Um post num blog gratuito derrubou a bolsa americana. O autor é um ex-paramédico.

Um ex-paramédico publicou um exercício mental no Substack. Visa, Mastercard, DoorDash e IBM despencaram. O conceito se chama Ghost GDP.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
24 de fevereiro de 2026 5 min
Gráfico de candlestick em queda livre sobre fundo escuro, representando a liquidação de ações de tecnologia em fevereiro de 2026
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James Van Geelen é um ex-paramédico de Los Angeles com diploma em biologia e psicologia. Não é economista. Não é analista de Wall Street. Ele fundou a Citrini Research, uma newsletter no Substack - plataforma gratuita onde qualquer pessoa pode publicar o que quiser. No domingo, ele e o empreendedor de IA Alap Shah publicaram um “exercício mental” chamado “The 2028 Global Intelligence Crisis”. Gastaram 100 horas pesquisando.

Na segunda-feira, Visa, Mastercard, ServiceNow, DoorDash, Uber, Blackstone, KKR e Capital One despencaram. O ETF de software iShares (IGV) bateu a mínima de 52 semanas, caindo 5% no dia e acumulando queda de quase 30% no ano. O S&P 500 caiu 1,04%.

Um post. Num blog grátis. De um ex-paramédico.

O que o post diz

O cenário é ficção. Van Geelen imagina junho de 2028: desemprego nos EUA em 10,2%, S&P 500 em queda de 38% desde o pico, mercado hipotecário de 13 trilhões de dólares em colapso. O gatilho é a IA eliminando empregos de colarinho branco em massa - gente que representa 50% do emprego americano e movimenta 75% do consumo discricionário do país.

O conceito central se chama Ghost GDP. PIB Fantasma. A ideia é simples e por isso assusta: a IA aumenta a produtividade das empresas, os lucros corporativos sobem, o PIB cresce nos relatórios oficiais. Mas as máquinas que geraram esse crescimento não gastam dinheiro. Não compram casa, não pedem delivery, não fazem viagem, não pagam plano de saúde. A riqueza aparece no balanço. Nunca chega na economia real.

“Acontece que muito do que as pessoas chamavam de relacionamentos era simplesmente fricção com uma cara amigável”, escreveu Van Geelen. A frase se refere a todos os serviços que existem porque navegar complexidade é difícil: corretores, consultores, agentes de viagem, intermediários financeiros. Se a IA elimina a fricção, elimina o emprego de quem vivia de resolver a fricção.

Por que Wall Street levou a sério

Dois motivos. Primeiro: o texto é explicitamente “um cenário, não uma previsão”. Van Geelen repete isso. Não importa. Mercado financeiro não lê disclaimers. Mercado financeiro lê medo. E o medo ali é estruturado, com dados, com lógica interna coerente. É o tipo de coisa que um gestor de fundo lê no domingo à noite e na segunda de manhã liga pro corretor pedindo “get me out” - que é exatamente o que os traders da Jefferies relataram.

Segundo: o post não caiu no vácuo. Ele chegou no meio do que o mercado já estava chamando de SaaSpocalypse - a maior liquidação de ações de software em anos. Desde o início de fevereiro, quase 1 trilhão de dólares em valor de mercado evaporou do setor de software. Salesforce caiu 26%. Monday.com caiu 22%. Analistas do JPMorgan calcularam que empresas de software perderam 2 trilhões de dólares em valor no último ano - “a maior queda não-recessional de 12 meses em mais de 30 anos”. O post de Van Geelen foi gasolina num incêndio que já estava queimando.

Robô humanoide sentado num banco lendo um tablet, símbolo da substituição de trabalho humano por IA

O caso IBM: quando a ficção vira fato

Separado do Ghost GDP, mas no mesmo dia, a IBM levou a maior pancada: queda de 13%, o pior dia desde outubro de 2000. No mês, a ação acumula queda de 27% - a pior performance mensal desde 1968. Desde 1968.

O motivo é específico. A Anthropic - a mesma que quase perdeu o contrato com o Pentágono na semana passada - anunciou que o Claude Code consegue modernizar COBOL, a linguagem de programação de 65 anos que roda nos mainframes da IBM. Modernização de COBOL é um dos negócios mais lucrativos da IBM. Se uma IA consegue fazer isso, a pergunta que o mercado fez foi direta: pra que serve a IBM?

Alguns analistas chamaram de exagero. A IBM já tem seu próprio Watsonx Code Assistant pra Z e reportou a maior receita de mainframe em 20 anos. Mas o mercado não espera análise nuançada. O mercado vê “IA substitui negócio central da IBM” e vende. Pergunta depois.

O que isso significa pra você

Se você trabalha com tecnologia, a mensagem é clara: o mercado já está precificando um mundo onde a IA substitui trabalho intelectual em escala. Não em 2030. Não “eventualmente”. Agora. Os preços das ações de software estão caindo porque investidores acreditam que agentes de IA vão fazer o trabalho que essas empresas vendem. ServiceNow vende automação de TI. Se o Claude faz isso sozinho, quem precisa da ServiceNow?

Se você é consumidor de hardware, a cascata continua. A crise de RAM que já está encarecendo seus PCs existe porque data centers de IA compram toda a memória disponível. Agora os mesmos data centers estão destruindo o valor das empresas que seus donos supostamente querem ajudar. A ironia é quase literária.

E se você acha que um post no Substack não deveria ter esse poder, eu concordo. Mas o fato é que teve. Van Geelen gastou 100 horas num exercício mental que ele mesmo classifica como ficção. A IA que ele descreve como ameaça poderia ter gerado algo parecido em segundos. E nenhuma das duas versões - a de 100 horas ou a hipotética de segundos - mudaria o fato central: Wall Street não caiu por causa de um post. Wall Street caiu porque leu num post aquilo que já suspeitava e não queria admitir.

O Ghost GDP ainda não existe. Mas o medo dele já custa trilhões.

Lucas Ferreira
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