Ninguém desenhou o mangá mais vendido do Japão. E quase ninguém se importou.

Um mangá com arte 100% gerada por IA chegou ao topo das vendas na maior loja digital do Japão. 88% dos artistas japoneses veem IA como ameaça.

Marina Costa
Marina Costa Entusiasta de tech e indie games
18 de fevereiro de 2026 6 min
Capa do mangá My Dear Wife, Will You Be My Lover? gerado por IA, mostrando a personagem Mitsuki na cozinha
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O mangá mais vendido na categoria jovem adulto da Comic C’moA - a maior loja de e-books do Japão - não foi desenhado por ninguém. Nenhum mangaká passou noites em claro acertando proporções. Nenhum assistente preencheu retículas. Nenhuma mão humana tocou os painéis. A arte inteira de My Dear Wife, Will You Be My Lover? foi gerada por inteligência artificial, e o mangá chegou ao primeiro lugar do ranking em janeiro de 2026.

E a parte que mais dói: a maioria dos leitores não se importou.

O que é esse mangá

My Dear Wife, Will You Be My Lover? (妻よ、僕の恋人になってくれませんか?) conta a história de Takumi Ota, 35 anos, tentando reacender a vida sexual com a esposa Mitsuki depois que filhos e rotina transformaram o casamento num arranjo logístico. É uma comédia ecchi em quatro volumes, publicada pela Studio Zoon, subsidiária da CyberAgent, e lançada em 28 de dezembro de 2025.

O criador, que usa o nome Mamaya, não esconde o processo. A descrição oficial na loja diz: “Esta obra foi produzida usando imagens geradas por IA.” Mamaya funcionou mais como um produtor de conteúdo do que como um artista - estruturou a narrativa, definiu o ritmo, escolheu o público-alvo. A IA cuidou da parte visual.

Em poucos dias, o mangá estava no topo do ranking de vendas da Comic C’moA na categoria seinen/jovem adulto, à frente de títulos como Kingdom e From Old Country Bumpkin to Master Swordsman. Depois caiu pro segundo lugar, mas o estrago (ou o feito, dependendo de quem você pergunta) já estava feito.

Nota 3.1 de 5. E ainda assim, número um.

Aqui é onde a coisa fica estranha. O mangá tem nota 3.1 na Comic C’moA. Pra comparar, os mangás concorrentes na mesma faixa de ranking têm entre 3.8 e 4.3 estrelas. As críticas negativas são brutais: personagens que parecem copiados e colados, fundos genéricos, painéis apertados sem noção de espaço, diálogos longos demais que fazem o mangá parecer mais uma light novel. Alguns leitores acusaram a editora de usar contas falsas pra inflar a recepção.

Então como chegou ao topo? Porque o ranking da Comic C’moA mede vendas e cliques, não avaliações. E a IA faz uma coisa muito bem: thumbnails chamativas. Imagens coloridas, otimizadas pra tela de celular, que capturam o olhar no scroll. Você clica. O tema familiar (casamento em crise, tensão sexual) te carrega pelos capítulos. Antes de perceber, você consumiu o conteúdo e alimentou o algoritmo.

Um relatório chamado The Intersection of Generative AI and Seinen Manga analisou o fenômeno e chegou a uma conclusão desconfortável: o sucesso não veio da qualidade da obra. Veio da otimização pra plataforma. Mamaya não criou um bom mangá. Criou um produto perfeito pro algoritmo.

Painéis do mangá My Dear Wife mostrando a arte gerada por IA - diálogos longos e fundos genéricos são as principais críticas

88,6% dos artistas japoneses veem IA como ameaça

Uma pesquisa da Freelance League of Japan com 24.991 pessoas - não é amostra pequena - revelou que 88,6% dos criadores freelancers japoneses consideram a IA generativa uma “ameaça séria” ao seu sustento. Quase 9 em cada 10.

