O recordista de indicações do Oscar não ganhou o prêmio mais importante - e o Brasil saiu de mãos vazias
O Oscar 2026 confirmou uma das disputas mais tensas em décadas - e o resultado não foi o que os recordes prometiam.
Existe uma lógica perversa na história do Oscar: o filme que entra como maior fenômeno da temporada raramente sai com o troféu principal. Aconteceu com Titanic em 1998 (bem, naquele caso deu certo), aconteceu com La La Land em 2017, e quase se repetiu desta vez com uma crueldade ainda maior. Pecadores, de Ryan Coogler, chegou ao Dolby Theatre na noite de 15 de março carregando algo que nenhum filme havia conseguido antes: 16 indicações - quebrando o recorde histórico que pertencia simultaneamente a A Malvada (1950), Titanic e La La Land. Saiu com quatro estatuetas. O rival, Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson, tinha 13 indicações e foi para casa com seis. Se o Oscar fosse uma corrida, Coogler teria quebrado o recorde de velocidade na classificatória e perdido a final para um cara que nem tentou parecer o mais rápido.
Mas antes que isso soe como derrota, é preciso contextualizar - porque as quatro estatuetas que Pecadores conquistou têm um peso específico que vai além da contagem. Ryan Coogler venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original, seu primeiro. Michael B. Jordan levou o Melhor Ator - tornando-se o sexto ator negro na história da premiação a ganhar nessa categoria, e o primeiro a fazê-lo interpretando dois personagens distintos no mesmo filme (os gêmeos Smoke e Stack, numa performance que exige não só talento mas precisão técnica quase de artesão). E Autumn Durald Arkapaw ganhou Melhor Fotografia, tornando-se simultaneamente a primeira mulher e a primeira pessoa negra e filipina a vencer nessa categoria em quase um século de Oscars. Ludwig Göransson, que já tem no currículo Pantera Negra e Oppenheimer, pegou sua terceira estatueta pela trilha. Para uma noite que “não deu certo”, Pecadores fez história em praticamente tudo que tocou.

O problema é que a narrativa da temporada prometia mais. Desde Cannes, o ano cinematográfico de 2025 foi dominado por esse embate entre dois filmes completamente distintos em linguagem e intenção: o cinema pop e político de Coogler, enraizado em blues e horror sobrenatural, contra o minimalismo existencial e intelectual de PTA em Uma Batalha Após a Outra. A dinâmica lembrava, em certo sentido, a disputa de 2007 entre Não Estou Aqui e Sangue Negro - aquela tensão entre o cinema que conversa com a cultura popular e o cinema que conversa com a própria história do cinema. Desta vez, o segundo ganhou, como costuma acontecer quando a Academia precisa escolher entre emocionar e impressionar.
Paul Thomas Anderson levou Melhor Diretor (sua primeira estatueta de direção, surpreendentemente, para quem tem Magnólia, Sangue Negro e O Mestre no currículo), Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Filme. Sean Penn ganhou Melhor Ato Coadjuvante pelo mesmo filme, completando seis troféus para a produção. A cerimônia também marcou a estreia de uma nova categoria - Melhor Elenco, a primeira adição ao Oscar desde Melhor Animação em 2002 - e Uma Batalha Após a Outra levou esse também, numa noite que PTA provavelmente ainda está processando em algum restaurante caro de Los Angeles.
Jessie Buckley venceu Melhor Atriz por Hamnet, adaptação do romance de Maggie O’Farrell sobre a filha de Shakespeare - papel que ela já vinha dominando desde os festivais europeus. É o tipo de performance que o Oscar adora: literária, reprimida, com aquela angústia britânica bem calibrada. Amy Madigan ganhou Melhor Atriz Coadjuvante por A Hora do Mal, numa vitória que levou a plateia ao delírio mais por razões sentimentais do que técnicas - entre sua primeira indicação e essa vitória se passaram quase quarenta anos.
Mas o capítulo brasileiro desta noite merece parágrafo próprio, porque foi tanto extraordinário quanto frustrante ao mesmo tempo. O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, chegou ao Oscar 2026 com quatro indicações - igualando o recorde de Cidade de Deus em 2004, que até então era o filme brasileiro mais indicado da história. Wagner Moura se tornou o primeiro brasileiro indicado ao Oscar de Melhor Ator com um filme em língua não inglesa, façanha que nenhum ator do país havia alcançado antes. O filme concorreu em Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Melhor Elenco. Não ganhou nenhuma.
