Sam Altman foi chamado de "sociopata" por um colega. A investigação da New Yorker piora a partir daí.

Investigação da New Yorker reúne ex-funcionários, ex-conselheiros e até a Microsoft pra pintar um retrato brutal de Sam Altman como líder da OpenAI.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
6 de abril de 2026 5 min
Sam Altman, CEO da OpenAI, em evento de tecnologia
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A New Yorker acabou de publicar uma investigação de Ronan Farrow e Andrew Marantz sobre Sam Altman, CEO da OpenAI. O retrato que emerge não é o de um visionário incompreendido. É o de um executivo que, segundo ex-funcionários, ex-membros do conselho e colegas de longa data, não pode ser confiado.

Vamos aos fatos.

”Ele é um sociopata”

A frase é de Aaron Swartz, o programador e ativista que foi colega de Altman na Y Combinator, a maior aceleradora de startups do mundo. Swartz, que morreu em 2013, disse: “Vocês precisam entender que Sam nunca pode ser confiado. Ele é um sociopata. Faria qualquer coisa.” Não é um troll de rede social. É alguém que conviveu com Altman no dia a dia profissional.

Um ex-membro do conselho da OpenAI reforçou a ideia com palavras diferentes: “Ele não é limitado pela verdade.” E um executivo de tecnologia que trabalhou com Altman resumiu o estilo dele assim: “Ele é incrivelmente persuasivo. Tipo truques Jedi. Está em outro nível.”

O caso Dario Amodei

Dario Amodei, hoje CEO da Anthropic (a rival direta da OpenAI, dona do Claude), viveu na pele o que muitos descrevem. Em 2019, durante a negociação do acordo bilionário com a Microsoft, Amodei apresentou uma lista ranqueada de exigências de segurança pra IA. Altman concordou com todas.

Quando o contrato foi fechado em junho, uma cláusula havia sido adicionada que eliminava a principal exigência de segurança de Amodei. Quando Amodei confrontou Altman e leu a cláusula em voz alta, Altman negou que ela existisse.

Amodei saiu e fundou a Anthropic. A aversão dele por Altman, segundo a investigação, “está extensivamente documentada”. A empresa nasceu literalmente porque as pessoas que cuidavam da segurança na OpenAI não confiavam no CEO. Hoje é a principal rival do ChatGPT.

A demissão que durou dias

Em novembro de 2023, o conselho da OpenAI demitiu Altman. A justificativa oficial: ele “não foi consistentemente sincero em suas comunicações”. A base pra decisão veio em parte de memorandos internos compilados por Ilya Sutskever, cofundador e então cientista-chefe da empresa, que descreviam “um acúmulo de supostas fraudes e manipulações”.

Membros do conselho concluíram que “o papel de Altman o confiava com o futuro da humanidade, mas ele não era confiável”.

A demissão durou poucos dias. Funcionários ameaçaram sair em massa se Altman não fosse reintegrado. Altman articulou seu retorno, o conselho foi reformulado, e a maioria dos críticos internos saiu da empresa. Sutskever incluído. O cara que compilou as provas contra Altman virou a pessoa que perdeu o emprego. Pense nisso.

A CFO que não está a bordo

Outro sinal de que algo não vai bem na OpenAI: Sarah Friar, a diretora financeira, disse a colegas que não acredita que a empresa esteja pronta pra abrir capital em 2026. Altman quer o IPO no quarto trimestre deste ano. Friar questiona os gastos projetados de US$ 600 bilhões em infraestrutura de IA e o ritmo de crescimento da receita.

A relação entre os dois parece cada vez pior. Segundo o The Information, Altman tem excluído Friar de conversas sobre os planos financeiros da empresa.

Quando a pessoa responsável pelo dinheiro não confia no plano do CEO, isso normalmente é um sinal vermelho enorme. Na OpenAI, aparentemente, é só mais um dia de trabalho.

A Microsoft também reclama

O desgaste não é só interno. Executivos da Microsoft, a maior investidora da OpenAI, disseram à New Yorker que Altman “deturpou, distorceu, renegociou e renegou acordos”. No mesmo dia em que Altman reafirmou exclusividade com a Microsoft pra modelos de IA sem memória, ele anunciou um acordo de US$ 50 bilhões com a Amazon pra uma plataforma chamada Frontier. A Microsoft sinalizou disposição pra processar.

Estamos falando da empresa que investiu mais de US$ 13 bilhões na OpenAI. Se nem a Microsoft, com todo o incentivo financeiro do mundo pra defender o investimento, confia no cara, a pergunta que sobra é: quem deveria?

O padrão que a gente já acompanha aqui

A investigação da New Yorker não é uma peça isolada. É o capítulo mais recente de uma história que estamos cobrindo há meses. Em março, a chefe de robótica pediu demissão por causa do acordo com o Pentágono. Semanas depois, o Sora foi encerrado e levou junto um acordo de US$ 1 bilhão com a Disney. E ontem publicamos sobre como pesquisadores descobriram que as pessoas confiam cegamente no ChatGPT, num fenômeno que chamaram de “rendição cognitiva”.

O padrão é sempre o mesmo: a OpenAI cresce rápido, promete muito e coleciona saídas de gente que discorda da direção. E no centro de tudo está sempre a mesma pessoa.

Por que isso importa

A OpenAI não é uma startup de garagem. É a empresa responsável pelo ChatGPT, usado por centenas de milhões de pessoas no mundo todo, incluindo uma parcela gigantesca de brasileiros. Está desenvolvendo o que ela mesma chama de “superinteligência”. E o CEO dessa empresa, segundo as pessoas que trabalharam mais perto dele, não é confiável.

Sue Yoon, ex-membro do conselho, ofereceu uma leitura mais gentil: Altman não é maquiavélico de propósito, é alguém desconectado da realidade que acredita nas próprias narrativas em constante mudança.

Sinceramente, essa explicação é ainda mais preocupante. Quando alguém é desonesto de propósito, pelo menos sabe a verdade. Quando alguém acredita nas próprias versões, não tem freio.

A OpenAI planeja abrir capital ainda este ano. Na última rodada de investimento, em março, foi avaliada em US$ 852 bilhões. Os investidores vão ler essa reportagem. A pergunta não é se o IPO vai acontecer. É quanto tempo o mercado vai fingir que nada disso importa.

Lucas Ferreira
AUTOR

Lucas Ferreira

Gamer desde o PS1, cético desde sempre

Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.

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