O Bitcoin perdeu metade do valor e ninguém sabe explicar por quê. Mentira: todo mundo sabe.

Bitcoin caiu de US$126 mil para US$63 mil desde agosto. Ouro subiu 24%. ETFs sangrando bilhões. O mercado já escolheu um lado.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
24 de fevereiro de 2026 5 min
Moeda de Bitcoin dourada sobre superfície escura representando a queda de 50% da criptomoeda em 2026
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O Bitcoin caiu 50% desde a máxima histórica de US$126 mil em agosto de 2025. Está em US$63 mil. No mesmo período, o ouro subiu 24%. Se você precisava de um único gráfico pra entender 2026, é esse.

Fevereiro foi o mês que enterrou qualquer narrativa de recuperação. Entre 31 de janeiro e 5 de fevereiro, o Bitcoin perdeu 25% em cinco dias. Cinco. É o terceiro pior mês da série histórica recente, atrás apenas de maio de 2021 (-39%) e junho de 2022 (-30%), segundo a IstoÉ Dinheiro. A diferença é que em 2021 tinha pandemia e em 2022 tinha a FTX implodindo. Em 2026, o motivo é mais simples e mais devastador: o mercado decidiu que o Bitcoin é um ativo de risco, não um porto seguro, e agiu de acordo.

O que aconteceu

A queda não veio de um evento só. Veio de vários, ao mesmo tempo, todos empurrando na mesma direção.

Os ETFs de Bitcoin - fundos negociados em bolsa que permitem investir em cripto sem precisar comprar a moeda diretamente - eram pra ser a ponte que traria o dinheiro grande pro mercado. Em 2024, os EUA finalmente aprovaram esses fundos e bilhões entraram. Agora estão saindo. Mychel Mendes, CFO da Tokeniza, resumiu: “ETFs chegaram a ter saída de mais de US$400 milhões em um único dia - foi recorde.” O dinheiro institucional que entrou está saindo pela mesma porta.

Trump anunciou novas tarifas sobre a Coreia do Sul, ameaçou o Irã, comprou briga com Canadá e Europa por causa da Groenlândia. Cada manchete geopolítica é mais uma razão pra investidor reduzir exposição a ativos voláteis. O Bitcoin, que seus defensores venderam como “ouro digital”, reagiu exatamente como uma ação de tech especulativa: caiu junto com tudo.

A nomeação de Kevin Warsh para a presidência do Fed (o banco central americano) sinalizou juros altos por mais tempo. Quando os juros sobem, investir em coisas arriscadas fica menos atraente porque até a renda fixa paga bem. E cripto é o investimento mais arriscado que existe.

E a alavancagem cobrou o preço. Alavancagem é quando você investe com dinheiro emprestado - se sobe, você ganha muito mais; se cai, você perde tudo e é forçado a vender. Entre US$3 e US$4 bilhões em posições alavancadas foram liquidadas na última semana. Quando cai, os alavancados são forçados a vender, o que faz cair mais, o que força mais vendas. É um efeito dominó que transforma uma queda normal numa avalanche.

O ouro ri por último

Enquanto o Bitcoin derretia, o ouro fez o que faz há 5 mil anos: subiu quando todo mundo ficou com medo. Valorização de 24% desde outubro. Nenhuma narrativa de “digital gold” sobrevive a um gráfico onde o ouro de verdade sobe e o ouro digital cai - na mesma janela de tempo, pelo mesmo motivo, em direções opostas.

Rony Szuster, head de pesquisa do Mercado Bitcoin, tentou enquadrar: “A queda funciona como termômetro de aversão ao risco global. Investidores buscam posições defensivas, afetando ativos voláteis.” Tradução: quando o medo bate, ninguém quer o ativo que pode cair 25% em cinco dias. Querem o que está subindo há 5 mil anos.

Barras de ouro empilhadas representando a fuga de investidores para ativos tradicionais enquanto o Bitcoin despenca

O contexto brasileiro

No Brasil, quem comprou Bitcoin na máxima em agosto de 2025 pagou cerca de R$740 mil por unidade (câmbio da época). Hoje, com o dólar a R$5,80, um Bitcoin vale R$365 mil. Perdeu metade em reais também. E como o real se desvalorizou menos que a queda do Bitcoin, o investidor brasileiro levou pancada dupla: o ativo caiu e o câmbio não compensou.

Os ETFs de cripto negociados na B3 - como o HASH11 e o BITH11, que qualquer pessoa com conta em corretora pode comprar - acompanharam a sangria. Quem entrou no hype de 2024 achando que comprar um fundo na bolsa era sinônimo de “investimento seguro em cripto” está aprendendo que o fundo é só o veículo. O que tem dentro ainda é cripto, com toda a volatilidade que isso implica.

Mais pancada à vista?

O setor de tecnologia americano, que historicamente se correlaciona com cripto, está no meio da maior liquidação de ações de software em anos. O conceito de Ghost GDP que derrubou a bolsa na segunda-feira afetou diretamente ações de tech - e o Bitcoin caiu junto. Amazon acumula -9% no ano. Palantir, -19%. Oracle, -30%. O Bitcoin seguiu o pacote.

A Jefferies, uma das maiores corretoras do mundo, já tinha removido o Bitcoin de suas recomendações em janeiro citando risco de computação quântica. Na época pareceu exagero. Hoje parece presciência.

E a lei CLARITY, que criaria regras claras pro mercado cripto nos EUA - algo que daria segurança pra empresas e investidores entrarem de vez - continua emperrada no Congresso. Sem regras, o dinheiro grande fica de fora. Sem dinheiro grande, o preço cai. Sem preço subindo, o dinheiro grande não entra. Ninguém está quebrando esse ciclo.

O que fica

O Bitcoin e o Ethereum estão tendo o pior início de ano em uma década, segundo a Fortune. Quem defende a criptomoeda vai dizer que já caiu 50% antes e voltou. É verdade. Caiu 80% em 2018. Caiu 75% em 2022. E voltou.

A diferença é que dessa vez os fundos de Bitcoin existem, os grandes investidores entraram e saíram, e a narrativa de “ouro digital” foi testada contra o ouro real - e perdeu. Não tem mais como vender o Bitcoin como proteção contra incerteza quando ele é o ativo que mais sofre com incerteza.

US$63 mil. Metade do que era. E o ouro brilhando do outro lado da tela. Os gráficos não mentem. O marketing, sempre.

Lucas Ferreira
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