18 meses preso por um nick de Skyrim: a culpa foi de um único underscore
Brandon Klayme pegou 18 meses de prisão porque a polícia confundiu dois nicks do Kik inspirados em Skyrim. A diferença entre eles era um underscore.
Um underscore. A diferença entre o homem que a polícia de Wisconsin caçava e o homem que passou 18 meses numa cela canadense era exatamente isso: um tracinho embaixo, o _ que fica do lado da tecla do zero. O suspeito real usava fus__ro_dah, com dois underscores no meio. Brandon Klayme, morador de Halifax, no Canadá, usava fus_ro_dah, com um só. Dois nomes de usuário quase idênticos, os dois inspirados em Skyrim, e a perícia digital não enxergou diferença entre eles. Aí começou a novela de um homem inocente.
Os dois nicks saem do mesmo lugar. “Fus Ro Dah” é o grito mais famoso de The Elder Scrolls V: Skyrim, aquele que joga o inimigo montanha abaixo com uma onda de força. Muita gente que passou horas no jogo já reciclou a frase como nome de usuário em algum canto da internet. O canto, nesse caso, era o Kik, um aplicativo de mensagens que ficou conhecido por deixar você conversar sem entregar número de telefone. Anonimato fácil. Bom pra adolescente escapar do olho dos pais, bom também pra quem tem coisa a esconder.
A investigação começou séria. A polícia de Wisconsin, nos Estados Unidos, rastreava um homem que trocava mensagens sexuais com uma menina de 12 anos pelo Kik. Eles tinham o username do sujeito, fus__ro_dah, dois underscores. Em algum ponto do caminho, alguém leu ou digitou com um underscore só, pediu ao Kik os dados daquela conta, e o app devolveu um e-mail e um endereço de IP. O IP é o número que identifica sua conexão quando você entra na internet, o mais perto que a rede chega de dar um “endereço” pra alguém. Esse número apontou pra casa do Klayme, do outro lado da fronteira.
Fevereiro de 2020, a polícia bate na porta dele. Revira a casa inteira. Não acha nada. Nenhuma conversa com a vítima, nenhuma imagem ilegal, nenhum vestígio ligando o Klayme ao que estava sendo investigado. A vítima nunca foi ouvida pra confirmar que era ele. E mesmo assim, em 2023, o Klayme foi condenado. Dezoito meses de prisão, mais dezoito de liberdade condicional.
Para um segundo pra dimensionar isso. Uma busca que não produziu prova nenhuma. Uma vítima que ninguém entrevistou. E um tribunal que, mesmo com esse vazio todo, decidiu que um número de IP pesava mais que a ausência completa de evidência física.
O erro só veio à tona porque os advogados do Klayme não engoliram a versão oficial. Montando o recurso, em 2026, o advogado Zeb Brown ficou preso numa pergunta simples: por que a perícia digital insistia em apontar pro cliente dele, se o cliente jurava que não tinha nada com aquilo? “A gente percebeu o problema quando estava trabalhando nos argumentos do recurso”, explicou ele, no relato do caso. “Estávamos tentando entender por que a perícia digital apontava pra ele, já que ele negava qualquer envolvimento.” Foi conferindo documento por documento, letra por letra, que o underscore faltante saltou.
Em 23 de julho, o Tribunal de Apelação da Nova Escócia derrubou todas as condenações. O painel foi seco: “O senhor Klayme é factualmente inocente das acusações. Ele nunca deveria ter sido acusado, muito menos condenado.” As autoridades hoje suspeitam que o dono do username correto, o de dois underscores, viva na Califórnia. Segue solto. No depoimento do recurso, o próprio Klayme resumiu o que aqueles anos foram: “Um erro sutil que mudou o rumo da minha vida.”
Vou falar o que mais me incomoda, e a tecnologia é a parte menos culpada da história. O Kik entregou o dado que pediram. O sistema de rastreamento de IP fez o trabalho dele. O buraco está do lado de cá, no humano que trata um punhado de caracteres numa tela como se fosse digital de dedo. Um username é uma pista fraca. Um IP, mais fraca ainda: ele cai em conexão compartilhada, muda quando o provedor quer, some atrás de uma VPN (aquele serviço que mascara de onde você acessa) e às vezes aponta pra antena de celular de um bairro inteiro. Erguer 18 meses de cadeia em cima disso, sem uma única prova física, é preguiça fantasiada de ciência.
E antes de rir do Canadá, olha pra cá. O Brasil aposta na mesma lógica, com uma tecnologia mais furada ainda, e no atacado. Reconhecimento facial. Em 2019, quando a Rede de Observatórios da Segurança começou a acompanhar as prisões feitas por câmeras que dizem “reconhecer” rostos, o levantamento deu de embrulhar o estômago: das 151 pessoas presas por essa tecnologia entre março e outubro daquele ano, em cinco estados, 90,5% eram negras. No Rio, uma mulher foi detida porque o sistema a confundiu com uma criminosa que já estava presa havia quatro anos. Ano após ano, a fatia de negros entre os presos por biometria facial fica rondando os 90%.
A mecânica é a mesma do caso Klayme. A máquina cospe um “match”, uma coincidência entre dois registros, e essa coincidência vira verdade antes de qualquer humano checar se aquilo faz o menor sentido. Lá foi um underscore lido errado. Cá é um algoritmo que erra o rosto de pessoa negra várias vezes mais que o de pessoa branca e, mesmo assim, decide quem vai pro camburão.
O mundo digital nunca foi esse lugar seguro e à prova de erro que vendem. A gente já viu um único login roubado expor o CPF e o saldo de milhões de brasileiros na Vakinha. Dado digital é frágil, é copiável, é confundível. Tratar esse tipo de coisa como prova definitiva, sem nada do mundo real pra confirmar, é entregar a decisão pra uma caixa-preta que ninguém audita.
Tem uma ironia amarga no fundo de tudo isso. No jogo, “Fus Ro Dah” é o grito que empurra o inimigo pra longe. Na vida do Brandon Klayme, o mesmo nome empurrou ele pra dentro de uma cela por um ano e meio. Enquanto isso, a Bethesda segue prometendo que um dia o Elder Scrolls 6 sai, e mais uma leva de gente vai criar um fus_ro_dah em algum app por aí, sem imaginar que um caractere a mais ou a menos pode sair caro.
Fica o conselho de quem desconfia de tecnologia por ofício: quando te disserem que “o sistema apontou”, pergunta o que mais existe além do sistema. Se a resposta for “só o sistema”, desconfia com força. Um caractere separou o Brandon Klayme da liberdade. Levaram quase seis anos pra alguém finalmente reparar.
Lucas Ferreira
Gamer desde o PS1, cético desde sempre
Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.
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