Brasileiros tomaram o Twitter com o grito “fomos roubados”, que virou assunto dos mais comentados da noite. É a frustração compreensível de quem viu um filme ganhar Palma em Cannes, Globo de Ouro e crítica internacional, e saiu de mãos vazias da cerimônia mais vista do mundo. Pessoalmente, a derrota de Wagner Moura para Michael B. Jordan é a única da noite que me parece genuinamente discutível - não porque Jordan não mereça (merece, e muito), mas porque as duas performances são quase incomparáveis em natureza: Moura fez um thriller político de repressão numa língua que 99% dos votantes não falam, Jordan fez dois personagens em inglês num blockbuster cultural de $369 milhões de dólares. A Academia, estruturalmente, ainda tem dificuldade com o segundo tipo de coragem.
Adolpho Veloso também ficou sem o prêmio de Melhor Fotografia, apesar de ter se tornado o primeiro profissional brasileiro lembrado em uma categoria técnica da premiação. Perdeu para Autumn Durald Arkapaw, de Pecadores. Foram dois brasileiros em categorias técnicas e de atuação principal no mesmo ano. O cinema nacional está chegando a um lugar que parecia distante há dez anos.
O Agente Secreto pode ser visto no Brasil na Netflix. Pecadores e Uma Batalha Após a Outra estão disponíveis na HBO Max.

O Oscar 2026, no final, foi uma cerimônia sobre o que a Academia valoriza quando precisa escolher entre grandiosidade popular e precisão autoral. Pecadores fez tudo certo para Hollywood: bateu recorde de indicações, arrecadou quase $370 milhões, falou de raça e de blues e de América com uma urgência que raramente se vê em cinema de estúdio. E mesmo assim, quando chegou a hora, PTA e seu cinema de câmara levaram a guerra. Não é a primeira vez. Provavelmente não será a última. O Oscar nunca foi muito bom em premiar o cinema que define seu tempo enquanto ele ainda está acontecendo. Pede alguns anos de perspectiva para perceber o que perdeu.
Vencedores e indicados — 98ª Academia (Oscar 2026)
Vencedor em negrito. Cerimônia realizada em 15 de março de 2026, Dolby Theatre, Los Angeles.
Principais
| Categoria | Vencedor | Outros indicados |
|---|---|---|
| Melhor Filme | Uma Batalha Após a Outra | Bugonia · F1 · Frankenstein · Hamnet · Marty Supreme · O Agente Secreto · Sentimental Value · Pecadores · Sonhos de Trem |
| Melhor Direção | Paul Thomas Anderson - Uma Batalha Após a Outra | Chloé Zhao - Hamnet · Josh Safdie - Marty Supreme · Joachim Trier - Sentimental Value · Ryan Coogler - Pecadores |
Atuação
| Categoria | Vencedor | Outros indicados |
|---|---|---|
| Melhor Ator | Michael B. Jordan - Pecadores | Timothée Chalamet - Marty Supreme · Leonardo DiCaprio - Uma Batalha Após a Outra · Ethan Hawke - Blue Moon · Wagner Moura - O Agente Secreto |
| Melhor Atriz | Jessie Buckley - Hamnet | Rose Byrne - If I Had Legs I’d Kick You · Kate Hudson - Song Sung Blue · Renate Reinsve - Sentimental Value · Emma Stone - Bugonia |
| Melhor Ator Coadjuvante | Sean Penn - Uma Batalha Após a Outra | Benicio del Toro - Uma Batalha Após a Outra · Jacob Elordi - Frankenstein · Delroy Lindo - Pecadores · Stellan Skarsgård - Sentimental Value |
| Melhor Atriz Coadjuvante | Amy Madigan - Weapons | Elle Fanning - Sentimental Value · Inga Ibsdotter Lilleaas - Sentimental Value · Wunmi Mosaku - Pecadores · Teyana Taylor - Uma Batalha Após a Outra |
