitenta e tantos, decidiu deixar essa memória gravada pra sempre.
Felipe Ouder
Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.
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