Kazuaki Ishibashi, editor de Mob Psycho 100, comentou o caso com um tom que oscila entre resignação e alarme: “Talvez sejam apenas os próprios criadores que se preocupam… Espero que [trabalhos criados por IA] explodam em popularidade este ano.” A frase soa como profecia e sentença ao mesmo tempo.

E não é só o mangá. Boichi, o ilustrador de Dr. Stone, saiu do X (antigo Twitter) depois que a plataforma lançou uma ferramenta de edição de imagens com IA. O motivo: medo de que seus trabalhos alimentem modelos de IA sem consentimento ou compensação. Outros artistas de mangá seguiram o movimento.

O medo não é abstrato. IA generativa é treinada com trabalho de artistas humanos. As imagens que a IA “cria” são recombinações estatísticas de milhões de obras que artistas passaram anos aperfeiçoando. Quando um mangá feito por IA vende mais que obras desenhadas por pessoas, ele está lucrando sobre um repertório que não pagou pra usar.

O público se importa?

Essa é a pergunta que ninguém quer responder: não, a maioria não se importa. As reviews positivas de My Dear Wife dizem coisas como “não achei que um mangá de IA podia ser tão divertido” e “quando alguém que entende de mangá usa IA, a leitura flui”. Pra uma fatia significativa dos leitores, mangá é entretenimento. Se entretém, funciona. Como foi feito é detalhe.

Uma parte dos usuários da Comic C’moA exigiu que mangás feitos por IA sejam separados numa categoria própria, pra não competir diretamente com obras de artistas humanos. Alguns ameaçaram boicotar a plataforma e migrar pra serviços que proíbem conteúdo gerado por IA. Mas a maioria - a maioria silenciosa que consome sem deixar review - continuou comprando.

Por que isso importa muito além do Japão

A gente já viu essa conversa acontecer em outras áreas. A polêmica dos Duffer Brothers usando ChatGPT no roteiro de Stranger Things sacudiu a comunidade de fãs, mas a série continuou no topo. A diferença é que aquele caso era sobre suspeita. Aqui não tem ambiguidade - o criador admitiu e a loja exibiu a informação.

O padrão que se forma é claro: IA gera conteúdo rápido e barato, plataformas distribuem sem distinção, algoritmos priorizam o que gera cliques, público consome sem perguntar quem fez. O artista humano fica espremido entre uma IA que produz mais rápido e uma audiência que não diferencia.

E se você acha que isso é problema só do Japão, pensa nos jogos indie. Aquele tipo de jogo onde um time de três pessoas passa dois anos desenhando cada sprite à mão, compondo cada trilha, testando cada interação. Jogos que a gente celebra justamente porque foram feitos com cuidado humano. Os indies insanos que aparecem na Steam toda semana existem porque alguém investiu tempo, talento e amor neles. Se o mercado aceitar que IA substitui isso, esses jogos perdem espaço pra quem consegue gerar conteúdo industrial por uma fração do custo.

O que o Japão não resolveu, ninguém vai resolver

O Japão é, historicamente, um dos países mais protetivos com propriedade intelectual no mundo. É o país que processa fansubs, que persegue pirataria de mangá com ferocidade, que trata autoria como algo sagrado. E mesmo lá, um mangá de IA chegou ao topo de vendas sem que nenhuma regulamentação o impedisse.

A lei japonesa de direitos autorais não cobre adequadamente obras geradas por IA. Não existe classificação obrigatória. Não existe separação de categoria. A Comic C’moA não proíbe, não sinaliza com destaque, não filtra. O mangá foi transparente sobre ser feito por IA, e isso não fez diferença nenhuma nas vendas.

Se o Japão - com toda sua reverência por mangakás, com uma indústria de mangá que movimenta bilhões de dólares por ano - não conseguiu criar barreiras, quem vai?

A nota é 3.1 de 5. O ranking é primeiro lugar. A arte não foi feita por ninguém. E o mercado disse: tudo bem.

Marina Costa
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Marina Costa

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