O Metacritic publicou uma review nota 9 de Resident Evil Requiem. Não foi escrita por um humano.
Uma review nota 9 de RE Requiem apareceu no Metacritic. O autor não existe. A foto de perfil foi gerada pelo ChatGPT. A empresa dona do site demitiu todos os jornalistas.
Uma review nota 9 de Resident Evil Requiem apareceu no Metacritic na véspera do lançamento do jogo. O autor se chamava Brian Merrygold. A foto de perfil era de um homem branco sorridente com ar profissional. O site era o Videogamer, um dos veículos mais antigos de cobertura de games na internet. Tudo parecia normal - até alguém olhar o nome do arquivo da foto. O nome era ChatGPT-Image-Oct-20-2025-11_57_34-AM.png. A review do Metacritic sobre Resident Evil Requiem não foi escrita por IA por acidente. Foi escrita por IA de propósito, com uma identidade falsa, e publicada como se fosse jornalismo.
Como descobriram
Andrés Aquino, jornalista da Gfinity, foi o primeiro a notar. Publicou uma thread no X mostrando que Brian Merrygold não existia em nenhum lugar da internet antes de aparecer no Videogamer. Sem LinkedIn, sem redes sociais, sem histórico de publicações. Só a foto gerada por IA e dezenas de textos publicados em semanas.
Merrygold não era o único. O Videogamer tinha outros “autores” fantasmas: Shooter Orson, Steven Danielson - nomes que não levam a nenhuma pessoa real. A diferença é que a review de RE Requiem foi parar no Metacritic, o agregador que milhões de pessoas usam pra decidir se um jogo vale a pena ou não. Uma nota 9 de um jornalista que não existe, num site que demitiu todos os seus jornalistas.
Quem é a Clickout Media
O Videogamer foi comprado pela Clickout Media, uma empresa britânica de SEO especializada em sites de apostas e cassinos online. Depois da aquisição, a Clickout demitiu toda a equipe editorial humana em meados de fevereiro de 2026. Os funcionários restantes têm o título de “AI Editors” - editores de IA. O slogan do site mudou de cobertura de games para “All About Video & Casino Games”. Os jornalistas demitidos foram forçados a assinar NDAs como condição pra receber a indenização.

A Clickout não parou no Videogamer. Também comprou o The Escapist - o mesmo site que perdeu toda a sua equipe editorial em 2023 quando Nick Calandra saiu e levou metade do time pra fundar a Second Wind. E o Esports Insider. O padrão é o mesmo: comprar sites com autoridade de domínio construída por anos de trabalho humano, demitir as pessoas, e usar o domínio pra publicar conteúdo gerado por máquina. O objetivo não é informar ninguém. É ranquear no Google.
O que o Metacritic fez
Marc Doyle, cofundador do Metacritic, confirmou a remoção da review e de todas as contribuições do Videogamer. “Se uma publicação é identificada como usando IA para gerar reviews, ela será removida do Metacritic”, disse Doyle. A plataforma agora exige que todas as publicações listadas tenham autores humanos verificáveis.
É a resposta certa. Mas é uma resposta reativa. A review ficou no ar tempo suficiente pra ser indexada, compartilhada e influenciar a nota agregada do jogo. Quem olhou o Metacritic antes da remoção viu um 9 de um site aparentemente legítimo. Já discutimos aqui como o sistema de reviews de games está quebrado - o problema agora é que as peças que sobravam estão sendo substituídas por fantasmas.
O contexto é pior do que parece
Enquanto a Clickout Media substitui jornalistas por geradores de texto, a indústria real de jornalismo de games está desmoronando por conta própria. A Eurogamer, um dos sites mais respeitados da Europa, demitiu toda a equipe de vídeo de quatro pessoas como parte de uma reestruturação da IGN, que é dona do site. O Outside Xbox, canal com milhões de inscritos, também foi afetado.
Dados da Press Engine mostram que o número de jornalistas de games caiu 25% em dois anos - mais de 1.200 profissionais saíram da indústria. Cat Bussell, que era senior gaming editor, e Lloyd Coombes, do The Escapist, estão entre os que perderam o emprego. E isso é só o que é público. Os NDAs da Clickout Media garantem que muitas histórias nunca serão contadas.
O resultado é um vácuo. Menos jornalistas humanos significa menos reviews humanas. Menos reviews humanas significa que agregadores como o Metacritic ficam mais vulneráveis a conteúdo fabricado. E empresas como a Clickout Media existem especificamente pra explorar esse vácuo.
O que isso significa pra quem joga no Brasil
Resident Evil Requiem chega custando R$300 no PlayStation e R$250 no Steam. É muito dinheiro. E a maioria dos jogadores brasileiros faz exatamente o que jogadores do mundo inteiro fazem antes de gastar essa quantia: abre o Metacritic, olha a nota, lê uma ou duas reviews pra confirmar.
Se essas reviews foram escritas por uma IA a mando de uma empresa de apostas que comprou o site semana passada, o sistema inteiro perde sentido. Não é paranoia - é o que aconteceu. Um jogo da Capcom, de uma franquia com décadas de história, recebeu uma nota alta fabricada por uma identidade falsa num site que não emprega mais nenhum jornalista. A mesma IA que está gerando mangás best-seller no Japão agora gera reviews que influenciam decisões de compra de milhões de pessoas.
Isso não é sobre Resident Evil Requiem ser bom ou ruim - o jogo é a continuação direta da franquia que a Capcom vem reconstruindo há anos. É sobre o fato de que você não pode mais confiar na infraestrutura que existia pra te ajudar a decidir se vale comprar.
O que fica
Brian Merrygold não existe. Nunca existiu. A foto dele foi gerada num dia de outubro de 2025, às 11h57 da manhã, por alguém que não se deu ao trabalho de renomear o arquivo. A review dele foi publicada, indexada, agregada e usada como referência de qualidade de um jogo que custa o equivalente a um dia de trabalho pra muita gente no Brasil.
O Metacritic removeu. Mas a pergunta que ninguém quer responder é quantas outras reviews como essa já passaram sem que ninguém checasse o nome do arquivo.
Lucas Ferreira
Gamer desde o PS1, cético desde sempre
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