O preço da RAM DDR5 subiu tanto nos últimos meses que fabricantes de PC resolveram o problema da maneira mais criativa possível: vendendo computadores sem memória. A Paradox Customs e a MAINGEAR já oferecem pré-montados com opção “BYO RAM” - bring your own RAM, traga sua própria memória. É como comprar carro sem rodas e o vendedor falar “mas o motor é bom”.
Não é marketing esperto. É desespero. A IDC prevê que o preço médio dos PCs vai subir entre 4% e 8% em 2026, e que o mercado global pode encolher entre 4,9% e 8,9%. Lenovo, Dell, HP, Acer e Asus já avisaram revendedores de aumentos entre 15% e 20% nos próximos meses. O culpado não é processador, não é placa de vídeo. É memória RAM. Mais especificamente, a falta dela.
Os números que ninguém quer ouvir
O chip DDR5 de 16Gb - o componente básico dentro de cada módulo de memória - custava US$6,84 em setembro de 2025. Três meses depois, em dezembro, já estava em US$27,20. Quase quadruplicou num único trimestre.
Na ponta do consumidor, um kit de 64GB DDR5 que saía por US$200 em outubro de 2025 agora custa US$800. Quadruplicou. No Brasil, um kit de 32GB DDR5 que custava R$850 em meados de 2025 hoje passa de R$3.200 - aumento de 270%. Um módulo avulso de 16GB DDR5 já está acima de R$900. Novecentos reais por um pente de memória. Em 2024, com esse dinheiro você comprava 64GB.
A TrendForce estima que os preços de contrato de DRAM subiram entre 55% e 60% só no primeiro trimestre de 2026. O COO da Dell disse que “nunca presenciou custos de chips de memória escalando tão rápido” na história da empresa. Um executivo da Kingston foi mais direto: “compre agora, os preços vão continuar subindo”. O gerente-geral da Team Group completou: a crise “apenas começou”.
Quando três executivos de empresas concorrentes concordam publicamente que a situação vai piorar, não é pessimismo. É aviso.
Quem está comendo toda a memória do mundo
Três empresas controlam a produção mundial de memória: Samsung, SK Hynix e Micron. São elas que fabricam tanto a DDR5 do seu PC quanto a HBM (High Bandwidth Memory) que alimenta os servidores de inteligência artificial.
O problema é aritmético: HBM precisa de três vezes mais capacidade de wafer por bit do que memória convencional. Quando a Samsung redireciona uma linha de produção pra fazer HBM pro datacenter da OpenAI, é DDR5 pra consumidor que some do mercado. Segundo estimativas de analistas, a OpenAI sozinha absorveu 40% da produção global de DRAM no ano passado. Quarenta por cento. Uma empresa.
Construir novas fábricas de semicondutores não é como abrir filial de loja. Uma fábrica de memória leva de dois a três anos pra sair do papel e produzir em escala. A Samsung inaugurou uma expansão em Pyeongtaek em 2025, mas a capacidade extra foi inteiramente alocada pra HBM. A Micron está expandindo fábricas no Japão e em Idaho, mas nenhuma vai estar operacional antes de 2027. O consumidor que quer 32GB de DDR5 pra jogar fica atrás na fila, porque o datacenter de IA paga mais.
Eu já escrevi sobre como a briga da OpenAI com a Nvidia pelos chips de IA está inflando custos em cadeia. A cascata agora chegou no componente mais básico do seu computador. A memória RAM que você precisa pra rodar o Windows com o Chrome aberto virou subproduto de uma guerra trilionária por dominância em inteligência artificial.
A tempestade perfeita que ninguém pediu
E não é só a IA. Três fatores se juntaram ao mesmo tempo.
O suporte do Windows 10 acabou em outubro de 2025. Empresas do mundo inteiro estão renovando frotas inteiras de máquinas - e cada PC novo precisa de memória DDR5 que não existe em quantidade suficiente.
Intel e AMD apostaram pesado nos “AI PCs” com processadores Core Ultra e Ryzen AI. O marketing dos fabricantes empurra configurações com 32GB como mínimo pra “experiência completa de IA no PC”. Mais demanda por memória que ninguém pediu pra ter.
Enquanto isso, a produção de HBM pra datacenters de IA continua crescendo sem freio.
