Hollywood ignorou esse público por décadas. Ele acabou de faturar US$94 milhões num fim de semana.
O Morro dos Ventos Uivantes de Emerald Fennell fez US$94 milhões com 76% de público feminino. A Netflix ofereceu US$150 milhões e a diretora recusou.
A bilheteria de O Morro dos Ventos Uivantes acabou de provar uma coisa que qualquer pessoa com bom senso já sabia: mulheres vão ao cinema. Vão em massa. E quando Hollywood faz algo pra elas, o dinheiro aparece.
O filme de Emerald Fennell com Margot Robbie e Jacob Elordi abriu com US$83 milhões no fim de semana global de estreia e já acumula US$94,4 milhões em menos de uma semana. 76% do público é feminino. Num mercado que gasta bilhões em franquias de super-herói mirando homens de 18 a 34 anos, um romance R-rated baseado num livro de 1847 destruiu a competição.
Os números que ninguém previa
As projeções do mercado antes da estreia colocavam O Morro dos Ventos Uivantes entre US$70 e US$80 milhões globais no fim de semana de Dia dos Namorados americano. O filme entregou US$83 milhões em três dias e US$88,5 milhões contando a segunda-feira de feriado do Presidents’ Day.
Nos Estados Unidos e Canadá, a abertura foi de US$37,5 milhões em 3.682 salas. Internacionalmente, mais US$45,5 milhões em 76 territórios. Em menos de uma semana, o filme já passou de US$94 milhões globais.
O orçamento de produção foi de US$80 milhões, sem contar marketing. Ou seja: O Morro dos Ventos Uivantes praticamente recuperou todo o custo de produção só no fim de semana de estreia. Pra um filme que não é sequência, não tem universo compartilhado e não é baseado em IP de super-herói, esse número é absurdo.
E o dado que faz tudo fazer sentido: 76% do público é feminino. O público que Hollywood trata como “nicho” encheu as salas num fim de semana que tinha GOAT da Sony e Crime 101 da Amazon competindo pela atenção.
A Netflix queria esconder no streaming
Antes de fechar com a Warner Bros., Emerald Fennell recebeu uma proposta da Netflix de aproximadamente US$150 milhões pelo filme. Cento e cinquenta milhões pra botar direto no streaming, sem estreia nos cinemas.
Fennell recusou. Escolheu a Warner Bros. porque queria estreia em sala de cinema. Queria a experiência do telão. E os números provaram que ela estava certa. Se O Morro dos Ventos Uivantes tivesse ido pra Netflix, teria virado mais um filme no catálogo infinito, perdido entre reality shows e séries de true crime. No cinema, virou o filme do momento.
A estratégia de lançamento no Valentine’s Day foi cirúrgica. O Morro dos Ventos Uivantes era, como disse a própria Warner Bros., “o único filme grande pra público de date night” do fim de semana nos EUA. Enquanto GOAT mirava famílias e Crime 101 tentava fisgar o público de ação, ninguém competia diretamente pelo casal que queria sair na quinta à noite.
A decisão de Fennell foi contra tudo que executivos de Hollywood aconselham. Recusar US$150 milhões garantidos por uma aposta no cinema é o tipo de escolha que ou te transforma em lenda ou te enterra. Ela virou lenda.

Emerald Fennell não erra o alvo
A diretora que fez Bela Vingança e Saltburn sabe exatamente o que está fazendo. Seu O Morro dos Ventos Uivantes não é uma adaptação fiel do romance de Emily Brontë. É uma releitura com o DNA que transformou Saltburn em fenômeno viral - cenas que provocam, estética que gruda na retina e uma sensualidade que não pede licença.
Bela Vingança custou US$25 milhões e fez US$78 milhões globais, rendendo a Fennell o Oscar de Melhor Roteiro Original. Saltburn custou US$20 milhões e fez US$100 milhões, virando fenômeno no TikTok com a cena da banheira que todo mundo viu mesmo quem não assistiu o filme. Agora O Morro dos Ventos Uivantes custou US$80 milhões e promete passar de US$200 milhões. A cada filme, o orçamento cresce e o retorno cresce junto. Poucos diretores em Hollywood podem mostrar essa curva.
