O Metacritic publicou uma review nota 9 de Resident Evil Requiem. Não foi escrita por um humano.

Uma review nota 9 de RE Requiem apareceu no Metacritic. O autor não existe. A foto de perfil foi gerada pelo ChatGPT. A empresa dona do site demitiu todos os jornalistas.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
26 de fevereiro de 2026 5 min
Arte oficial de Resident Evil Requiem mostrando protagonistas em cenário sombrio
!!

Uma review nota 9 de Resident Evil Requiem apareceu no Metacritic na véspera do lançamento do jogo. O autor se chamava Brian Merrygold. A foto de perfil era de um homem branco sorridente com ar profissional. O site era o Videogamer, um dos veículos mais antigos de cobertura de games na internet. Tudo parecia normal - até alguém olhar o nome do arquivo da foto. O nome era ChatGPT-Image-Oct-20-2025-11_57_34-AM.png. A review do Metacritic sobre Resident Evil Requiem não foi escrita por IA por acidente. Foi escrita por IA de propósito, com uma identidade falsa, e publicada como se fosse jornalismo.

Como descobriram

Andrés Aquino, jornalista da Gfinity, foi o primeiro a notar. Publicou uma thread no X mostrando que Brian Merrygold não existia em nenhum lugar da internet antes de aparecer no Videogamer. Sem LinkedIn, sem redes sociais, sem histórico de publicações. Só a foto gerada por IA e dezenas de textos publicados em semanas.

Merrygold não era o único. O Videogamer tinha outros “autores” fantasmas: Shooter Orson, Steven Danielson - nomes que não levam a nenhuma pessoa real. A diferença é que a review de RE Requiem foi parar no Metacritic, o agregador que milhões de pessoas usam pra decidir se um jogo vale a pena ou não. Uma nota 9 de um jornalista que não existe, num site que demitiu todos os seus jornalistas.

Quem é a Clickout Media

O Videogamer foi comprado pela Clickout Media, uma empresa britânica de SEO especializada em sites de apostas e cassinos online. Depois da aquisição, a Clickout demitiu toda a equipe editorial humana em meados de fevereiro de 2026. Os funcionários restantes têm o título de “AI Editors” - editores de IA. O slogan do site mudou de cobertura de games para “All About Video & Casino Games”. Os jornalistas demitidos foram forçados a assinar NDAs como condição pra receber a indenização.

Foto de perfil de Brian Merrygold gerada por IA, usada no Videogamer como se fosse um jornalista real
Foto de perfil de Brian Merrygold gerada por IA, usada no Videogamer como se fosse um jornalista real

A Clickout não parou no Videogamer. Também comprou o The Escapist - o mesmo site que perdeu toda a sua equipe editorial em 2023 quando Nick Calandra saiu e levou metade do time pra fundar a Second Wind. E o Esports Insider. O padrão é o mesmo: comprar sites com autoridade de domínio construída por anos de trabalho humano, demitir as pessoas, e usar o domínio pra publicar conteúdo gerado por máquina. O objetivo não é informar ninguém. É ranquear no Google.

O que o Metacritic fez

Marc Doyle, cofundador do Metacritic, confirmou a remoção da review e de todas as contribuições do Videogamer. “Se uma publicação é identificada como usando IA para gerar reviews, ela será removida do Metacritic”, disse Doyle. A plataforma agora exige que todas as publicações listadas tenham autores humanos verificáveis.

É a resposta certa. Mas é uma resposta reativa. A review ficou no ar tempo suficiente pra ser indexada, compartilhada e influenciar a nota agregada do jogo. Quem olhou o Metacritic antes da remoção viu um 9 de um site aparentemente legítimo. Já discutimos aqui como o sistema de reviews de games está quebrado - o problema agora é que as peças que sobravam estão sendo substituídas por fantasmas.

O contexto é pior do que parece

Enquanto a Clickout Media substitui jornalistas por geradores de texto, a indústria real de jornalismo de games está desmoronando por conta própria. A Eurogamer, um dos sites mais respeitados da Europa, demitiu toda a equipe de vídeo de quatro pessoas como parte de uma reestruturação da IGN, que é dona do site. O Outside Xbox, canal com milhões de inscritos, também foi afetado.

Dados da Press Engine mostram que o número de jornalistas de games caiu 25% em dois anos - mais de 1.200 profissionais saíram da indústria. Cat Bussell, que era senior gaming editor, e Lloyd Coombes, do The Escapist, estão entre os que perderam o emprego. E isso é só o que é público. Os NDAs da Clickout Media garantem que muitas histórias nunca serão contadas.

O resultado é um vácuo. Menos jornalistas humanos significa menos reviews humanas. Menos reviews humanas significa que agregadores como o Metacritic ficam mais vulneráveis a conteúdo fabricado. E empresas como a Clickout Media existem especificamente pra explorar esse vácuo.

O que isso significa pra quem joga no Brasil

Resident Evil Requiem chega custando R$300 no PlayStation e R$250 no Steam. É muito dinheiro. E a maioria dos jogadores brasileiros faz exatamente o que jogadores do mundo inteiro fazem antes de gastar essa quantia: abre o Metacritic, olha a nota, lê uma ou duas reviews pra confirmar.

Se essas reviews foram escritas por uma IA a mando de uma empresa de apostas que comprou o site semana passada, o sistema inteiro perde sentido. Não é paranoia - é o que aconteceu. Um jogo da Capcom, de uma franquia com décadas de história, recebeu uma nota alta fabricada por uma identidade falsa num site que não emprega mais nenhum jornalista. A mesma IA que está gerando mangás best-seller no Japão agora gera reviews que influenciam decisões de compra de milhões de pessoas.

Isso não é sobre Resident Evil Requiem ser bom ou ruim - o jogo é a continuação direta da franquia que a Capcom vem reconstruindo há anos. É sobre o fato de que você não pode mais confiar na infraestrutura que existia pra te ajudar a decidir se vale comprar.

O que fica

Brian Merrygold não existe. Nunca existiu. A foto dele foi gerada num dia de outubro de 2025, às 11h57 da manhã, por alguém que não se deu ao trabalho de renomear o arquivo. A review dele foi publicada, indexada, agregada e usada como referência de qualidade de um jogo que custa o equivalente a um dia de trabalho pra muita gente no Brasil.

O Metacritic removeu. Mas a pergunta que ninguém quer responder é quantas outras reviews como essa já passaram sem que ninguém checasse o nome do arquivo.

Lucas Ferreira
AUTOR

Lucas Ferreira

Gamer desde o PS1, cético desde sempre

Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.

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