Três fontes de demanda puxando a mesma oferta limitada. A previsão da TrendForce é que a escassez dure até o quarto trimestre de 2027. Quase dois anos de preços inflados pela frente.

No Brasil, a conta vem dobrada
Quem monta PC no Brasil já está acostumado a pagar ágio. Mas a situação agora não é só câmbio ruim - é escassez real de estoque.
Nos EUA, 64GB de DDR5 custa por volta de US$800. Absurdo, mas pelo menos aparece em estoque na Amazon e na Newegg. No Brasil, as prateleiras estão raleando. Kabum, Pichau, Terabyte - todas com opções limitadas e preços que mudam de uma semana pra outra, sempre pra cima. Kits de 32GB DDR5 de marcas como Kingston Fury e Corsair Vengeance que eram encontrados por volta de R$900 em meados de 2025 simplesmente sumiram ou aparecem por R$3.000 ou mais.
A Sony já admitiu que vai “monetizar a base instalada” do PS5 pra compensar o aumento nos custos de memória dos consoles. Se uma empresa que fatura bilhões por trimestre não consegue absorver o choque, imagina quem monta PC com orçamento apertado no Brasil.
Quem comprou memória no segundo semestre de 2025 fez o negócio da vida sem saber. Quem está esperando preço cair pra montar o PC gamer vai esperar pelo menos até o final de 2027 - e isso se a TrendForce estiver certa.
As gambiarras que viraram estratégia
O pessoal dos fóruns de hardware está improvisando soluções que seriam impensáveis dois anos atrás.
Tem gente comprando módulos SODIMM de notebook - que ainda custam menos em alguns modelos - e usando adaptadores pra encaixar em placa-mãe de desktop. Funciona. Mas com 5% a 7% de perda de performance e zero garantia se der problema.
Um modder russo viralizou por montar um módulo de 32GB do zero, soldando chips avulsos na placa. Custo final equivalente a uns R$1.200 - menos da metade do varejo brasileiro. O vídeo tem mais de dois milhões de visualizações. Quando soldar chip numa placa vira estratégia financeira viável, o mercado já passou de qualquer ponto razoável.
Outros estão migrando pra plataformas DDR4 como alternativa de custo. Um Ryzen 5 5600X com 32GB de DDR4 e um SSD decente faz tudo que um PC gamer médio precisa e sai por uma fração do preço de uma build DDR5 nova. Não é o setup dos sonhos, mas é o setup que existe.
Nos subreddits de hardware, a recomendação mais repetida é “compre o que achar, quando achar”. Ninguém mais sugere esperar promoção. A promoção não vem.
O que dá pra fazer agora
Se você está planejando montar PC este ano, RAM é prioridade número um no orçamento. Não é mais aquele componente genérico que você deixa pro final.
- Achou DDR5 por preço aceitável? Compre. Não espere baixar.
- Compare preços obsessivamente. Os valores mudam semanalmente nas lojas brasileiras dependendo de quando o estoque chegou.
- 16GB é o mínimo absoluto pra 2026. 32GB é o ideal se pretende ficar com a máquina por mais de dois anos.
- DDR4 ainda existe e não explodiu na mesma proporção. Uma plataforma AM4 com 32GB de DDR4 faz tudo que 90% dos usuários precisa e custa uma fração do equivalente DDR5.
O PC virou artigo de luxo de novo
Lembra quando montar PC gamer era “mais barato que console”? Esse argumento morreu. Com 32GB de DDR5 a R$3.200, só a memória custa mais que um PS5 inteiro. E o PS5 vem com memória dentro.
A IDC prevê que o mercado de PCs pode encolher quase 9% este ano. Quando fabricantes começam a vender máquinas sem o componente mais essencial pra funcionar, o recado é claro: o mercado de hardware pra consumidor ficou no fim da fila de prioridade.
Três empresas controlam a memória do planeta. Todas priorizando quem paga mais - os datacenters de IA. O consumidor que precisa de 16GB pra jogar ou trabalhar ficou no fim da fila. E a fila não anda.
A inteligência artificial prometia tornar tudo mais eficiente. Até agora, o que fez foi tornar a memória do seu computador um artigo de luxo.
Lucas Ferreira
Gamer desde o PS1, cético desde sempre
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