Coppola domou Marlon Brando duas vezes. O pior ator da carreira dele, segundo ele mesmo, é outro

No documentário Megadoc, Coppola diz a Shia LaBeouf que ele foi o pior ator da sua vida. Vindo de quem dirigiu Marlon Brando duas vezes, é uma sentença pesada.

Felipe Ouder
Felipe Ouder Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
3 de junho de 2026 5 min
Francis Ford Coppola dirigindo no set de Megalópolis ao lado de Shia LaBeouf
!!

Pra entender o tamanho do que Francis Ford Coppola disse, você precisa lembrar de quem ele já dirigiu.

Esse é o homem que botou Marlon Brando na frente da câmera duas vezes, em O Poderoso Chefão e em Apocalypse Now, e saiu vivo das duas.

Brando é o caso clássico do ator genial e impossível: chegou ao set de Apocalypse Now pesando muito mais do que o papel pedia, sem ter lido o livro que inspirava o personagem, recusando-se a decorar falas. O diretor de fotografia Vittorio Storaro teve que filmá-lo quase todo na penumbra, escondendo o corpo na sombra, pra transformar o problema em estética. Coppola sobreviveu a isso. E ainda fez história.

É por isso que a briga entre Coppola e Shia LaBeouf que aparece no documentário Megadoc tem o peso que tem. Porque o veredito do velho mestre não é leve: de todos os atores que passaram pela frente dele em mais de cinquenta anos de carreira, o pior foi LaBeouf.

A frase que ficou registrada na câmera

Megadoc é o documentário que Mike Figgis, o diretor de Despedida em Las Vegas, montou acompanhando os bastidores de Megalópolis, aquele projeto faraônico que Coppola bancou do próprio bolso. E o filme não poupa ninguém. Numa das cenas, já perto do fim das filmagens, Coppola se vira pra LaBeouf e dispara: “Você foi o maior pé no saco de qualquer ator com quem eu já trabalhei na vida”.

LaBeouf, que nunca foi de abaixar a cabeça, devolve na hora puxando justamente o fantasma de Brando: “Eu apareci com trezentos quilos acima do peso no meio da selva? Eu abandonei a produção dez dias antes de terminar?”. A resposta é boa porque é precisa. LaBeouf sabe exatamente contra qual lenda ele está sendo medido, e recusa a comparação apontando que pelo menos ele entregou o trabalho até o fim.

O mais interessante é que Coppola não está dizendo que LaBeouf é ruim de atuar. Pelo contrário. Na mesma conversa ele admite: “Ele me deixou louco, mas a atuação dele é ótima”. O problema nunca foi o talento, mas o processo, o atrito diário, a sensação de que não dava pra raciocinar com o sujeito. Coppola, que trabalha de forma improvisada e gosta de mexer no roteiro durante a filmagem, esbarrou num ator que puxava pro outro lado o tempo todo. Depois da explosão, o diretor mandou um e-mail se desculpando, botando a culpa no estresse da produção.

O papel que ninguém entendeu, no filme que ninguém entendeu

Em Megalópolis, LaBeouf vive Clodio Pulcher, o primo invejoso de Cesar Catilina, o arquiteto visionário interpretado por Adam Driver. É uma atuação propositalmente exagerada, de fala arrastada e artificial, o tipo de escolha que divide qualquer plateia. Cabe num filme que já era, ele inteiro, uma divisão de plateia.

Shia LaBeouf como Clodio Pulcher em Megalópolis
Shia LaBeouf como Clodio Pulcher em Megalópolis

Vale lembrar o que foi Megalópolis pra quem não acompanhou a novela. Coppola passou décadas sonhando com esse projeto e acabou financiando os 120 milhões de dólares de produção sozinho, vendendo parte do seu império de vinhos pra bancar a fábula. Estreou em Cannes em 2024 no meio de uma recepção rachada, chegou aos cinemas e deixou o público perplexo, e ainda rendeu ao diretor um Framboesa de Ouro de pior direção, o anti-Oscar que premia os piores do ano.

E aqui vai minha aposta: o Megadoc pode ser uma obra mais redonda do que o próprio Megalópolis. Documentário de bastidor costuma ser isso quando o filme principal dá errado. O caos é mais honesto que o resultado. Ver Coppola brigando, duvidando, improvisando e bancando o próprio fracasso com a teimosia de um velho que não tem mais nada a provar é, talvez, mais comovente do que qualquer cena da ficção que ele estava tentando montar. Não por acaso, o documentário saiu de Veneza com críticas melhores que as do longa que ele documenta.

Diretor que humilha ator não é novidade, mas esse caso é diferente

A relação entre diretor e ator sempre teve sua dose de crueldade. Não faz muito tempo escrevi por aqui sobre como Tarantino desdenhou de Matthew Lillard num podcast com três palavras, e o ator comparou o baque a assistir ao próprio velório. A diferença entre os dois episódios é reveladora. Lillard levou o golpe calado, anos depois, sem direito a resposta. LaBeouf reagiu na cara do diretor, na hora, com a câmera ligada.

Isso muda a natureza da coisa. Não é um mestre esmagando um subalterno. São dois cabeças-duras se estranhando, e a tensão é tão produtiva quanto desconfortável. Megadoc não está vendendo a fofoca de quem é o vilão. Está mostrando o que acontece quando um diretor que não aceita “não” encontra um ator que também não aceita.

Pro espectador brasileiro, fica a parte chata: Megadoc tem como casa o Criterion Channel, serviço de streaming dedicado a cinema de repertório que não opera oficialmente no Brasil, e até agora não ganhou estreia local anunciada. Ver o documentário por aqui ainda vai dar trabalho, o que é uma ironia e tanto tratando-se justamente da obra que documenta a fé cega de Coppola na ideia de que cinema importa.

Resta uma pergunta que o documentário deixa no ar sem responder. Se LaBeouf foi de fato pior que Brando, e se mesmo assim Coppola disse que a atuação dele é ótima, então o que define um ator difícil não é o resultado na tela. É o que sobra na memória do diretor quando as luzes se apagam. E Coppola, aos oitenta e tantos, decidiu deixar essa memória gravada pra sempre.

Felipe Ouder
AUTOR

Felipe Ouder

Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.

Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.

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