O primeiro gadget da OpenAI se mexe sozinho, te observa por uma câmera e quer ser seu amigo
A OpenAI revelou seu primeiro gadget: uma caixa sem tela que se mexe sozinha, te observa por câmera e lê seus emails. Já vimos esse fracasso antes.
A OpenAI passou dois anos prometendo um aparelho que mudaria tudo. A Bloomberg finalmente descreveu o primeiro aparelho da OpenAI, e o resumo é esse: uma caixa de som sem tela, do tamanho de um celular, com peças mecânicas que fazem ela se mexer sozinha pra parecer viva. Tem câmera e sensores pra enxergar o ambiente, lê seus emails e sua agenda pra aprender seus hábitos, e a ideia é funcionar como um amigo. Um amigo que é um computador. Preço estimado: US$ 200 a US$ 300. Chegada às lojas: 2027, no melhor cenário. Já vi esse filme, e ele termina mal.
O que a caixa faz, segundo o vazamento
Tirando a mágica de marketing, o hardware é o seguinte:
- Sem tela. Você fala, ela responde. Microfone, alto-falante e uma câmera pra “entender” onde está.
- Ela se move. Peças internas dão movimento ao aparelho pra criar a ilusão de presença, de que tem alguém ali, em vez de um objeto parado esperando comando.
- Roda o ChatGPT. Controla luz e casa inteligente, toca música, responde pergunta, gerencia mensagem.
- Te observa pra “ajudar”. Acessa email e calendário, aprende sua rotina e promete ficar cada vez mais proativo. Ou seja, cada vez mais dentro da sua vida.
Nada disso é tecnicamente impossível. A Alexa e o Google Home já fazem metade. A aposta da OpenAI é a outra metade: personalidade.
Quem está construindo, e por que isso devia acender o alerta
O projeto é tocado com Jony Ive, o designer por trás do iPhone, através do estúdio dele, a LoveFrom. A OpenAI comprou a empresa de hardware do Ive, a io, por cerca de US$ 6,5 bilhões em maio de 2025. Quem manda no hardware lá dentro é Tang Tan, ex-chefe de design de produto do iPhone na Apple. Currículo de respeito, ninguém discute. Tão de respeito que a própria Apple abriu processo contra a OpenAI e dois ex-funcionários seus, acusando o grupo de levar segredos comerciais pra acelerar justamente esse aparelho.
O detalhe que a turma do hype não quer lembrar: um aparelho de IA “pós-smartphone” desenhado por ex-gente da Apple já existiu. Chamava Humane AI Pin.
O cemitério dos “amigos de IA”
O Humane AI Pin saiu em 2024, criado por dois ex-designers da Apple, custando US$ 699 mais uma assinatura mensal. A imprensa detonou e o público devolveu. A empresa mirava 100 mil unidades e vendeu por volta de 10 mil. Chegou a um ponto em que as devoluções diárias passaram as vendas. Baixaram o preço de US$ 699 pra US$ 499 pra tentar salvar. Não salvou. Em fevereiro de 2025 a HP comprou os restos por US$ 116 milhões, contra uma avaliação que já beirou US$ 1 bilhão, e desligou o aparelho de vez. Quem pagou US$ 699 ficou com um broche morto preso na camisa.

Do lado do meme, teve o Rabbit R1, o quadradinho laranja que prometia um assistente pra fazer tudo por você e virou piada em duas semanas. O padrão se repete: promete substituir o celular, cobra caro, entrega menos que um aplicativo grátis.
A OpenAI tem duas cartas que a Humane não tinha: o ChatGPT de verdade por trás e dinheiro de sobra pra aguentar o tranco. Isso pesa. O problema da Humane, porém, foi vender um aparelho que resolvia algo que o celular no seu bolso já resolvia melhor. Trocar o crachá da Apple pelo da OpenAI não muda essa conta.
O problema que a própria OpenAI admite não ter resolvido
Segundo a reportagem, o time ainda está travado no ponto mais básico: qual é a voz e a personalidade dessa coisa. A OpenAI já batizou o motor de voz de GPT-Live, feito pra imitar a fala humana e pra ouvir e responder ao mesmo tempo, sem aquela pausa de walkie-talkie dos assistentes de hoje. Parece detalhe de acabamento, mas é o coração da aposta. Um alto-falante que responde comando qualquer um monta. Vender a sensação de um “companheiro” que sabe a hora de falar e a hora de calar a boca é outro nível de dificuldade, e é justamente o que ninguém entregou até hoje. Some a isso os atrasos técnicos que já empurraram o cronograma: prometido pra aparecer até o fim de 2026, o aparelho só deve chegar à mão de alguém em 2027, e “no melhor cenário” é uma frase que a indústria de gadget adora desmentir.
E tem a pergunta que o anúncio bonito nunca responde: vai ter mensalidade? A OpenAI já cobra assinatura do ChatGPT, e parte do que afundou o Humane foi exigir, além dos US$ 699 do aparelho, um pagamento todo mês pra ele funcionar. Um gadget de US$ 300 que ainda puxa uma assinatura recorrente é um começo de conversa difícil com o consumidor brasileiro, que já paga caro em tudo que é importado.
A parte que devia te incomodar
Um aparelho com câmera e microfone ligados o tempo todo, lendo seu email, olhando sua sala e decorando sua rotina, é o tipo de coisa que soa linda no palco e péssima na prática. Ano passado a Meta demitiu mais de mil trabalhadores depois que veio à tona o que os óculos Ray-Ban dela captavam em situações íntimas. Cada aparelho novo com câmera dentro de casa é mais uma janela pra alguém do outro lado, e a própria OpenAI admite que ainda está quebrando a cabeça com as questões de privacidade desse troço.
Junte a isso a estratégia da empresa. A OpenAI já deixou claro que quer o ChatGPT no centro da sua vida digital, virando uma espécie de superapp, um aplicativo só que tenta fazer tudo, de responder mensagem a controlar sua casa. Um aparelho parado na sua mesa te ouvindo o dia inteiro é o próximo passo óbvio dessa jogada. O “amigo” tem CNPJ.
Lucas Ferreira
Gamer desde o PS1, cético desde sempre
Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.
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