Roteiro
| Categoria | Vencedor | Outros indicados |
|---|---|---|
| Roteiro Original | Ryan Coogler - Pecadores | Robert Kaplow - Blue Moon · Jafar Panahi et al. - It Was Just an Accident · Ronald Bronstein e Josh Safdie - Marty Supreme · Eskil Vogt e Joachim Trier - Sentimental Value |
| Roteiro Adaptado | Paul Thomas Anderson - Uma Batalha Após a Outra | Will Tracy - Bugonia · Guillermo del Toro - Frankenstein · Chloé Zhao e Maggie O’Farrell - Hamnet · Clint Bentley e Greg Kwedar - Sonhos de Trem |
Técnico
| Categoria | Vencedor | Outros indicados |
|---|---|---|
| Fotografia | Autumn Durald Arkapaw - Pecadores | Dan Laustsen - Frankenstein · Darius Khondji - Marty Supreme · Michael Bauman - Uma Batalha Após a Outra · Adolpho Veloso - Sonhos de Trem |
| Trilha Sonora Original | Ludwig Göransson - Pecadores | Jerskin Fendrix - Bugonia · Alexandre Desplat - Frankenstein · Max Richter - Hamnet · Jonny Greenwood - Uma Batalha Após a Outra |
| Canção Original | ”Golden” - KPop Demon Hunters | ”Dear Me” - Diane Warren: Relentless · “I Lied to You” - Pecadores |
| Montagem | Andy Jurgensen - Uma Batalha Após a Outra | Stephen Mirrione - F1 · Ronald Bronstein e Josh Safdie - Marty Supreme · Olivier Bugge Coutté - Sentimental Value · Michael P. Shawver - Pecadores |
| Som | Gareth John et al. - F1 | Frankenstein · Uma Batalha Após a Outra · Pecadores · Sirât |
| Efeitos Visuais | Joe Letteri et al. - Avatar: Fogo e Cinzas | F1 · Jurassic World: Rebirth · The Lost Bus · Pecadores |
| Design de Produção | Tamara Deverell e Shane Vieau - Frankenstein | Hamnet · Marty Supreme · Uma Batalha Após a Outra · Pecadores |
| Figurino | Kate Hawley - Frankenstein | Avatar: Fogo e Cinzas · Hamnet · Marty Supreme · Pecadores |
| Maquiagem e Cabelo | Mike Hill et al. - Frankenstein | Kokuho · Pecadores · The Smashing Machine · The Ugly Stepsister |
Elenco e Internacional
| Categoria | Vencedor | Outros indicados |
|---|---|---|
| Melhor Elenco (categoria inédita) | Cassandra Kulukundis - Uma Batalha Após a Outra | Hamnet · Marty Supreme · O Agente Secreto · Pecadores |
| Melhor Animação | KPop Demon Hunters | Arco · Elio · Little Amélie or the Character of Rain · Zootopia 2 |
| Melhor Filme Internacional | Sentimental Value - Noruega | It Was Just an Accident · Mr. Nobody Against Putin · O Agente Secreto · Sirât · The Voice of Hind Rajab |
| Melhor Documentário | Mr. Nobody Against Putin | The Alabama Solution · Come See Me in the Good Light · Cutting Through Rocks · The Perfect Neighbor |
Placar final
| Filme | Indicações | Prêmios |
|---|---|---|
| Pecadores | 16 | 4 |
| Uma Batalha Após a Outra | 13 | 6 |
| Frankenstein | 10 | 3 |
| Marty Supreme | 9 | 0 |
| Hamnet | 8 | 1 |
| Sentimental Value | 8 | 1 |
| F1 | 4 | 1 |
| Bugonia | 4 | 0 |
| O Agente Secreto | 4 | 0 |
| Sonhos de Trem | 3 | 0 |
| KPop Demon Hunters | 2 | 2 |
| Mr. Nobody Against Putin | 2 | 1 |
| Avatar: Fogo e Cinzas | 2 | 1 |
| Weapons | 1 | 1 |
| All the Empty Rooms | 1 | 1 |
| The Girl Who Cried Pearls | 1 | 1 |
| The Singers | 1 | 1 |
| Two People Exchanging Saliva | 1 | 1 |
Felipe Ouder
Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.
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