O filme abre com conteúdo explícito. A classificação é R. Os críticos ficaram divididos - 59% de aprovação no Rotten Tomatoes. Mas o público abraçou: 80% de aprovação na audiência e nota B no CinemaScore. A diferença entre a recepção crítica e a do público conta uma história que se repete: filmes feitos pra um público específico funcionam melhor quando avaliados por esse público.
As mudanças que Fennell fez no material original geraram debate intenso nas redes. Fãs do livro reclamaram. O BookTok explodiu de reações. E cada discussão se transformou em publicidade gratuita. Como um analista colocou, foi “o tipo certo de filme gerando o tipo certo de conversa que leva a interesse real”.
Crime 101 provou o contrário
No mesmo fim de semana, Crime 101 da Amazon MGM Studios estreou com US$17,7 milhões contra um orçamento de US$90 milhões. Um desastre. O filme de ação que seguia a fórmula tradicional de Hollywood - estúdio grande, orçamento gordo, foco no público masculino - levou um banho do romance R-rated que a indústria tratava como aposta arriscada.
GOAT, a animação da Sony, foi melhor com US$35 milhões no feriado de quatro dias. Mas mesmo assim ficou atrás de O Morro dos Ventos Uivantes globalmente.
O Oscar de 2026 já tinha mostrado que blockbusters estão perdendo terreno. O Morro dos Ventos Uivantes confirma de outro ângulo: o público feminino, quando tem algo feito pra ele, responde com o cartão de crédito.
O padrão que Hollywood insiste em ignorar
Barbie fez US$1,4 bilhão. É Assim que Acaba fez US$350 milhões globais. Agora O Morro dos Ventos Uivantes faz quase US$100 milhões na primeira semana. O padrão não poderia ser mais claro.
Filmes feitos com mulheres em mente não são “nicho”. São máquinas de bilheteria. O público está lá. Sempre esteve. Hollywood é que gasta décadas investindo em franquias de ação que custam US$200 milhões e torce pra dar certo, enquanto trata romance e drama feminino como categoria B.
Mulheres representaram apenas 16% dos diretores entre os 250 maiores filmes de 2024. O número caiu pra 13% em 2022. Emerald Fennell é exceção numa indústria que não facilita pra diretoras chegarem a projetos de US$80 milhões. Que ela tenha recusado US$150 milhões da Netflix pra colocar o filme nos cinemas mostra uma confiança que poucos executivos de estúdio teriam.
E Margot Robbie continua provando que sabe escolher projetos. Como produtora pela LuckyChap Entertainment, ela está construindo um currículo de filmes que entendem o público feminino melhor do que qualquer estúdio tradicional. Barbie, Eu, Tonya, Bela Vingança e agora O Morro dos Ventos Uivantes - todos filmes que Hollywood não teria feito sem alguém empurrando de dentro.
O que vem depois
Com US$94 milhões na primeira semana e pernas fortes de bilheteria, O Morro dos Ventos Uivantes caminha tranquilo pra passar de US$200 milhões globais. Emerald Fennell já é a diretora com a maior abertura pra um filme original em anos. E Margot Robbie, que também produziu o filme, adiciona mais uma vitória no currículo que já inclui Barbie.
No Brasil o filme já estreou nos cinemas e deve chegar ao HBO Max por volta de maio de 2026. Com o ingresso médio brasileiro passando de R$40, o custo de levar alguém ao cinema não é barato. Mas vale cada real - é o tipo de experiência visual que perde metade do impacto numa tela de celular.
Hamnet, outra adaptação literária, já tinha mostrado que o público está com fome de cinema que não depende de capas e poderes. O Morro dos Ventos Uivantes só reforça: a melhor estratégia de bilheteria em 2026 não é mais um super-herói de US$200 milhões. É fazer um filme bom pra um público que ninguém mais atende.
Hollywood tem duas opções: aprender ou continuar perdendo dinheiro pra quem aprendeu primeiro.
Beatriz Almeida
Cinema é entretenimento, e eu tô aqui pra diversão
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