Os desenvolvedores do MindsEye estão processando o estúdio por instalar software que gravava eles em casa sem consentimento
Quarenta funcionários do estúdio fundado pelo ex-presidente da Rockstar North processaram a empresa. A alegação é que um software espião foi instalado sem aviso e gravava o microfone e o teclado dos funcionários.
Quarenta pessoas que fazem videogame pra viver acabaram de descobrir que, durante meses, o microfone do notebook corporativo delas esteve gravando o que acontecia dentro das próprias casas.
A descoberta veio porque a máquina começou a rodar mais lenta que o normal. Alguém investigou. Encontrou o Teramind, software comercial de vigilância que fora instalado sem aviso pela gestão da empresa. E no dia 21 de abril, o sindicato britânico IWGB abriu processo contra o estúdio que as emprega, o Build a Rocket Boy, fundado pelo Leslie Benzies, ex-presidente da Rockstar North.
O estúdio lançou em 10 de junho de 2025 o jogo MindsEye, um dos flops mais comentados do ano, com nota 28 no Metacritic e 8% de aprovação no OpenCritic. Enquanto o mercado ainda discutia por que o MindsEye falhou, o IWGB deu entrada num processo que transforma o estúdio no próximo capítulo de uma discussão que a indústria de games prefere não ter.
O que o Teramind faz
O Teramind é um software comercial vendido a empresas sob o argumento de “aumento de produtividade”. A lista oficial do que ele faz inclui rastrear digitação, gravar atividade de tela em vídeo, capturar áudio de microfone, monitorar uso de aplicativos, rastrear email, rastrear browser e gerar relatório automatizado com análise de sentimento do funcionário.
Em qualquer ambiente normal essa lista seria rejeitada. Numa empresa de software, especialmente uma em que boa parte do quadro trabalha de casa desde a pandemia, a lista é juridicamente indefensável em múltiplos países europeus. O GDPR, regulamento geral de proteção de dados da União Europeia, exige consentimento informado e explícito para coleta de dados biométricos. Áudio de microfone é dado biométrico. Não dá pra argumentar que é implícito no contrato de trabalho.
O que a IWGB alega
A denúncia oficial do sindicato britânico, publicada em 21 de abril, diz que o software foi instalado sem aviso e que os funcionários descobriram a existência dele porque os computadores começaram a rodar mais lentos que o normal. A frase do IWGB merece ser lida em voz alta: “O software viola tanto as leis de proteção de dados quanto a dignidade básica da força de trabalho, excedendo o escopo legítimo de monitoramento de produtividade ao gravar indivíduos dentro de suas casas sem consentimento.”
“Dentro de suas casas” é o detalhe que move o caso pro outro lado da linha. Um funcionário pode ter baixa expectativa de privacidade enquanto usa equipamento da empresa no escritório. A partir do momento em que o software roda num notebook que tá na sala de estar da pessoa, captando áudio ambiente, o cálculo jurídico muda completamente. A família do funcionário entra no cálculo. As conversas privadas entram. Crianças entram.
O Build a Rocket Boy teve mais de 300 demissões antes desse escândalo
O Leslie Benzies saiu da Rockstar em janeiro de 2016 e, em abril do mesmo ano, entrou com processo contra a Rockstar Games e a Take-Two pedindo 150 milhões de dólares em royalties não pagos. O caso terminou em acordo confidencial em fevereiro de 2019.
Em outubro de 2018, Benzies fundou o Build a Rocket Boy com outros dois ex-Rockstar North, Matthew Smith e Colin Entwistle. O estúdio captou cerca de 32 milhões de libras de investidores na China e em Nova York. O jogo-meta era o MindsEye, anunciado como ambicioso, open-world, integrado a uma plataforma de conteúdo criado por usuários. Estreou em junho de 2025 publicado pela IO Interactive Partners, com recepção crítica ruim e vendas muito abaixo da expectativa. Em março de 2026, a IO cortou a parceria e devolveu os direitos de publicação para a BARB.
Até julho de 2025, cerca de 300 funcionários tinham recebido aviso de demissão. Em março de 2026, uma reunião interna vazada revelou que o co-CEO Mark Gerhard tinha anunciado pro quadro que o Teramind foi instalado, com naturalidade de quem comunica uma atualização de política de bebedouro. Quarenta funcionários assinaram uma reclamação coletiva naquela semana. O software foi desinstalado. A empresa se recusou a explicar o que tinha sido gravado, por quanto tempo, onde ficou armazenado, quem teve acesso, ou por que foi instalado.
Em 12 de abril de 2026, um conjunto separado de funcionários entrou com ação judicial sobre irregularidade nas demissões de 2025. E no dia 21 de abril, o IWGB anunciou o processo específico sobre o software. Dois processos simultâneos contra a mesma empresa no mesmo mês.
O que a indústria de games não quer discutir
A indústria de jogos é uma das indústrias criativas com maior concentração de denúncias de assédio moral, burnout, crunch obrigatório, demissões em massa e políticas de vigilância invasiva que já transformamos em arquitetura de Estado em outros contextos. O Build a Rocket Boy não é anomalia. É sintoma.
A Ubisoft entrou em choque com o sindicato francês STJV em 2024 e 2025 por causa de política de retorno ao escritório. A Activision Blizzard tá em litígio com o estado da Califórnia por discriminação sistêmica desde 2021. A Unity cortou 1.800 postos, 25% do quadro, em janeiro de 2024. Em maio de 2024, a Microsoft fechou o Tango Gameworks e o Arkane Austin, estúdios que vieram do pacote ZeniMax comprado em 2021. A Epic Games chegou a demitir um funcionário em tratamento de câncer terminal no mesmo ciclo. A Embracer Group cortou mais de sete mil postos entre 2023 e 2024, fechou 44 estúdios e cancelou 80 projetos em desenvolvimento.
A diferença do caso BARB é que expôs, em texto jurídico, a ferramenta específica de disciplina que o resto da indústria provavelmente usa sem anunciar. O Teramind vende pra milhares de empresas em dezenas de países. Essa lista inclui estúdios de games que não foram processados porque o quadro ainda não se organizou o suficiente pra processar.
O que deveria estar em discussão mas não tá
A parte que a imprensa de videogame tá cobrindo são as consequências pro Build a Rocket Boy especificamente. Vai pagar multa. Leslie Benzies vai ser removido. O estúdio fecha.
A parte que a imprensa de videogame não tá cobrindo é a seguinte: quantos outros estúdios de games rodam Teramind ou software similar agora mesmo, sem consentimento, sem comunicação, monitorando trabalhador remoto em equipamento corporativo que vive na casa dele. A resposta provável é mais do que a gente gostaria de saber. O caso BARB só é notícia porque o sindicato existe, porque os funcionários souberam se organizar, e porque o sistema rodou devagar o suficiente pra alguém desconfiar.
Em estúdios sem sindicato, sem IWGB, sem alerta técnico, o Teramind continua rodando. Gravando microfone. Registrando keystroke. Capturando a cozinha da pessoa que tá escrevendo código pro próximo jogo AAA.
O processo contra o Build a Rocket Boy, se for adiante, vai ser o primeiro caso no mundo a estabelecer jurisprudência sobre vigilância total de trabalhadores remotos em indústria criativa. Por isso é importante. Por isso precisa ser acompanhado.
Marina Costa
Entusiasta de tech e indie games
Especialista em games indie e multiplayer. Jogadora e analista de mecânicas de jogo.
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